BRASILIANAS, DE HUMBERTO MAURO

A NOSTALGIA EM CURTAS

Por Camila Mota

Nascido em 30 de abril de 1897, na Zona da Mata Mineira, Humberto Duarte Mauro, filho de imigrante italiano e mãe mineira, foi um dos mais importantes cineastas do cinema brasileiro.

Acredito que podemos dividir a carreira de Mauro em três momentos: o Ciclo de Cataguases e os períodos que ele passou na Cinédia e no Instituto Nacional de Cinema Educativo (Ince).

No período a partir de 1923, Humberto Mauro começa a se interessar por fotografia e já então passa a pensar em filmes. Somente em 1925, juntamente com o amigo Pedro Comello, é que ele consegue lançar seu primeiro curta metragem, um filme cômico de duração aproximada de 5 minutos. Com esse primeiro filme angaria fundos com alguns empresários da região e em 1926 lança Na primavera da vida, dando assim inicio ao Ciclo de Cataguases. Logo em seguida, em 1927, ele lança Tesouro perdido. Com o sucesso deste ele consegue mais visibilidade para sua produtora, Phebo Brasil, e em 1929 lança dois filmes: Brasa dormida e Sangue mineiro um filme mais intimista, cujos conflitos abordados são os do coração, encerrando-se o Ciclo de Cataguases.

No mesmo ano, no Rio de Janeiro, surge a Cinédia, e Mauro vai para a Cidade Maravilhosa trabalhar com Adhemar Gonzaga. Lá chegando, dirige duas gravações de estúdio: Barro humano e Lábios sem beijos. Foi com o sucesso obtido com esses filmes que a Cinédia ganhou reconhecimento no cenário cinematográfico brasileiro da época. Em 1931, ele começa a gravar Ganga bruta. Por ser um filme revolucionário para o período em que se encontrava, e ter na sua estrutura flashbacks e cortes rápidos, acabou sendo um filme que se alongou até 1933, para enfim ser lançado. Foi um grande sucesso e mesmo nos dias atuais ainda é estudado em cursos de cinema em todo o país.

A parte mais importante da carreira de Humberto Mauro acontece no período entre 1936 a 1967, no qual ele se encontrava no Ince, tendo lá desenvolvido um grande número de filmes de caráter educativo, em sua maioria curtas-metragens, que abasteciam o instituto.

É importante não esquecermos de citar que o Ince sem Humberto Mauro talvez não tivesse funcionado de forma tão adequada, pois foi ele quem conseguiu romper com a barreira de filmes educacionais maçantes. Com um olhar fotográfico apurado e uma sensibilidade incrível, Mauro fez do Ince um centro de produção de curtas e médias-metragens que enalteciam e geravam um brilho histórico acerca das produções sobre cultura popular brasileira.

Mauro fez exatamente 357 filmes enquanto estava no Ince, e sempre buscou alternativas para torná-los mais aceitáveis e divertidos ao olhar do espectador. Dentre todas essas obras de Humberto Mauro, vale ressaltar a coleção que ele produziu nesse período intitulada de Brasilianas.

 

Ince/Brasilianas: a cultura popular brasileira mostrada em ritmo e imagens

Criado em 1936, tendo como grande incentivador Edgar Roquette Pinto, o Instituto Nacional de Cinema Educativo (Ince) visava criar uma imagem para o Brasil, um país verdadeiro, próprio, mostrando as nossas riquezas e belezas naturais, nossa gente, tentando assim obter um alargamento nos meios de comunicação.

Como já falamos antes, Humberto Mauro chegou no Ince logo na sua fundação e continuou durante 31 anos dirigindo filmes para o instituto, onde conseguiu exercitar o seu olhar fotográfico de maneira sublime.

Segundo Jorge Antonio Rangel:

“entre as décadas de 1930 e 1940, a temática do trabalho de Mauro horizontaliza as abordagens do meio rural e dos homens, mulheres e crianças que habitam este local. São vistos de forma harmônica, homem e natureza.”(Rangel,p-34).

A coleção Brasilianas é composta basicamente por pequenos curtas-metragens que são montados como videoclipes, apresentando-se como um casamento entre imagem e som. Utilizam-se também de uma montagem rápida e paralela com uma grande alternância de planos.

Mauro apresenta na coleção um cenário bucólico, onde o homem aparece quase sempre interferindo no meio rural, mostrando o seu trabalho com a terra, demonstrando a felicidade do viver entre a natureza. Assim ele sempre registra essas pessoas de ângulos privilegiados, buscando mostrar detalhes de mãos, pés, o socar da terra, o lavar roupa, dentre outros. Através de sua câmera, ele foi redescobrindo novos planos, deslocamentos, que aproximavam o homem da natureza.

Um dos filmes da coleção Brasilianas que retrata muito bem essa aproximação é o curta A velha a fiar, de 1964. A música de Aldo Taranto é interpretada na versão de Mauro pelo Trio Irakitan.

Estava a velha em seu lugar
Veio a mosca lhe fazer mal
A mosca na velha e a velha a fiar

Estava a mosca em seu lugar
Veio a aranha lhe fazer mal
A aranha na mosca, a mosca na velha e a velha a fiar

Estava a aranha em seu lugar
Veio o rato lhe fazer mal
O rato na aranha, a aranha na mosca, a mosca na velha e a velha a fiar

Estava o rato em seu lugar
Veio o gato lhe fazer mal
O gato no rato, o rato na aranha, a aranha na mosca, a mosca na velha e a velha a fiar.

O filme começa com o casamento perfeito entre som e imagem, onde Mauro já apresenta os personagens que fazem parte da narrativa. É interessante aqui citarmos um trecho da música, pois fica claro para o leitor o quão repetitiva ela é. Porém, a partir desse ponto, identificamos a maneira inteligente que Humberto Mauro compõe as sequências, pois em momento algum repete as imagens para ilustrar a canção.

Mauro consegue misturar o ambiente rural e comum do homem do campo com o imaginário infantil, já que trabalha em muitas das cenas com brinquedos. Mostra uma aranha, ou até mesmo um cachorro, de plástico, quebrando toda a monotonia, caso repetisse as imagens. Enquadra em ângulos diferentes os objetos e, através de uma montagem ritmada com a música, cria uma linguagem poética, metafórica, como, por exemplo, quando em um trecho da canção a morte é representada por uma caveira de boi seco. Para apresentar de maneira mais discreta determinados personagens da música, cria um universo simbólico.

Assim, com o curta, Humberto Mauro consegue mais uma vez mostrar ao povo brasileiro um cenário que para muitos começava a ficar cada vez mais distante, com a esperança de que se reatassem os laços com o meio rural. Mauro não fez filmes só por fazer, muito pelo contrário, buscou em cada pedaço de película utilizada mostrar um pouco da sua essência. Ele nunca se esqueceu ou se envergonhou de suas origens e buscava em seus filmes levar o mesmo sentimento a todos que assistiam suas obras.

Sendo assim, Humberto Mauro conseguiu com seus filmes levar um sentimento nostálgico e bucólico para o povo brasileiro, fazendo das cantigas populares belíssimos filmes de fácil aprovação, conseguindo despertar um sentimento de pertencimento cada vez maior para com o país.

 

Camila Mota é aluna do curso de Cinema e Audiovisual da UFRB e bolsista Pibex da revista Cinecachoeira

 

Referências Bibliográficas

FILHO, Alexandre Robatto. Raimunda que foi: uma estória da Bahia. Rio de Janeiro: José Olympio 1976.

GOMES, Paulo Emilio Salles. Humberto Mauro, Cataguases, Cinearte. São Paulo: Perspectiva, Edusp, 1974.

ROCHA, Glauber. Revisão Crítica do Cinema Brasileiro. São Paulo, Cosac e Naify, 2003.

SCHVARZMAN, Sheila. Humberto Mauro e as Imagens do Brasil. Tese de Doutoramento. Departamento de História da UNICAMP, Mimeo 2000.

TOLENTINO, Célia Aparecida Ferreira. O Rural no Cinema Brasileiro, São Paulo: Editora UNESP, 2001.

 

 

 

 

 

 

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *