UMA COBERTURA DO I FESTIVAL DE DOCUMENTÁRIOS DE CACHOEIRA

Uma cobertura do I Festival de Documentários de Cachoeira


Por André Araujo

O Começo

Até pouco tempo, essa cena pareceria improvável: numa praça de uma cidade do Recôncavo Baiano, com pouco mais de 30 mil habitantes, a exibição do primeiro documentário que se tem notícia acompanhado de uma orquestra tocando ao vivo. Verdadeira cena de cinema que se tornou realidade na cidade de Cachoeira-BA, durante a abertura do I Cachoeiradoc, com a projeção do filme Nanook do norte, na Praça da Aclamação, no dia 5 de novembro de 2010.

Realmente, essa foi uma idéia muito feliz da organização do evento. Conforme relatou o Professor Guilherme Maia, responsável por articular a proposta junto à Escola de Música da UFBA, a peça foi criada coletivamente, num processo que envolveu um estudo aprofundado da estrutura do filme, e a posterior composição das músicas, dentro de um projeto que passou a ser chamado de Nanook Ensemble.

Enfim, uma experiência que remontou aos primórdios do cinema, mas que, certamente, era nova para a maior parte dos presentes. E a curiosidade e o envolvimento foram tantos que a platéia ficou lotada e as cadeiras não foram suficientes para os presentes. Ponto positivo e belo começo para o Cachoeiradoc.

A partir daí, iniciou-se uma verdadeira maratona de sete dias de exibições de algumas das principais realizações do campo documental brasileiro, sem contar a presença de alguns representantes internacionais. A programação foi composta, ao todo, por cinco mostras: a Mostra Competitiva, a Mostra Bahia, Mostra Recôncavo, Mostra Cinema Sem Fronteiras, além de um ciclo de debates, oficinas e sessões especiais. Um pouco de tudo isso você poderá conferir no modesto relato deste que vos escreve.

Tendências, Inovações, repetições e afins

Nos primeiros dias do festival, acabei sendo um pouco pretensioso e tentei desvendar, por trás daquelas produções, alguns traços comuns que dessem pistas sobre as tendências do documentário contemporâneo. Esforço em vão, pelo menos parcialmente. É bem verdade que dá para perceber alguns modelos que estão se tornando mais hegemônicos: a ausência de narradores; o modo observativo; a priorização dos sons ambientes e pouco uso de trilhas; o questionamento (às vezes um tanto quanto forçado, é verdade) das fronteiras entre documental e ficção.

Algumas produções são bons exemplos da utilização de alguns (ou todos) desses elementos. A falta que me fez talvez seja o melhor deles, pois utiliza justamente os quatro, e de uma forma muito bem feita, diga-se de passagem.

O filme narra o cotidiano de uma série de jovens do interior de Minas Gerais, mulheres que estão passando da fase jovem para a fase adulta e possuem diferentes formas de enxergar a vida: relação com filhos, com o casamento, com o seu lugar de origem. Um filme com um ritmo bastante lento, sequências longas, mas, ao contrário do que se poderia imaginar, não beira, em nenhum momento, à monotonia.

Certamente, a belíssima fotografia do filme contribui para isso, sem contar a força das histórias ali narradas, que prendem a atenção de qualquer pessoa. Por isso mesmo, localizo justamente aqui, na sua fotografia, o ponto alto do filme.

Por falar em fotografia, vale a pena citar mais dois exemplos. O primeiro é Ave Maria ou a mãe dos sertanejos, dirigido por Camilo Cavalcanti. Premiado em diversos festivais pelo país, retrata o sertão nordestino às 18h, momento em que, tradicionalmente, é tocada a Ave Maria. Fotografia impecável, é verdade. Mas, na proposta realizada, nada de novo. Talvez por isso, pela familiaridade já existente com as imagens do sertão mostradas, o filme não gera (ou não gerou, pelo menos em mim), nenhum efeito extraordinário.

O segundo é o belíssimo Mãos de outubro, do realizador paraense Vitor Souza Lima. O filme retrata um pouco do imaginário em torno do Círio de Nazaré, uma das principais festas religiosas do país. O diferencial está no recorte utilizado: todos os planos mostram, apenas, mãos. As mãos que pedem bênçãos, as mãos que preparam os fogos de artifício, as mãos que preparam o manto da Virgem de Nazaré, as que decoram ou carregam a berlinda (veículo que leva a imagem da Virgem pelas ruas de Belém), ou ainda as que jogam papel picado no momento em que a imagem passa pela porta de sua casa.

Inicialmente, a proposta gera até um pouco de estranhamento: nenhum dos rostos das personagens aparece, e sua voz serve como narração em off daquele ofício que realiza em nome dos festejos. Se pessoas aparecem, elas surgem em segundo plano, ou desfocadas. O interesse aparente, então, não é personalizar a fé do Círio em algumas pessoas, mas tomá-las como símbolos de todo um povo devoto.

As inovações de linguagem, dispositivo e formato também estiveram presentes em diversos filmes, em alguns de forma bem utilizada, em outros já nem tanto assim. Pacific, de Marcelo Pedroso, é um ótimo exemplo de uma ótima idéia, uma proposta inovadora e uma realização bem feita, mas deixo pra comentar sobre o filme na seção seguinte.

Um recurso recorrente foi a tentativa de confundir as fronteiras entre ficção e realidade. Um dos filmes que optou por este caminho foi Álbum de família, do baiano Wallace Nogueira. Entretanto, ao mesmo tempo em que este é um recurso interessante utilizado pelo filme, reside aí a sua maior fragilidade.

A sua história, em principio, me pareceu bastante interessante: a relação entre pai e filho após a morte da mãe/ex-esposa dos mesmos. A observação importante é que o filme era autobiográfico, e o filho, a que o filme faz referência, é o próprio Wallace. Entretanto, em algumas sequências, esse recurso não gera a impressão de uma ação natural, mas sim de algo forçado, montado. Assim, a “magia” do documentário se esvai, e caímos na tentação de enquadrá-lo enquanto uma ficção em que os atores encenam seus próprios papéis. Uma diferença tênue de localizar, mas fundamental.

Mas a linguagem tradicional também teve seu espaço. Em Atrás da Porta, filme que também comento com mais detalhes mais à frente, entrevistas são intercaladas com imagens que retratam o cotidiano de sem-tetos do Rio de Janeiro. Outro filme que faz essa opção é Depois de ontem, antes de amanhã, da paulista Christine Liu. A proposta é aparentemente simples: retratar a visão de uma cidade no interior de Pernambuco a partir da visão de três moradores: duas aparentes lideranças populares locais e um cinegrafista. Entretanto, em diversos momentos, o filme causou grande desconforto.

Em primeiro lugar, gerou estranhamento a aparência das “cenas montadas para a câmera”: pessoas arrumadas e entrevistas bem marcadas, e uma aparente impressão de um filme no estilo “famílias felizes mesmo com todos os problemas e dificuldades”. E, em segundo lugar, o filme aparenta a clássica visão de “alguém de fora”. Tenho a impressão de não haver um aprofundamento nas relações estabelecidas entre as pessoas e aquele lugar. Talvez porque as narrativas estejam mais nas falas das pessoas do que no que é mostrado pelas imagens.

Destaques, Premiações, Homenagens e Ausências

Não, eu não fui influenciado pelos júris do festival, mas admito que concordei, sem tirar nem pôr, com a lista de premiados. Pelo júri jovem, o filme escolhido como melhor longa foi Atrás da porta, de Vladimir Seixas (RJ). Como já citado anteriormente, o filme retrata o problema da (falta de) habitação no Rio de Janeiro, a partir de um retrato de ocupações urbanas realizadas no centro da cidade. Entre imagens extremamente fortes, e discursos militantes, o filme não deixa (ainda bem) de tomar partido.

A estrutura aparentemente é tradicional, entrevistas + imagens, mas a força da mensagem ali colocada torna desnecessário qualquer tipo de inovação de linguagem. As imagens, sem seguir necessariamente um padrão temporal, têm a sua força na forma como são captadas, seja pela proximidade que estabelecem com o dia a dia das personagens, ou pela forma como mostram os detalhes de como aqueles espaços são ocupados. No final das contas, é impossível sair indiferente em relação ao tema e em relação àquelas pessoas ali registradas.

É impossível, então, não se envolver com aquelas pessoas, não entender a força daquela causa, não se sentir um pouco (ou muito) responsável por isso, mas também perceber que somos sujeitos ativos e a história não está dada. Ou seja, é mais um daqueles filmes que extrapolam a forma fílmica e nos faz questionar alguns de nossos principais problemas sociais.

Certamente, escolher um filme como este não deixou de representar um ato de coragem do júri jovem, tendo em vista que, de forma geral, filmes com a linguagem (militante) adotada por Atrás da porta não ocupam um lugar destacado dentro da crítica cinematográfica em geral.

Já como melhor curta, o escolhido foi O sarcófago, do baiano Daniel Lisboa (o mesmo que fez o mais do que comentado O fim do homem cordial, lembram?). Aqui, uma feliz união: uma personagem extremamente forte e enigmática representada por um diretor que ousou captá-la com a força que ela merece.

Já pelo júri oficial, o melhor filme foi Pacific, do pernambucano Marcelo Pedroso. A começar, o filme já chama atenção pela sua proposta: ele traz editados uma série de registros feitos durante um cruzeiro por passageiros que disponibilizaram suas imagens para a produção do filme. O resultado é um filme com 72 minutos de imagens manipuladas pelo diretor sem que tivesse nenhum contato prévio durante a sua captação, algo aparentemente simples, mas bastante desafiador.

Antes de assistir o filme, já tinha ouvido alguns comentários de colegas de curso, e que, de forma geral, classificavam-no como “chato” ou “difícil”. Mas, ao contrário do que esperava, o filme se mostrou extremamente interessante, tanto pela forma como pela crítica sutil ao modo de vida e aos anseios da classe média (e da qual boa parte de nós também fazemos parte). Um exercício de crítica, mas também de autocrítica.

E o melhor curta foi Peixe grande, de Vincent Carelli. Este acabou sendo um dos poucos filmes que não consegui assistir dentro da Mostra Competitiva do festival. Então, fico devendo uma posição mais detalhada sobre o mesmo.

Dentro das menções honrosas, foram lembrados os dois filmes premiados pelo júri jovem: Atrás da porta e O sarcófago. Entretanto, seriam necessárias outras tantas menções para coroar outros belos trabalhos apresentados pelo festival. Um deles é o já citado A falta que me faz. Outro é a produção de Henrique Dantas, Filhos de João, admirável mundo novo baiano, que conta, de forma intensa, a história dos Novos Baianos. O clima de nostalgia (mesmo sem ter vivido o período) é inevitável, e o gosto por conhecer mais aquelas pessoas.

Acredito que produções como essa ganham o público jovem porque existe por trás dela certo romantismo (até mesmo certa inveja) sobre a juventude dos anos 1960/1970, seu espírito transgressor (em todos os sentidos possíveis e imagináveis). Mas, especialmente, sobre a forma como jovens talentosos revolucionaram a cultura brasileira. Espírito semelhante toma conta (ou pelo menos tomou conta de mim) ao assistir Uma noite em 67 (quem dera ter conhecido o Caetano daquela época). Entretanto, acredito que Filhos de João consegue despertar esse sentimento de uma forma muito mais viva do que outros filmes que têm uma proposta semelhante de reviver um momento cultural, mais até do que o badaladíssimo Uma noite em 67.

Outra menção merecida é para o filme Um lugar ao sol. Na verdade, pelas conversas de corredor e de lounge, o filme foi um dos preferidos do público do festival. Entretanto, acredito que as questões éticas sobre o uso das imagens captadas pelo filme acabam tornando-o menos forte para premiações desse tipo.

Por outro lado, qualquer tipo de menção honrosa seria desnecessária ao Corumbiara, fruto de um intenso processo de pesquisa e envolvimento com o tema pelo diretor Vincent Carelli. A partir da denúncia de um massacre a um grupo indígena de Rondonia, Vincent, acompanhado de outras pessoas, inicia busca pela coleta de indícios que provem este acontecimento. Uma busca que durou mais de 20 anos, mas que não conseguiu dados conclusivos.

De toda forma, é interessante como ficamos envolvidos pela causa do diretor, pela sua busca, esperando, a qualquer momento, que indícios sejam encontrados e que sobreviventes sejam contatados. Ainda assim, não há como não se questionar sobre as questões éticas que envolvem documentaristas, antropólogos, jornalistas e outros, nas suas relações com aqueles que estão sendo “observados”.

Numa cena emblemática, um sobrevivente de uma segunda incursão contra povos indígenas da região é identificado. Para que as terras sejam demarcadas, é necessário uma imagem dele, algo que prove sua existência para o homem branco. Após algumas tentativas, ele é encontrado numa cabana, e todo um esforço é feito para contatá-lo e filmá-lo. Ele se sente acuado, e chega até a lançar uma flecha em direção à câmera, mas as filmagens continuam. Assim, não há como não se perguntar: quais os limites que devemos ter, já que é impossível não haver nenhum tipo de interferência no contexto retratado? Segundo Carelli, uma escolha tinha de ser feita, e ela foi feita.

Por fim, o festival prestou homenagem a Geraldo Sarno, realizador baiano que possui importante participação na história do documentário brasileiro. Para coroar a homenagem, foram realizadas duas sessões especiais: a primeira mostrou alguns filmes clássicos, produzidos na década de 60: Viramundo, Viva Cariri! e Eu carrego o sertão dentro de mim. E, em seguida, a sua obra mais recente, intitulada O último romance de Balzac.

O filme mistura ficção e documentário para contar a história de uma obra psicografada pelo médium Waldo Vieira e que teria autoria atribuída ao escritor Honoré de Balzac. De uma forma diferente, ele mescla entrevistas intercaladas com cenas de ficção que remontam à obra A pele de onagro, esta escrita em vida por Balzac.

Dentro desta visão parcial, faltou comentar outra série de coisas: a sessão Cinema Sem Fronteiras, o ciclo de debates, alguns filmes, outros filmes… Mas o panorama geral aqui feito dá uma visão de como o I Cachoiradoc proporcionou visões múltiplas sobre a produção documental nacional e internacional. Foi um belo começo. E que venham as próximas edições!

André Araújo é aluno do terceiro período da Graduação em Cinema e Audiovisual da UFRB.

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Veja mais fotos do evento em: http://picasaweb.google.com/106246538356213324459

3 thoughts on “UMA COBERTURA DO I FESTIVAL DE DOCUMENTÁRIOS DE CACHOEIRA

  1. Fernando Almeida

    Feliz daquele que teve a oportunidade de participar do I CachoeiraDoc. O festival já é sucesso. Parabéns pela revista.

  2. Daniela Pereira

    Lindo festival! Linda cobertura!Parabéns à revista pela brilhante cobertura!Foi um prazer participar e trabalhar nesse festtival.

  3. Jessé Patríco

    Chato, monotono, pseudo intelectual, que depois de trinta minutos de exibição consegue te levar para as profundezas do sono mais profundo, é assim que posso denominar Pacific, o grande vencedor do CachoeiraDoc. Na ânsia de achar legal tudo que é nova linguagem, mesmo que ela seja um porre, filmes como Pacific leva vantagem e sai angariando elogios e prêmios por festivais por onde passa.

    Há um pretensiosismo do diretor ao entregar a um dos tripulantes de um navio transatlântico uma câmara para filmar sua viagem luxuosa , câmara essa que vai ser usada contra si próprio, para mostrar toda uma alienação de uma classe média consumista que se acha o máximo por obter privilégios de poucos. Essa atitude de fazer a burguesia se auto criticar sem perceber, acaba caindo por ralo abaixo na montagem do filme que fica entre o marrento e o insuportável, e do qual o momento final das explosões dos fogos na virada do ano acaba acarretando uma certa felicidade e relaxamento ao saber que aquela tortura audiovisual que você vai ter que engolir como cult acabou. São poucos que admitiram isso, poucos ainda são aqueles que assumiram que Um Lugar ao Sol( com montagem do diretor de Pacific, há algo que preste em sua cine-biográfia rsrs) conseguiu fazer de maneira bem mais elaborada e legal o que Pacific prentedia, mostrar uma classe dominante e sua arrogância e prepotência diante a sociedade que não compatilha de suas mesmas riquezas.

    Mudando de assunto, quem conseguiu romper de maneira excelente a fronteira entre ficção e documentário foi o filme A Ferida (La Blessure, Nicolas Klotz, Bélgica/França, 2004), exibido na mostra cinema sem fronteiras foi visto por poucos que permaneceram até o fim da sessão e viram diante de si a riqueza de um filme que consegue criticar de maneira bela e forte as mazelas de um mundo que tende a usar das fronteiras geográficas para a rejeitar ao próximo e não lhe dá uma oportunidade de mudança de vida.

    CachoeiraDoc está de parabéns pela ótima qualidade da maioria dos filmes exibidos, e pelas figuras ilustres que comparecem ao festival. Quando é que teremos outra chance de assistir a um Corumbiara e depois ter o diretor o grande e respeitado cineasta Vicent Carelli falando sobre todo o processo do filme. Beijou, beijou, quem não beijou, não beija mais.
    André, parabéns pelo texto, sintetizou legal o que foi o festival.