EDITORIAL – GÊNEROS CINEMATOGRÁFICOS

Gênero Cinematográfico. É difícil falar de gênero no cinema quando em função de inúmeros recursos intertextuais, empilham-se códigos sobre códigos numa espécie de palimpsesto onde o difícil é encontrar um filme que não seja genérico. Mesmo a pureza dos códigos hoje ficou difícil de se defender quando os próprios autores procuram se equilibrar nos limites entre uma coisa e outra, ou produzir misturas antes impensáveis. Ninguém quer mais ser taxado. Filme de terror ou terrir? Misto de comédia com suspense; comédia romântica; pastiche; paródia. Filmes sem categorias. Vivemos um golpe ou um arremedo de um golpe? Uma tragédia se repete como farsa? Existe um gê- nero de narrativa que codifique e configure um modo golpista de expressão? Para ser um Coup Movie basta o golpe ser o tema ou é necessário um pouco mais de personalidade para ser catalogado assim: criar uma atmosfera, um sentimento catártico além do horror e da piedade propostos por Aristóteles?

Com ambições bem mais modestas, a Cinecachoeira deste semestre não procura definir o que seja gênero. Nem questionar um modelo de análise que, mesmo apresentando sinais de cansaço, ainda consegue ser adequado para iluminar determinados procedimentos de fruição estética e de categorizações. Oferecemos com esse número artigos que enquadram obras em determinados modelos de comunicação que por ora a palavra “gênero” consegue dar conta. Dentro deste caldeirão de referências, apresenta-se um cardápio variado e diverso, podemos até dizer, original, dado os gê- neros que aborda.

Em “Cinema e Crônica no Brasil”, o crítico Luíz Alberto Rocha Melo se debruça sobre a relação entre este gênero literário-jornalístico com o cinema brasileiro através dos tempos; André Gatti, a partir da perspectiva da produção, observa a emergência e a relevância do regionalismo no Brasil em “Cinemas Regionais: Uma Cartografia”; seguindo desde as definições românticas, Guilherme Sarmiento investiga as transformações do fantástico na literatura e no cinema em “Breviário do Fantástico no Brasil”; Lúcio Agra mostra que a importância de Mojica vai além do terror e se apropria do tropicalismo em “Quatro Pequenas Hipóteses sobre Mojica”. Aproveitando-se de sua experiência como curadora do CachoeiraDoc, Ana Rosa confere a nova safra de documentários brasileiros em “Documentário: O Que Dizem os Festivais ?

Dentro do Dossiê trouxemos ainda um especial sobre Cinema Musical no Brasil, fruto das pesquisas do Laboratório de Análise Fílmica, da UFBA. Lucas Ravazzano escreve sobre onda das biografias musicais em “De Bressane a Carla Perez: Musicais Biográficos no Brasil” ; descortinando o efeito esté tico do gênero, Euro Azevedo mergulha nos musicais americanos em “Descrença e Mágica nos Musicais de Hollywood” . E, para encerrar com chave de ouro o dossiê, uma entrevista com o diretor Antônio Carlos Fontoura.

Outras seções da revista apresentam textos intrigantes e inéditos no Brasil. Fernanda Martins traduz o importante texto de Jacques Aumont, “A Imagem velada – O Informe Luminoso” na seção Traduções. Na seção Artigos, Eduardo Portanova publica o polêmico e provocador “Antirroteiro Cinematográfico” e os autores Mariana Lemos, Caio de Oliveira e Letícia de Sá refletem sobre o uso dramático da cor em “Cores Complementares em Pedalando com Molière . Por fim, na seção Antes da Tela, João Marciano Neto traz pra revista o Storyboard do filme Encosto, de Joel Caetano.

Boa leitura!