O ANJO NEGRO

Por Larissa Brujin

Protagonizado por Mário Gusmão, O anjo negro é um filme “carregado de folclore” (Jornal da Bahia, 1973), que nos incomoda, mas não num sentido ruim, agonizante, mas sim de um modo que nos faz refletir sobre o seu significado, principalmente, por se tratar de um tema racial. Tendo grande repercussão na Bahia da década de 1970, O anjo negro conseguiu agradar a população.

Filmado em 1971 e 1972, lançado no ano seguinte, no auge da ditadura militar, o filme consegue retratar muitos elementos da cultura baiana da época, como o carnaval, festas populares, o candomblé, o futebol e o conflito entre gerações. O anjo negro pode ser uma ligação entre o passado dos escravos com o presente carnavalesco, futebolístico e afrodisíaco. Mas, assim como o carnaval, o futebol também era uma forma de distração das massas, uma forma de escapismo no auge da ditadura militar.

Misturando uma linguagem realista e surrealista, o filme retrata a vida de uma família tradicional em decadência, por causa do conflito entre os adultos e a nova geração vigente. A família é composta pelo avô, Getúlio, que representa as camadas senhoriais, herança da época colonial; um chefe de família, Hércules, que é juiz de futebol e empresário; sua esposa, Júlia, médica, que não gosta do envolvimento do marido com o esporte; o sobrinho “rebelde”, que abandonou os estudos; e a sobrinha, expulsa do convento depois de ficar grávida e realizar um aborto sozinha. Na casa, trabalham um índio e uma mulata, que representam a miscigenação brasileira. Calunga é o nosso anjo negro “mágico, misterioso, sensual, elegante, brincalhão, dançarino”, que invade a vida da família depois de ser atropelado pelo juiz e sua mulher, naquele momento, cega.

A personagem de Calunga pode ter várias leituras. Uma primeira seria a de um Exu evocado por um bode, que inicia e termina o filme. Exu é o orixá mensageiro do candomblé, que permite o contato dos humanos com as outras divindades. Ele pode facilitar ou dificultar as coisas, mas recebeu o nome de diabo cristão pela Igreja Católica, representando a desordem e o caos. Uma segunda leitura seria a do próprio negro marginalizado e excluído da sociedade, sendo o responsável pelo ritual de inversão que se deu na noite de Natal, na casa da família. Calunga, ao invadir a intimidade familiar, está representando a entrada do negro na sociedade e um rompimento de barreiras. Segundo José Umberto, essa ruptura fez com que os negros tivessem um “novo tipo de vida baseado na liberdade e na ação”. Poderíamos até dizer que o anjo negro representa o mar, pois é o elemento que separa os dois continentes, o africano e o americano, e que liga também o povo afro-brasileiro à sua origem. O cineasta faz muito uso da imagem do oceano, que retrata a vinda dos escravos para o Brasil. A figura metafórica de Calunga não tem uma explicação lógica e, por isso, há a possibilidade de diversas leituras.

José Umberto faz uma apologia do negro em seu filme, utiliza a alegoria para retratar a força negra entrando na sociedade branca patriarcalista colonial. Segundo depoimento do próprio diretor, o filme “quer mostrar, de um lado, o mundo preto, com a sua anarquia, sua liberdade, seu colorido, sua magia, e, do outro, a sociedade branca brasileira, especialmente a nordestina. Prevê o desencadear da desordem, do caos, e revela a falsa harmonia que existe numa família patriarcal nordestina”.

Enfim, O anjo negro é um filme cheio de mistérios e elementos que nos surpreendem a cada cena, do início ao fim do filme, e que “enlouqueceu a Bahia” (Jornal da Bahia, 1973). Sem contar a inesquecível interpretação de Mário Gusmão e sua força corporal. Mário se tornou referência para os negros e as negras de todo o Brasil.

Larissa Brujin é aluna do segundo período do curso de cinema da UFRB.

BIBLIOGRAFIA

BACELAR, Jeferson Afonso. Mário Gusmão: um príncipe negro na terra dos dragões da maldade . Rio de Janeiro: Pallas, 2006.

RAMOS, Fernão & MIRANDA, Luís Felipe (orgs.). Enciclopédia do Cinema Brasileiro. 2 ed. São Paulo: Senac Editora, 1997.

5 thoughts on “O ANJO NEGRO

    1. guilhermesarmiento Post author

      Oi, Luisa, entre em contato com o diretor, José Umberto. Ele pode disponibilizar uma cópia para você.