ROCK BRASÍLIA – ERA DE OURO

Por Diogo Nunes

Brasília, ano de 2011. A vasta Esplanada dos Ministérios está vazia, como sempre, mas ouvimos gritos de uma multidão, acompanhados por guitarras e baixos que se afinam. As imagens áridas do monumento de Niemeyer são povoadas pelo barulho de uma multidão que paira, mas não se materializa. É assim que começa ‘Rock Brasília Era de Ouro’, documentário de Vladimir Carvalho sobre a cena de rock que surgia na capital federal no inicio dos anos oitenta.

Depois das imagens de abertura, uma entrevista com Renato Russo, líder da Legião Urbana. Ele conta que seu gosto por rock surge quando sua tia o colocava para dormir, ainda bebê, ao som do estilo pelo qual se consagraria como um dos maiores poetas da contemporaneidade. E assim segue o filme, permeado por entrevistas que remontam a trajetória das bandas Plebe Rude, Capital Inicial e a Legião Urbana.

A montagem do filme une pessoas e tempos que não existem mais. Os cortes alternando falas de Renato Russo, morto em 1996, com depoimentos atuais de seus parentes e amigos, traz vivacidade para o filme e a sensação de que as entrevistas do mítico líder da Legião é uma conversa entre amigos. Palmas para a apurada pesquisa de Vladimir Carvalho, que garimpou imagens e depoimentos raros e inéditos e soube articulá-los com o restante do filme. Outro momento onde essa estratégia é usada é quando Herbert Vianna (Paralamas do Sucesso), numa entrevista da década de 80, conta, junto com Dado Villa-Lobos em 2011, como a Legião foi apresentada às gravadoras.

As entrevistas de Renato Russo exibidas no filme funcionam como um eixo narrativo que interliga todos os outros depoimentos. Assim como na primeira fala, observamos como os depoimentos de Renato Russo dialogam com as histórias contadas pelos tantos outros personagens do filme. Cada depoimento é endossado ainda pela participação de alguns de seus parentes: Silvia Seabra, mãe de Phillipe Seabra (guitarrista e vocalista da Plebe Rude), Briquet de Lemos, pai de Fê e Flávio Lemos (Baterista e Baixista, respectivamente, do Capital Inicial) e Carmem Tereza e Carminha Manfredini, irmã e mãe de Renato Russo.

O filme é basicamente construído por imagens de arquivo e entrevistas e, como um filme que se sustenta nelas, tornam-se importantes informações inéditas e íntimas. A fala dos integrantes das três bandas que o documentário acompanha tem o tom da intimidade: eles, os ídolos, compartilham com nós espectadores suas experiências pessoais, e nós nos ligamos a eles na medida em que essa intimidade é compartilhada. Os parentes, donos das falas de cumplicidade, vem corroborar e sentimentalizar o discurso proferido.

Há duas entrevistas que destoam do corpus do filme. A primeira é a do jornalista e biógrafo de Renato Russo, Carlos Marcelo, que ensaia ser uma voz de autoridade ao explicar alguns fatos que poderiam ser relatados pelos familiares de Renato, ou mesmo pelos outros integrantes da banda, Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá. Essa voz explicativa se torna desnecessária e redundante no momento em que os depoimentos dos músicos vêm acompanhados de reflexão e autocrítica.

A segunda entrevista que causa estranhamento é a de Caetano Veloso que conta como conheceu Renato e convidou a Legião Urbana para seu programa de televisão, ‘Chico & Caetano (1986). Estranha justamente porque é um entrevistado, que diferente dos outros, não conviveu de maneira decisiva e/ou íntima com Renato Russo. Mas compreendo a intenção do diretor em capitanear valor simbólico com a presença de Caetano, mesmo que este não acrescente nada ao enredo do filme.

A mistura de linguagens ao longo da narrativa também incomoda. Para preencher depoimentos o diretor usa algumas dramatizações e em outros momentos exagera com o uso de animação. Em um dos casos ouvimos a narração de um texto por Dinho Ouro Preto (vocalista do Capital Inicial) sobre o local onde a ‘Turma’ (como o grupo de futuros músicos era autodenominado) se reunia para beber e fazer música. As imagens que acompanham a voz-off é totalmente descritiva, eliminando qualquer tentativa de idealização daquele ambiente onírico. É difícil entender o uso dessa estratégia, já que se trata de um filme que não propõe revoluções estéticas no campo do documentário. As histórias e depoimentos são tão sinceros e cativantes de serem ouvidos que essas inserções afastam mais do que aproximam o espectador do filme.

Como não poderia deixar de ser, o filme de Vladimir Carvalho é contextualizado com o momento histórico que trata. O fato de os pais da ‘Turma’ serem, em geral, professores da UnB, funcionários públicos e diplomatas, permitiu que eles morassem próximos e compartilhassem as mesmas influências musicais, o punk rock inglês. Um dos trechos em que o filme escapa da música para tratar do momento político do Brasil é quando Briquet de Lemos relata como aconteceu a invasão da polícia ao prédio da UNB em 1968. As imagens mostradas não são inéditas, porém atualiza o momento histórico do qual o filme trata e evidencia de onde as bandas Aborto Elétrico e Plebe Rude, mesmo surgindo no inicio da abertura política, angariaram motivos para seu espírito contestador.

Rock Brasília Era de Ouro ainda evita a comoção barata, que pode se esperar em qualquer filme que narre história de ídolos. Ao abordar a morte de Renato Russo o filme não se demora e procura avançar para o caso de sucesso do Capital Inicial, que realizou um grande show na gravação de um DVD especial, em 2008, naquela mesma esplanada dos ministérios árida do começo do filme. Sobre a morte de Renato, um depoimento que destaco é o de Carlos Trilha, tecladista de apoio da banda na gravação dos últimos cd’s da Legião. Dias antes da morte de Renato, eles haviam tido uma briga e nas biografias oficiais de Renato Russo Trilha nunca teve a oportunidade de comentar o caso. No filme, ele emocionado, conta como numa discussão com Renato pelo telefone ficou sabendo de sua doença. Apesar de discreto, é um momento de expiação.

A Legião Urbana acabou com a morte de Renato Russo, a Plebe Rude sucumbiu diante de brigas internas. Só restava o Capital Inicial para dar ao filme um final feliz. É com imagens do show da banda na Esplanada dos Ministérios que o filme prepara seu desfecho triunfante. Essas imagens vêm logo após entrevista de cada músico sobre como estão suas vidas hoje: uns se tornaram produtores, outros compositores, alguns funcionário públicos. E é com a sombra de ser funcionário público ante a carreira musical que o filme traz sua última entrevista. Briquet de Lemos, que incentivou seus filhos a desistirem do Capital Inicial para se dedicar a concurso público, relata emocionado que a perseverança deles lhe deu uma lição para o resto da vida.

O classicismo da estrutura do filme de Vladimir Carvalho não enfraquece sua força. É um filme eficiente dentro de seus limites, que se dirige a um determinado público e não tem pretensões revolucionárias – o que poderia ser uma ironia, já que a revolução estava no sangue daqueles músicos. A saga do herói, encarnada pelas bandas de rock brasiliense da década de 80, no qual Rock Brasília Era de Ouro se propôs contar, termina sua parábola dramática em ascendência, com ‘happy end’ e com direito a mensagem positiva no final.

One thought on “ROCK BRASÍLIA – ERA DE OURO

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *