BOI NEON

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Por Melissa Silsame

Boi neon parece ser um daqueles filmes que você gosta e não gosta ao mesmo tempo. Ou primeiro desgosta e depois passa a gostar, ou vice-versa. Os gostos aqui não importam muito.

Temos nessa obra a história de Iremar (Juliano Cazarré), que vive trabalhando com os amigos em diversas vaquejadas em pontos do nordeste, porém seu maior desejo é ser estilista.

A princípio, pra quem não está inserido no meio cultural dos rodeios e vaquejadas pode achar muitas cenas incômodas por mostrarem justamente tão de perto o que acontece com os animais durante essa “festa”. Sentimento que se mantém durante todo o filme. Aproveitando esse gancho podemos adentrar nessa fenda de realidade aberta pelo filme. A relação das pessoas com os animais torna-se tão profunda que merece uma nota. Os bois estão presentes no entretenimento, são o meio de sustento de Iremar e seus colegas, são também o fetiche dos marmanjos da noite (onde há a icônica cena da mulher sensualizando com cabeça de cavalo), e são parte do sonho da pequena Cacá, que queria muito ter um cavalo só seu. Estão presentes quase o filme todo simbolicamente ou presencialmente.

Somos colocados no meio de trabalho desses peões quase que invadindo esse mundo onde o gado rodeia a vida de muitos. Temos um humor pontual, que não se exalta, acertando em cheio nesse ponto com personagens simples e de fácil identificação com a população interiorana. Um destaque para a personagem de Cacá (Alyne Santana) que rouba a cena toda vez que aparece, não apenas por ser a única criança no meio de adultos, mas talvez por ser a única representação de inocência entre eles. Infelizmente o mistério de sua paternidade não teve tanta importância assim para ser mais explorado, afinal, ela não seria tão importante para a trama. Ainda assim seria uma possibilidade que foi deixada de lado.

O Boi Neon do título aparece uma única vez, mas nos lembra de apreciar a bela iluminação das cenas noturnas. Especialmente as cenas de sexo, ousadas e novamente remetendo ao fetiche dos bois e da costura.

Talvez Iremar nunca consiga trabalhar com costura, nem Cacá encontre seu pai e ganhe seu cavalo, mas nesse recorte de vida que podemos invadir, encontramos personagens que mostram uma personalidade forte que resiste em um ambiente pouco esperançoso. No meio das vaquejadas essas histórias invisíveis persistem e continuam entre o momento em que um boi vai ao chão, ou ao vender-se um cavalo.

Entretanto não busca ser mais do que é, podendo ter explorado mais à vontade de Iremar para seguir seu desejo. Como filme mediano se sai muito bem, podendo desapontar a quem esperava demais desse boi que brilha no escuro. Ou talvez precisemos de mais filmes medianos para diminuir um pouco o desejo de grandeza e fama que tem levado muitos filmes a quererem ser maiores do que são. Nesse patamar, esse boi foi um acerto.

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