CACHOEIRA DOC

ENCONTRO E CELEBRAÇÃO DO DOCUMENTÁRIO

 

 Por Toni Caldas

 

Silêncio. O filme vai começar. Desejos que extrapolam o ordinário, movimentos, lugares, linguagens e um novo espaço. Olhares, sentidos, percebidos, analisados. Luz, câmera a ação de pé aplaudidos ao final. Assim, o abstrato se faz concreto no II Festival de Documentários de Cachoeira (CachoeiraDoc), evento que atraiu olhos e lentes de diversos espaços para a cidade de Cachoeira entre os dias 7 e 11 de dezembro, e que chega à sua segunda edição, construindo na cidade um ponto de convergência para apreciar e pensar o universo amplo e híbrido do documentário.

O II CachoeiraDoc é um dos eventos que marca o cenário baiano fora dos grandes centros e apresenta a necessidade de lançar um novo olhar sobre o Recôncavo. Em seu panorama, o festival transcorre durante todo o ano, em fluxo constante, como uma cachoeira, como a sétima arte.  Através da integração de projetos de pesquisa, extensão e ensino do Centro de Artes, Humanidades e Letras (CAHL) da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), em parceria com o Curso de Cinema e Audiovisual dessa mesma Universidade, busca, através do documentário, a reflexão e contato com o mundo, em especial com a região em que a instituição se faz presente. Mas seu ápice é, sem dúvida, a integração, o encontro dos povos do Recôncavo na plateia e nas telas, com as exibições.

 

“Tudo nasce da ação”

Não restam dúvidas que a máxima aplica-se inteiramente ao pensamento do gênero documental. Ao ar livre, em plena ação, o festival começa no Largo D’Ajuda exibindo o filme Marighella, com a presença da diretora Isa Grinspum Ferraz e da família de Carlos Marighella, que completaria 100 anos em dezembro deste ano se estivesse vivo.

Em busca desta integração, o júri composto por nomes como Carla Maia, Danillo Barata e Marcelo Ikeda, além do júri jovem com Camila Yallouz, Jessé Patrício e Maíra Carbonieri, do curso de Cinema e Audiovisual da UFRB , contemplou e avaliou com olhos e ouvidos abertos e atentos cada uma das exibições.

 

Mostras competitivas e homenagens

Abrindo o porto do Rio Paraguaçu para os novos visitantes, a Mostra Competitiva Nacional atracou documentários de curtas, médias e longas-metragens nacionais que concorreram à premiação. Entre os destaques, marcaram presença diretores pernambucanos, mineiros, baianos, cariocas, paranaenses, paulistas, brasilienses.

Entre as obras vencedoras estiveram As aventuras de Paulo Bruscky, de Gabriel Mascaro, que recebeu a Menção Honrosa do II CachoeiraDoc pelo modo como o curta se arrisca por caminhos pouco explorados na contemporaneidade, em um formato híbrido entre o documentário, a ficção e a animação, e por abordar possibilidades de criação nos ambientes virtuais de forma irreverente e coerente com seu personagem. O título de Melhor Curta-metragem da mostra ficou com Bolpebra, de Guilherme Marinho, João Castelo Branco e Rafael Urban, pela forma rigorosa e radical como os diretores encenam um espaço incomum, articulando aspectos estéticos e políticos. Bicicletas de Nhanderú, de Ariel Ortega e Patrícia Ferreira, levou o título de Melhor Média/longa-metragem pelo júri, por tencionar as relações entre tradição e mudança, em uma abordagem, ao mesmo tempo crítica e afetiva.

Já o prêmio jovem, escolhido pelo júri composto de estudantes de cinema da UFRB, analisou e concedeu o título de Melhor Curta-Metragem para Acercadacana, de Felipe Peres Calheiros; novamente, como Melhor Longa/Média, Bicicletas de Nhanderú, de Ariel Ortega e Patrícia Ferreira, e a Menção Honrosa foi concedida à Sala de milagres, de Marília Hughes e Cláudio Marques.

Mas o porto de Cachoeira teve mais, muito mais o que atracar, e fez praia para a Mostra Agnès Varda. “Se você abrir uma pessoa, irá achar paisagens. Se me abrir, irá achar praias”. É assim que a cineasta Agnès Varda apresenta sua autobiografia documental. A homenageada cineasta franco-belga, precursora do movimento Nouvelle Vague, é reconhecida também pela maneira como ampliou as possibilidades do documentário, através da intimidade, subjetividade e sensibilidade desvendadas em suas obras. Varda tem expandido as situações de projeção de seus filmes e tem realizado exposições em espaços alternativos às salas de cinema, como galerias de arte e museus. Nessa retrospectiva foram exibidos cinco curtas, A ópera-mouffe, Os panteras negras, Resposta de mulheres, Saudações, Cubanos! e Ulisses, além de dois filmes de longa-metragem, Daguerreótipos e As praias de Agnès, que garantiu as instalações artísticas no lounge do evento ao longo dos cinco dias.

Mas as portas da sala de exibição também se abriram à benção. Revelando o território de múltiplas faces a Mostra Competitiva Bahia, composta de documentários de curtas-metragens baianos, apresentou ao público trabalhos selecionados que transitaram desde temas contemporâneos, divagando pelas memórias e esquecimentos, cruzando as fronteiras e a poesia dos possíveis e perdidos Recôncavos.

Entre os vencedores, estiveram a Menção Honrosa dedicada a Curandeiros do Jarê, de Marcelo Abreu Góis, pelo contato proporcionado com a força mística de um ritual, através de uma atenção a cada gesto, lançando o expectador em um universo de mistério e crença. O título de Melhor Filme da mostra, segundo ambos os júris, pela forma delicada e cuidadosa como os realizadores nos apresentam os hábitos de uma pequena família, foi dedicado à Seca verde, de Nicolas Hallet e Simone Dourado.

As variadas temáticas apresentaram drãos das possibilidades, linguagens, artistas, devaneios e ideias do documentário com a Mostra Documentários Experimentais, que reuniu artistas brasileiros com trabalhos desafiadores dos pressupostos do documentário convencional e de livre experimentação da linguagem, de novos métodos de produção cinematográfica.  Foram exibidos oito filmes, sendo sete curtas e um média-metragem.

 

(Re)pensando documentário

Enquanto as mostras promoviam a troca e o exercício de pensar o documentário, o Ciclo de Conferências promovia a Mesa-redonda, Documentário: Arte e Técnica, onde foram apresentadas reflexões sobre a arte do documentário a partir das experiências do diretor de som Nicolas Hallet e do diretor de fotografia Felipe Daviña. Através do PET de Cinema da UFRB, a Mesa-redonda Notas Sobre Cinema Universitário: Produção, Mercado e Distribuição”, discutiu o cinema universitário atual através de uma abordagem sobre sua identidade enquanto gênero ou formato, suas formas de produção, as relações entre Universidade e Estado, conteúdos, distribuição, produção alternativa e as relações com o mercado, com Eduardo Valente, Marcelo Ikeda e Antônio Carrilho, mediados pela Profª. Drª. Rita Lima e Guilherme Sarmiento.

O II CachoeiraDoc proporcionou também a mesa Expert Talk: Filme em Moçambique: Curadoria, Festivais, Temáticas, com Profª. Drª. Ute Fendler, curadora do Dockanema, e a Profª. Drª. Henriette Gunkel, curadora do também festival de cinema moçambicano Cinema Meu, onde se apresentaram a história do cinema de Moçambique e os desafios da atividade de curadoria, com a mediação do Prof. Claudio Manoel e tradução de Stefanie Alisch.

Prosseguindo com a leva nacional de documentaristas, a conferência, Documentário e Arte Contemporânea, com a Profª. Drª. Consuelo Lins refletindo sobre o cruzamento e a circulação cada vez mais intensa entre estes dois domínios até pouco tempo distantes, e mesmo hostis entre si. Na segunda conferência O Feminino no Documentário Contemporâneo, a pesquisadora Carla Maia buscou transmitir o pensamento sobre o feminino no cinema documentário, a partir da obra de Agnés Varda e de alguns filmes realizados por mulheres no Brasil contemporâneo, que apresentam personagens femininas.

 

O ato de documentar

Entre as oficinas promovidas pelo II CachoeiraDoc estiveram as atividades especiais para estudantes e profissionais da área audiovisual e de ensino médio da região de Cachoeira. As oficinas gratuitas foram O Som no Documentário, com Nicolas Hallet, visando o aprofundamento da prática e a reflexão estética sobre o tema; e a Oficina de Web Documentário, com Diego de Jesus, Diogo Nunes, Elen Linth e João Aleixo, membros do Grupo de Estudos e Práticas do Documentário da UFRB, que promoveu uma introdução à linguagem audiovisual e capacitação para a realização de conteúdos documentais a serem veiculados pela internet para alunos de 16 a 19 anos matriculados no ensino médio. A iniciativa aproximou ainda mais os jovens cachoeiranos do universo do Cinema e oportunizou que novos olhares e trocas pudessem ser geradas entre a universidade e os membros da comunidade.

E se tratando de um festival baiano, o II CachoeiraDoc não poderia deixar de lado uma das paixões do povo. Nas Sessões Especiais do festival a partida foi nas telas, mas a torcida foi de uma plateia que mais parecia arquibancada. O azul, vermelho e branco tomou conta dos corações e dos olhos apaixonados, como aos 45 minutos do segundo tempo. O filme Bahêa, minha vida, de Marcio Cavalcante, trouxe a emoção dos estádios para os moradores de Cachoeira que, fazendo as honras da casa, lotaram as sessões acompanhadas do diálogo com o diretor também presente.

E como todo final de festa, o II CachoeiraDoc deixa saudades às margens do Paraguaçu, com lembranças seguindo, atravessando pontes, praias, paisagens e emoções em forma de filmes. A organização do evento avisa que a terceira edição já esta sendo planejada. Ainda não há datas para o próximo ano, mas existe força de vontade de pessoas motivadas em fazer do CachoeiraDoc, cada vez mais, um evento pontual no calendário do Recôncavo. Com uma câmera na mão e mil ideias na cabeça, a trilha segue agora para o próximo festival. Até lá, luz, câmera e muita ação!

 

 

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