LOST FILMS

UM PORTAL ALÉM DA VIDA

Por Guilherme Sarmiento

Navegar é preciso, viver não é preciso. Esta frase cultuada como uma máxima de enciclopédia hoje tem em seu horizonte de expressão um ato tão hábil quanto inerte: ficar horas diante de uma tela de computador, “navegando” na internet. Não se precisa o tempo exato que vivemos voltados para estes arquipélagos virtuais e, assim como Cabral quis ir às Índias e chegou ao Brasil, podemos hoje encontrar hemisférios periféricos ao traçarmos uma trajetória reta e simplesmente partir. Caso o navegante curioso digite inocentemente no google “Lost”, procurando informações sobre o seriado americano, tem grandes chances de chegar a um território de imagens fantasmáticas, que atrai colecionadores, curiosos e pesquisadores de todo o mundo. Sem saber, acabe diante do apelo de fotogramas dados como desaparecidos ou simplesmente esquecidos, sob a tutela de um arquivo de natureza tão peculiar quanto inquietante: Lost films (http://www.lost-films.eu/). O Alguém viu? desta edição visitou o site mantido por instituições alemãs, francesas, austríacas e tchecas, e, agora, revela sua peculiar coleção diariamente revista e ampliada .

Há vinte ou até mesmo trinta anos atrás iniciativas iguais as de Lost films seriam somente admitidas como fruto de uma mente ensimesmada por labirintos hexagonais, como aquele imaginado por Borges em seu conto Biblioteca de babel. Talvez o apego pelo livro como objeto impedisse o escritor argentino de desfrutar todos os jogos incluídos na fundação de arquivos mortos, espécies de mementos mori nos quais a sensação tátil – ou audiovisual – fosse substituída pela contrição diante de um ente sumido parcial ou totalmente. Certamente até há pouco nenhuma fundação inauguraria um espaço tão amplo dedicado aos filmes desaparecidos, pois o trabalho exigido para mantê-los materialmente acessíveis já requer investimentos tão grandes, que desdobrá-los em direção a estas constelações suprimidas pela história soaria fantasioso. Com o surgimento dos arquivos virtuais, este problema foi sanado. Nenhuma interface possui atributos mais adequados para alocar a memória esquecida do que as páginas da internet, suspensas pelo percurso aleatório de elétrons e abertas a conexões não lineares, tornando a ausência uma sombra notável e atuante como qualquer outra partícula.

Concebido pela Deutsche Kinemathek – Museum für Film und Fernsehen , de Berlim, arquivo cujo acervo de 13.000 filmes iniciou-se em 1963 com a coleção de seu fundador, Gerhard Lamprecht, Lost films amplia as atribuições dos arquivos de maneira significativa. Apoiada por instituições de renome como Bundesarchiv-Filmarchiv , também de Berlim; Centre national de la cinématographie (CNC), Paris; Filmarchiv Austria, Vienna e Národní filmový archiv, Praga, demonstra o compromisso comum aos arquivistas europeus em recolher a menor pista que seja para a elaboração de um olhar totalizante, no qual nenhum filme já produzido fique sem ao menos um contorno tênue e incompleto de sua passagem sobre a terra. Todas as medidas para que isto ocorra são oferecidas através de uma rede de informação criada a partir do portal. Ali, filmes dados como perdidos, ou mesmo não identificados, ficam expostos para reconhecimento e localização por internautas ou, se isto for impossível, pelo menos o resgate de algum material, como notícias de jornais, fotos, etc seja enviado e anexado para comprovar sua existência. Segundo o texto postado no site, a finalidade de Lost films é

“tornar visível a porção invisível da história do cinema, atuando como uma plataforma de colaboração para usuários de internet no sentido de reunir informações e documentos relevantes sobre os filmes desaparecidos”.

Estes objetivos vem sendo cumpridos rigorosamente pelo portal, que desde a sua inauguração aumenta o número de seus títulos de forma espontânea, atraindo a postagem de fotogramas muitas vezes descontextualizados de sua totalidade, pequenos trechos destroçados de películas cuja identificação ficou comprometida pela perda dos créditos ou qualquer outro dano irreparável. Assim, na seção “Identificar” acessa-se através de fotos, em sua maioria em preto e branco, um mundo de entes sem uma significação precisa, imagens flutuantes, desmemoriadas, à espera de alguém que as reconduza através de um nome ao transcurso da história. Filmes como Bill fait du sport, com positivo kodak datado de 1919 e 1920, apelam ao olhar de algum perito que restabeleça o sentido de uma montagem corrompida: um grupo de pessoas abismadas, uma mulher de olhar perdido, uma imagem de sanatório, um banhista obeso e caricato a beira mar. Quem são aqueles atores? A partir de qual dispositivo elaborou-se a performance? Quem orquestrava o espetáculo? As sombras em suas ações desconexas mobilizam o mundo na solução do enigma.

Lost films funciona como uma espécie de Wikipedia, onde as informações acumulam-se através da colaboração de seus membros, responsáveis pela alimentação regular do site. Para se tornar um colaborador basta preencher uma ficha virtual disponibilizada em uma das seções do portal e, a partir daí, surge o compromisso de anexar material, modificar alguma rubrica equivocada sobre determinado filme, configurando com o ato o perfil de uma rede. Cerca de 400 títulos já foram apresentados através deste modelo de plataforma colaborativa, mas a maioria das obras foram compiladas por uma equipe de administradores da Deutsche Kinemathek, em Berlim, responsavel por solicitar aos arquivos dados reveladores de seu acervo, em especial, sobre a listagem de obras desfiguradas ou desaparecidas.

Até o momento, a Lost films possui em seu arquivo 3.500 obras declaradas perdidas. Na listagem organizada tanto por título, nome do diretor e país, o Brasil comparece com o expressivo número de 61 películas, colocando-o em oitavo lugar entre os que alimentam continuamente o acervo espectral. Fica somente atrás da Alemanha, com 1945; dos Estados Unidos, 924; França, com 352; Áustria, com 347; Itália, com 209; da Dinamarca, com 137 e da Hungria, com 67 películas consideradas desaparecidas. Obviamente este número não representa a real magnitude destas lacunas, cujo diâmetro monumental tem capacidade de tragar porções muito mais vastas de anonimato. Igualmente, tamanho registro de obras nacionais representa muito mais a fiel disposição do brasileiro em navegar na internet do que uma incapacidade de gerir seu legado cinematográfico. A perda contínua da memória do cinema não constitui um malefício tropical úmido, mas algo sistemático, caso se queira contabilizar as perdas desde a origem do cinematógrafo. E aí, por conta da própria especificidade deste período– mais de oitenta por cento do cinema mudo tornou-se apenas um reclame de jornal ou documento de programação do início do século XX – , o formato curta-metragem obteve sérias baixas.

Isto fica bastante evidente quando observamos a lista de películas brasileiras divulgadas pela Lost films. Das 61 obras declaradas perdidas, 46 foram realizadas entre 1900 e 1920, ou seja, grande parte deste levantamento parcial possivelmente era curta-metragem como, por exemplo, As aventuras de Gregório, dirigido por Lulu de Barros na década de 1920. Este profícuo e esquecido diretor brasileiro possui o maior número de filmes nacionais desaparecidos catalogados pelo site. Menciona-se ainda A jóia maldita e Coração de gaúcho, este último baseado na obra de José de Alencar, e, certamente, esta pequena coleção está longe de exprimir o vazio deixado por uma vida dedicada a realização fílmica. O palhaço, Feijoada, Baianinha, Juriti, Casa de caboclo são outras pequenas narrativas do autor brasileiro que nunca mais foram exibidas por motivos óbvios, e não se encontram citadas pelo portal. Eduardo Abelim, Alberto Botelho, Carlos Comelli, Adhemar Gonzaga somam-se a esta estimativa mínima com a qual se vislumbra o eclipse de universos entre universos.

Como um portal que se pretende não somente catalogar obras desaparecidas, mas criar uma rede de informação capaz de divulgar, identificar e localizar parte de acervos tão deteriorados, ou comprometidos, que sua identificação torna-se precária, Lost films também divulga as obras encontradas graças a sua capacidade multiplicadora e colaborativa. Até hoje, 56 filmes divulgados pelo site foram encontrados, como Ariadne em Hoppegarten, cujo desparecimento foi desmentido por Gian Luca Farinelli e Vittorio Martinelli ao acusar uma cópia em preto e branco, com títulos franceses, na coleção da Cinemateca Nacional, em Roma. Outras vezes isto se torna quase impossível pela ausência de marcas a partir das quais se poderia definir os limites da ação, pela falta de numeração no negativo, créditos, somente restando a fixação de quadros pantomímicos, sem intertítulos, amarelados e quebradiços como folhas de outono. Estes instantâneos produzem uma estranha sensação em quem os vê: trechos brutalmente retirados de seu fluxo temporal e condenados a circularem eternamente sem uma paradeiro possível, pensamentos maníacos que giram em torno de si mesmos para satisfazer a própria incapacidade de permanência. As imagens também morrem. Definham, despedaçam-se e, se não são definitivamente afastadas desta dimensão, viram zumbis expostos em um portal.

Num mundo onde as imagens proliferam de tal maneira que sua descontextualização torna-se parte de sua expressividade diária, experiências singulares como a de Lost films inquietam tanto por restituir aos filmes sua historicidade e significados próprios, quanto, inconscientemente, alçar fragmentos acima destas nuvens temporais para a execução de uma obra sem fim. Retomando o conto A biblioteca de babel, de Borges, quando rememorava os livros depredados ou queimados pelos homens, o narrador desdenhou das consequências da perda dizendo:

“Um: a Biblioteca é tão imensa que toda a redução de origem humana resulta infinitesimal. Outro: cada exemplar é único, insubstituível, mas (como a Biblioteca é total) há sempre várias centenas de milhares de fac-símiles imperfeitos: de obras que apenas diferem por uma letra ou por uma vírgula”.

Ou seja, nenhum livro – assim como nenhum filme – está completamente só em sua feitura. Cada película traz em si todas as que foram feitas e todas as que ainda serão realizadas. Quem volta da viagem a estes territórios de ninguém descobre isto, ao vislumbrar seus habitantes sem espaço, sem tempo, sem nome, narrando a construção de um modelo perpétuo, no qual comparecem simplesmente como uma repetição, um resumo, um fragmento, do mesmo drama. Cada vez que se reencontra um curta-metragem – ou longa – considerado perdido, escuta-se uma frase solta das bordas de um abismo: “ao nada não voltaremos”.

Guilherme Sarmiento é cineasta, Doutor em Literatura Brasileira e professor de Dramaturgia do curso de Cinema e Audiovisual da UFRB. Realizou, junto com outros quatro diretores, o primeiro longa-metragem universitário, Conceição ou Autor Bom é Autor Morto, e foi um dos coordenadores do primeiro Festival Brasileiro de Cinema Universitário, realizado na UFF.

 

 

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