ENTREVISTA: CLÁUDIO MARQUES E MARÍLIA HUGHES

“A BAHIA NÃO TEM GOSTO PELO CURTA-METRAGEM”

Na sala do curta-metragista, organizador do Panorama Internacional Coisa de Cinema e sócio-diretor do Espaço Unibanco Glauber Rocha de Cinema, Cláudio Marques, na Praça Castro Alves, no Centro de Salvador, dois cartazes emoldurados na parede chamam atenção: um, do curta Xaréu, assinado por Marília Hughes; o outro, assinado por ele, O Guarani. Isso foi no começo. Depois tudo virou uma coisa só e mesmo esses filmes ganharam assinatura da dupla, que também responde pela curadoria do principal festival de cinema brasileiro realizado na Bahia. Os curtas Nêgo Fugido (2009) e Carreto (2009) percorreram festivais nacionais e internacionais, com vários prêmios na bagagem. A mais recente produção deles, Sala de Milagres (2011), está na competitiva do II CachoeiraDoc, que será realizado de 7 a 11 de dezembro no CAHL – Centro de Artes, Humanidades e Letras. Com diversos projetos engatilhados, destaca-se a produção do primeiro longa-metragem, Depois da Chuva, que deverá ser filmado em 2012. Em conversa com os editores Guilherme Sarmiento e Cyntia Nogueira, Cláudio Marques e Marília Hughes falam sobre processo de criação, a linguagem e os circuitos de exibição do curta no Brasil e o papel da curadoria nos festivais de cinema.

 

Cyntia Nogueira: Como vocês começaram a trabalhar juntos e como é o processo de criação conjunta?

Cláudio Marques: Inicialmente, tínhamos dois projetos que ganharam, no mesmo ano, o edital na Bahia. Na verdade eram três documentários, eu com O Bombardeio de Salvador e o Guarani, e Marília com o Xaréu. A gente morava no Jardim de Alá e estávamos super interessados nessa história dos pescadores. Eu gosto muito do Alexandre Robatto, e a gente já tava assim muito empolgado com o projeto na hora de inscrever no edital.

Marília Hughes: Eu acho que Cláudio, em O Guarani, tem um papel muito importante de condução das entrevistas, e eu trabalhei mais na montagem com ele. Pra mim é um filme muito importante, que conta muito pra mim. Participei muito ativamente da montagem, e o Xaréu foi um dos filmes mais arriscados que a gente fez. Não sabíamos se fazíamos de modo observacional, foi mais arriscado por conta da proposta. E aí a gente discutiu muito, foi muito em conjunto esse processo de encontrar a estrutura do filme, tinha a relação da pescaria entre o pai e o filho, mas cada um num caminho diferente. Queríamos trabalhar o contraste dos dois, do filho e do pai, e o meio urbano invadindo aquele lugar. Então tudo foi construído dentro dessa cumplicidade, e a gente percebeu que era uma bobagem mesmo separar. Tem uma coisa que é estar do início ao final do projeto. A gente está junto desde a idéia, a gente escreve, vai captar, realiza e depois ficamos distribuindo, de alguma maneira divulgando o trabalho. Pensamos, desde o início, o projeto como um todo.

Guilherme Sarmiento: Vocês fugiram do caminho do longa não é?

Cyntia Nogueira: Eu queria que vocês falassem um pouco sobre o formato curta-metragem.

Cláudio Marques: Eu sou realmente apaixonado pelo formato. Adoro curta metragem e já era muito fã do curta antes de começar a fazer. Nunca concordei muito com essa visão da sociedade de que o curta-metragem tem um valor menor. O curta-metragem deveria estar num patamar de apreciação que ainda não está. Não é que seja melhor ou pior do que o longa-metragem, mas dentro do espaço social, o longa tem um apelo muito maior. Comercialmente, o longa-metragem tem um peso muito maior do que o curta. Por outro lado, o curta, por ser menor, é um espaço mais aberto para a experimentação e para o aprendizado. O legal dos curtas que fiz com Marília é que são todos diferentes. Eles não têm nada de parecidos, cada um tem uma personalidade muito própria, é como se fosse realmente a nossa escola de cinema. É claro que cada projeto demandou uma forma, cada projeto demandou uma estética, um pensamento, uma coisa muito própria. A gente teve uma disponibilidade de produção pra executar que eu não sei como a gente faria pra usar essa diversidade dentro do longa-metragem. Nossos curtas-metragens ficam na vida da gente por cerca de três anos mais ou menos, quatro anos, talvez um longa-metragem fique o dobro. Carreto mesmo ficou três anos, isso dá uma forma de renovação que é muito saudável pra gente fazer o curta-metragem. Começar a entrar nesse ciclo, começar a encontrar com as pessoas, isso dá uma energia que é como se fosse um vírus. Você entra numa outra dimensão de fazer cinema, no mundo do cinema, então é muito mais difícil voltar atrás. Por isso que eu acho que uma das coisas mais importantes do curta metragem é fazer seu filme e ver seu filme apreciado por curadores, por outros cineastas, encontrar com as pessoas, conhecer outras pessoas nesse circuito de festivais, a gente tem cada vez mais pessoas querendo fazer cinema independente, ganhando dinheiro ou não, por que curta-metragem não é realmente comercial. Você consegue um pouco de atenção comercial para fazer seu projeto de longa-metragem. Acho que é muito importante que agente valorize o curta-metragem para as pessoas que estão na faculdade, que têm um gosto pelo cinema, que têm ainda uma quantidade menor de responsabilidade, pra gente garantir que eles permaneçam gostando de cinema.

Cyntia Nogueira e Guilherme Sarmiento: Como vocês avaliam a produção de curtas na Bahia?

Marília Hughes: Salvador, e a Bahia, de um modo geral, não tem esse gosto pelo curta metragem. A Bahia não tem esse gosto. Eu vejo muita gente que fez poucos curtas e tá querendo partir para o longa. Eu fui parar no cinema porque no meu último ano de faculdade, eu fazia psicologia comunitária, resolvi fazer um documentário histórico, ainda ligado a questões sociais. Eu acho que o curta faz parte de uma comunidade em si, não é um trampolim pra um longa. Você pode criar obras fantásticas que tem um lugar na história do cinema.

Cláudio Marques: Eu acho que é um espaço de aprendizado incrível, porque o longa te traz uma produção maior. Mas, na sociedade, de uma maneira geral, você se torna um cineasta quando produz um longa, até então você é um aprendiz por que você começou a descobrir. No curta é como se você fosse sempre um aprendiz. Existe uma perspectiva de profissionalização do curta, o que na verdade já dá um status ao curta de obra de arte, mas não comercial.

Guilherme Sarmiento: Muita gente gosta de comparar o curta-metragem ao conto literário. No entanto, enquanto os escritores podem passar a vida escrevendo apenas contos com livros editados, a mesma relação não ocorre com o curta no cinema.

Cláudio Marques: Eu acho que talvez no campo da linguagem essa comparação seja possível. Mas o curta metragem não tem uma valorização de mercado. Não vejo a sociedade disposta a isso. Não vejo as pessoas querendo pagar pra ver um curta- metragem, não vejo programas na televisão para curtas-metragens, não vejo o espectador do curta. Na verdade, o curta-metragem hoje está muito restrito aos programas gratuitos. Programas que são importantes, independente da quantidade de público. Não é uma questão econômica. A verdade é que as pessoas não saem de casa pra ir pro cinema pagar 10 reais ou 15 reais pra ver uma sessão de curta-metragem. Aqui (no Espaço Unibanco Glauber Rocha), as pessoas reclamam quando a gente passa o formato. É muito difícil sair de casa pra assistir a um curta, e também pode ser muito cansativo ver um bloco de seis ou sete filmes curtos. Tem que ser uma programação muito boa.

Cyntia Nogueira: Por outro lado, a gente vê os curtas serem exibidos nos cineclubes, nas escolas e, também, uma ampliação do espaço do curta na internet. É uma janela que vem possibilitando uma maior visibilidade para o curta-metragem.

Cláudio Marques: O curta é um produto difícil de vender, precisamos pensar como vender os curtas, como promover o curta metragem, eu acho injusto ele ser tão desprivilegiado assim, não ter valor comercial.

Cyntia Nogueira: Mas o longa-metragem dá dinheiro no Brasil?

Cláudio Marques: Também não… Aliás, tem realizador que não tem idéia do mercado. Você pergunta qual a expectativa que ele tem de público para seu filme, e ele acha que vai ter sucesso. Longa-metragem, de uma maneira geral, não dá dinheiro mesmo, pode ter um ou outro que consiga, mas não não existe mercado, a gente tá falando do imaginário em cima de um longa. É uma questão de status mesmo, as pessoas querem chegar num longa. Eu gosto muito de exibir um curta antes do longa, a gente gosta de fazer por que dá pra buscar um casamento entre os dois filmes, de fazer um programa que potencialize a obra.

Marília Hughes: Muitas vezes os curtas metragens são jogados numa sessão sem um cuidado de programação, sem que haja um diálogo entre um curta e outro. A gente participou de um festival agora, em que foi exibido o nosso filme, Sala de Milagres. O filme foi o primeiro a ser exibido, a sala estava cheia, porém quando chegou no final do programa não tinha mais nenhuma pessoa na sala. Todo mundo tinha ido embora.

Cyntia Nogueira: Nesse sentido, acho que o curta fica muito mais próximo da lógica das artes visuais, da montagem de uma exposição, de uma mostra, em que entra o papel do curador. E tem curtas que vão para a galeria mesmo. Um curta de Éder Santos vai para a galeria e é comercializado no circuito das artes. Já o circuito dos festivais atribui um valor a essa produção. Seria legal que vocês falassem um pouco da curadoria do Panorama, como vocês escolhem os filmes?

Cláudio Marques: Você circula muito mais em festivais com o curta do que com um longa, né? Existe uma quantidade de festivais para o curta muito maior do que para o longa. No Brasil, tem um número maior de festivais para o curta-metragem. Acontece também que o mercado em um determinado momento começou a se fechar muito… A virar uma coisa tradicional, e os festivais surgiram como uma maneira de você se contrapor a esse mercado. As salas hoje são melhores, mas o cinema foi encolhendo, ficando mais caro, o público cada vez menor. Então se cria outro circuito. Mas é raro que um filme consiga circular muito bem nos dois circuitos. O circuito hoje do curta metragem é muito bacana porque você pode fazer determinada cena e circular bastante com a sua obra, a questão passa a ser a da curadoria.

Marília Hughes: São poucos os festivais em que você que tem uma lógica, que você entende aonde ele quer ir, que você percebe o crescimento ano após ano, que você vai vendo qual é o raciocínio e se você ta concordando ou não com o que está sendo feito. As coisas se fazem de uma forma mais aleatória e isso é ruim, tem o lado bom que é a gente poder circular, mas o fato de você não criar uma identidade é ruim a médio prazo pra o circuito, isso pode vir a dificultá-lo.

Guilherme Sarmiento: Tem essa coisa de que os festivais estão ficando muito temáticos. Será que isso não pode acabar, no final, afastando o público?

Tem muitos festivais, festivais que acontecem sempre na mesma data, mesmo lugar, mesma cidade, é questão de mercado, criar distinções. Mas dificilmente esses festivais temáticos vão ser importantes como hoje são aqueles consagrados. Em termos da carreira do realizador, existem os festivais que são importantes, aqueles em que os jornalistas estão lá…

Guilherme Sarmiento: Qual a produção de curta hoje no brasil?

Cláudio Marques: Hoje é um mercado bem difícil de monitorar, porque tem muitos curtas. Há dois ou três anos atrás tínhamos 90 em películas e 250 em digital, porém hoje só no Panorama a gente recebe mais de 500 curtas-metragens, em todos os formatos. É uma quantidade bastante considerável.

Cyntia Nogueira: Quais são os critérios da curadoria de vocês, como é que vocês trabalham?

Marília Hughes: A gente roda muito em festival, então temos a liberdade de gostar de algum filme e querer trazê-lo para o Panorama. E é muito bom quando a gente consegue ver os curtas em uma sala grande, com uma boa projeção. E tem o fato de casar os curtas de uma mesma sessão. Acima de tudo, para nós, o que conta é uma boa programação, fazer uma curadoria ligada à programação.

Cláudio Marques: Não é matemático. Eu acho que não é a questão técnica, mas também não tem nenhum preconceito, pode ser narrativo… E tem a curadoria da sessão, essas coisas são sempre muito subjetivas mesmo. Por exemplo, quando a gente viu o filme Fantasmas, do André Novais, a gente achou um filme maravilhoso, uma câmera maravilhosa, um filme incrível… Tudo fora do padrão da televisão, da propaganda. O cara sabia o que ele tava fazendo, tem uma visão cinematográfica ali. Então a gente começou a se perguntar como montar a sessão, como escolher um longa que casasse com esse curta… Então, na verdade, em cada panorama, a gente busca o conceito daquele panorama, daquela sessão.

Marília: Uma das funções é a de agregar a produção local também, isso me preocupa como realizadora. No Ceará, em Minas Gerais, tem uma galera que corre atrás, ama cinema, está fazendo cinema, tem uma paixão, um envolvimento, uma galera que está caminhando muito rápido. Na Bahia, a gente foi pra um festival agora, e aí encontramos um menino que a gente conhecia um pouco o trabalho dele, e de repente ele foi direto para a TV. Falta ainda um pouco de determinação de alguns pra afirmar: eu quero entrar no cinema, eu quero fazer cinema, me interessa essa linguagem.

Cyntia Nogueira: Às vezes sinto que falta reflexão, uma relação maior entre reflexão e prática.

Marília Hughes: Aqui mesmo quando a gente faz o panorama são poucos jovens que acompanham as sessões, o que me deixa super triste, essa falta de curiosidade…

Guilherme Sarmiento: Gostaria que vocês falassem sobre como os curtas brasileiros são vistos lá fora, se têm a devida atenção, como é a entrada nos festivais fora do país.

Cláudio Marques: Os curadores dos principais festivais europeus conversam muito entre eles. E a produção brasileira está muito associada à produção noveleira: Chico Xavier… O Daniel Filho, ele manda tudo que ele tem, manda tudo para os festivais. E temos visto aparecer filmes como A alegria, Transeunte… O Marcelo Gomes é um cara bacana, respeitado, uma celebridade no cinema… O Fernando Meirelles hoje é muito mais o mercado. Mas, assim, esses dois, Walter Salles e Meirelles, são celebridades do cinema mundial, tendo filmes prontos, eles colocam no festival que eles quiserem. Agora o cinema brasileiro pra entrar num festival desses caras tem que labutar muito… É uma realidade.

Cyntia Nogueira: Como é que nasce, por exemplo, Sala de milagres, um filme dentro daquela perspectiva regional, mas de repente vocês trazem toda uma posição própria com relação àquilo que vocês estão tratando…  

Cláudio Marques: Eu particularmente sou a favor de você conhecer o objeto e ter a curiosidade, pra você saber como é o processo de se fazer um filme, pra você se lançar e começar a fazer… Mas o que me parece complicado de uma maneira geral é uma coisa anterior, essa falta da fome, de você estar vivendo o cinema o tempo todo, pensando, conversando, vendo filme, fazendo filmes de varias maneiras, porque o cinema tem varias etapas, várias formas, essa imersão interior. Eu identifico na hora que você vai fazer o seu filme, essas coisas ficam muito mecânicas, e ai elas acabam dentro de determinadas formas. Inclusive as pessoas não estão muito abertas ao risco que o cinema oferece, um filme pode ficar bom e pode ficar ruim, e a gente acaba vendo que o filme ruim muitas vezes é mais interessante porque, na verdade, tem toda uma disposição, carrega todos esses riscos, por exemplo, Álbum de família, é um filme que tem erros, um filme rápido, mas que acaba sendo tão corajoso porque tem uns momentos tão explosivos assim, que ele merece estar no hall dos últimos filmes feitos na Bahia…

Guilherme Sarmiento: Também pegando um olhar mais abrangente, no Rio de Janeiro, apesar de você ter uma posição de maior líder de curtas e longas, as produções se encaixam perfeitamente nisso que você tá falando. Ali você se encontra no olho do furacão: tem a rede globo de televisão. Os filhos dos cineastas têm muito mais facilidade em trabalhar com audiovisual. É um fenômeno extremamente forte, você pega todos os filhos geralmente engrenam facilmente na carreira de cinema, o caminho já está ali. Tem esse mercado meio asfixiado, que algumas pessoas conseguem de alguma forma burlar…

 Cláudio Marques: O cinema se estabelece por todos os cantos, existem vários locais internacionais que dialogam bastante e quando você consegue chegar, transmite de alguma forma seu pensamento. Não existe um código pra se chegar lá, mas etapas. O fato de a gente estar fora desses estágios faz com que o caminho seja um pouco mais difícil. Porque os filhos dos cineastas, eles já sabem cada passo que é preciso dar. Não estou dizendo que é fácil, mas que eles sabem o caminho que devem percorrer. A gente tem que jogar e tentar descobrir um pouco como fazer. Cada um está tentando legitimar a sua carreira para se afirmar. Quando nós fizermos nosso primeiro longa-metragem, temos de entender os códigos, não sabemos se vamos conseguir, pois, acima de tudo, realizar é sempre um risco… Fazer um bom filme é um risco… Difícil você entrar nessa comunidade internacional… Se tiver cada vez mais gente fazendo curta metragem, tiver cada vez mais mostras de cinema, cada vez mais gente dando entrevista, vai criando um corpo, vai dando um bolo, pra que talvez daqui a 5 anos, daqui a 10 anos, a gente tenha uma coisa mais estável mesmo. Precisamos de uma galera que faça cinema, como a gente faz. Entender o que seja linguagem, se aprimorar na linguagem cinematográfica, entendeu? Eu vejo gente nova que no segundo edital que ganha já quer comprar apartamento, como é que vai pensar cinema, fazer cinema?

 Cyntia Nogueira: Vocês falaram do aprendizado do curta, e agora estão produzindo um longa, Depois da chuva, que em breve será rodado. O aprendizado entra em qualquer um dos formatos?

 Claudio Marques: Eu não sei se Marilia concorda comigo ou com o que eu vou falar agora, mas eu acho assim, cada projeto da gente demanda um processo diferente, cada produção é como se a gente começasse do zero… Fomos engatinhando… Cada filme que veio foi um aprendizado. O curta-metragem se desenvolveu na plasticidade desse projeto em si, tem muita coisa que estamos aprendendo e aplicando agora…

 Marilia Hughes: Até que ponto você consegue continuar fazendo cinema? Não por um desejo, por uma necessidade de se fazer um curta, até que ponto o filme pode ser confortável, entendeu? A gente tem que saber crescer até um ponto que preserve um lugar que você goste, confortável pra equipe que está trabalhando com você, não deixe ninguém sobrecarregado. O assistente de direção é uma categoria que a gente não utiliza nos nossos curtas. Nós trabalhamos em tudo, nunca teve um produtor de elenco, a gente mesmo corre atrás…

Claudio Marques: É complexo trabalhar com coletivo, muita coisa muda. Você tem que ter uma afinidade muito forte pra estar dialogando, e a gente sempre entendeu isso.  E eu e Marilia sempre estivemos juntos, desde o inicio de nossas carreiras até agora. Pra mim autoria é isso: quebrar a cabeça, correr atrás de editais, trabalhar nos nossos filmes, trabalhar nos filmes dos amigos pra fazer dar tudo certo. A gente não para de fazer cinema. Não vou falar que a gente se basta, mas tem o hábito de parcerias pontuais. Em Nego fugido mesmo os dois atores se entregaram, e conseguiram passar exatamente o que queríamos para o filme. Tínhamos conversas intermináveis e o resultado que tivemos foi graças a eles. Cada parceria vai te ajudar realmente a potencializar o filme.

 Marília Hughes: A gente gosta de trabalhar com Nicolas porque ele tem uma autonomia nos curtas, uma simplicidade, e isso me agrada muito. Como fotografo, trabalha com uma quantidade mínima de coisas, ele não gosta de trabalhar com muitos equipamentos, só os extremamente necessários. É importante um bom convívio entre o realizador e as pessoas que trabalham com ele.

 Guilherme Sarmiento: A gente tem mania de desvalorizar o roteiro quando não tem muito dialogo. Tenho a impressão que o Carreto e o Nego fugido utilizam mais de um dispositivo do que de um roteiro. Um longa demanda mais um trabalho narrativo né? Então como esta sendo a experiência?

 Claudio Marques: Uma característica nossa é que gostamos muito do uso da palavra, mas sempre foi uma opção nossa explorarmos ao máximo as imagens. Temos essa dialética sempre muito nossa, de eu colocar o dialogo e ela cortar… Em Nego fugido tem coisas que aconteceram e que não estavam dentro do roteiro. O roteiro é muito importante, mas o filme é muito melhor no fim, pelo menos eu acho que é muito melhor.

 Marília Hughes: A gente gosta de escolher atores que tem a ver com as personagens, que causem certa identificação num primeiro olhar. E acreditamos nessas pessoas.

 

 

 

 

 

2 thoughts on “ENTREVISTA: CLÁUDIO MARQUES E MARÍLIA HUGHES

  1. Emerson Dias

    A revista ta de parabéns pela entrevista. Acho que poderia entrar um pouco mais na questão de entrada do curta metragem nas grandes salas de cinema, antes da exibição do longa e também sobre a penetração do curta nos canais de televisão.

    Ótima entrevista.

  2. Cássius Borges

    Excelente entrevista. Cláudia e Marília são isso aí mesmo, pessoas simples e muito competentes. Estou tendo a oportunidade de trabalhar com Vídeo Assist em “Depois da Chuva” e podendo vivenciar a forma como eles conduzem o seu filme. Está sendo um aprendizado maravilhoso.!

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