BAHIA, CINEMA E MEMÓRIA

Por Laura Bezerra

O cinema chega à Bahia

Quase simultaneamente são realizadas, em 1895, as primeiras projeções de filmes pelos Irmãos Skladanowsky na Alemanha e pelos Irmãos Lumière na França. O Cinematógrafo dos Lumière transforma-se em uma sensação e, já no ano seguinte, começa a rodar o mundo.

Em dezembro de 1897, Salvador verá o Cinematógrafo pela primeira vez no Theatro Polytheama; em pouco tempo, a “última maravilha do século XIX” conquista a capital e o interior da Bahia[1]. A produção de filmes no estado começa em 1910, quando Diomedes Gramacho e José Dias da Costa, donos da Photografia Lindemann, filmam Regatas na Bahia. Até 1914, a dupla vai filmar diversos eventos locais e produzirá também quatro números de um cine-jornal, o Lindemann-Jornal.[2]

Muito difere o cinema daquela época do atual: as “vistas” da Photografia Lindemann, por exemplo, tinham já um cliente certo, eram exibidas no Theatro São João em Salvador – um sonho para a maioria dos cineastas brasileiros do século XXI, que muitas vezes não conseguem mostrar seus filmes para além dos festivais.

Como eram esses filmes destes outros tempos? O que eles nos diriam sobre a aventura do cinema nos seus primórdios? O que eles nos contariam sobre a cidade do Salvador e sobre as pessoas que aí viviam? Como se apresentaram os governantes diante de seus eleitores? (Já no início do século produzimos filmes de propaganda de obras governamentais). Como seria o Carnaval cantado na Bahia, 1920, uma fita de J.G. Lima e José Nelli, que mesclava ficção e documentário[3]? De que linguagem os realizadores se utilizaram? Que imagem da Bahia e da baianidade eles construíram? Não sabemos, nem saberemos, uma vez que todos estes filmes não existem mais! Mantê-los acessíveis ao público é função dos arquivos de filmes.

Os arquivos de filmes

“Arquivos de filmes e arquivistas de filmes são os guardiães do patrimônio mundial de imagens em movimento. É sua responsabilidade proteger esse patrimônio e transmiti-lo à posteridade nas melhores condições possíveis e na forma a mais fiel possível da obra original.” (Código de Ética da FIAF, 1998).

Apenas três anos após as primeiras exibições públicas do Cinematógrafo, o cinegrafista polonês Boleslaw Matuszewski publica em Paris dois textos instigantes intitulados “Uma nova fonte histórica” e “A fotografia animada, o que ela é, o que ela deveria ser”. Num momento em que o Cinematógrafo é uma novidade no mundo do entretenimento e considerado uma mera atração técnica, Matuszewski visionariamente defende a imediata formação de um depósito de filmes.[4]

Segundo a Federação Internacional dos Arquivos de Filmes (FIAF), somente com a criação da Sociedade Sueca de Cinema (Svenska Filmsamfundet) em 1933 teremos o “primeiro arquivo de filmes no sentido moderno da expressão”[5]. Já existiam depósitos de filmes antes disso, mas eles atendiam a objetivos muito variados (educacionais, religiosos, militares etc); a novidade sueca é o fato de seu objetivo essencial ser a preservação de filmes. Criados em contextos institucionais muito diversos, os arquivos de filmes lutam, ainda hoje, pelo reconhecimento da importância (e da especificidade) do seu trabalho e vivem numa busca permanente de recursos e autonomia.

Um passo foi dado quando a UNESCO aprovou em 1980 a “Recomendação sobre a Salvaguarda e Conservação das Imagens em Movimento”, que torna pública a preocupação com a preservação do acervo mundial de imagens em movimento e recomenda a criação de arquivos de filmes em países onde eles não existam. Na Recomendação, os filmes são considerados “expressão da personalidade cultural dos povos”; nada mais importante, portanto, que se constituam não somente arquivos nacionais, mas que unidades menores comecem a cuidar dos acervos locais.

Arquivos de filmes na Bahia

Na Bahia, existem coleções audiovisuais importantes em duas instituições públicas: a Diretoria de Audiovisual (Dimas), pertencente à estrutura do Governo do Estado e, no âmbito municipal, o Arquivo Histórico Municipal.

Este último é parte da Fundação Gregório de Matos (FGM), criada em 1986, e tem um acervo de filmes sobre Salvador que abrange o período de 1930-1980. São imagens preciosas da cidade, que estão num prédio à beira-mar sem climatização, sem controle de temperatura e umidade. Com um orçamento deficitário, a FGM não empreende medidas direcionadas para a salvaguarda do acervo fílmico.

A Fundação Cultural do Estado da Bahia (FUNCEB) foi criada em 1974 e tinha na sua estrutura administrativa uma Coordenação de Imagem e Som (CIS), hoje chamada de Dimas[6]. Focada na difusão e no apoio à produção, a CIS começa a se envolver muito lentamente com a memória audiovisual da Bahia. Uma primeira iniciativa é a publicação do “Panorama do Cinema Baiano”, de autoria de André Setaro.[7] Esta brochura mimeografada é de fundamental importância, visto que estabelecer e divulgar filmografias são parte do trabalho de preservação audiovisual.

Há um avanço importante em 1984, quando José Umberto Dias, na época diretor da DIS, resolve, junto com o fotógrafo Lúcio Mendes, cuidar do pequeno acervo disponível na instituição, que estava “despejado em latas enferrujadas e alojado em espaço totalmente inadequado” [8]. Eles começam a montar uma infra-estrutura básica para a conservação dos filmes e iniciam também um trabalho de prospecção, que culmina numa campanha pelo depósito voluntário (com apoio dos cineastas e familiares) e na compra de cópias pela FUNCEB. A idéia era, com isso, formar a base para uma futura cinemateca baiana. O acervo será acrescido de uma biblioteca especializada e de uma hemeroteca, seguida da aquisição de cartazes e fotos e, posteriormente, de vídeos. Foi um momento de atividade intensa:

“Troca de recipientes imprestáveis por novos estojos e carretéis de plástico, revisão técnica de quilômetros de rolos de fitas, aquisições de ar condicionado, sterilair, desumidificador, relógio de controles de temperatura e umidade do ar, armários, lupas, enroladeiras, mesa de fórmica para revisão do celulóide, coladeiras, mapoteca, prateleiras, etc., hermética vedação do espaço, enfim toda uma indispensável montagem de infra-estrutura básica que permitisse criar um ambiente preservacionista de acordo com as normas clássicas empregadas nas cinematecas mundiais. Essa organização preliminar logo causou impacto positivo na própria instituição, causou interesse e apoio por parte dos produtores locais e repercutiu em outras regiões pelo seu aspecto de pioneirismo no Nordeste.” (DIAS, 2001, p. 27).

Os descaminhos do serviço público e a descontinuidade nas políticas de cultura levarão praticamente ao chão este esforço pioneiro. Em 2007, assumi a coordenação do Núcleo de Documentação e Pesquisa da Dimas e encontrei uma situação de extrema precariedade: os filmes estavam despejados em latas enferrujadas e alojados em espaço totalmente inadequado – mesmo parecendo uma alusão a Kafka, uso aqui as mesmas palavras de José Umberto em 1984. O depósito de filmes tinha o ar condicionado desligado à noite e, nos fins de semana, não tinha ventilação e, estando num subsolo, tinha níveis altíssimos de umidade; no mesmo espaço ficavam máquinas velhas, papéis, em outras palavras, o lixo institucional. Os livros estavam encaixotados e guardados junto com o arquivo-morto da instituição; cartazes e fotos não tinham um acondicionamento minimamente adequado. Iniciamos o levantamento do acervo de películas e elaboramos um plano de ação emergencial. Estabelecemos também metas de médio e longo prazos, que deveriam levar até a implementação de uma Cinemateca da Bahia formada por três núcleos: o prioritário, de Preservação, seguido de um Núcleo de Documentação e Pesquisa e, posteriormente, de um Museu de Imagem, Som e Multimeios.[9]

O Núcleo de Documentação e Pesquisa, que hoje se chama Núcleo de Memória, teve três coordenadoras entre 2007 e 2010, passando por certa instabilidade. Mesmo assim efetuou diversas ações, entre as quais ressaltamos o lançamento do Box “Bahia – 100 anos de cinema” (com 30 filmes em doze DVDs) e da “Memória em 5 Minutos”, quatro DVDs com os filmes premiados no Festival de Vídeo Imagem em 5 Minutos, entre 1994 e 2009. O Governo do Estado da Bahia financiou o restauro e a digitalização de Redenção (1959), de Roberto Pires, e Der Leone have sept cabezas (Itália, 1970), de Glauber Rocha, lançados em DVD em 2010, além de liberar recursos para o restauro de A grande feira (1961), também de Roberto Pires. É bem mais do que aconteceu nos anos imediatamente anteriores.

À espera de uma política de preservação audiovisual

A formação de acervos audiovisuais em instituições vinculadas ao Governo do Estado e à Prefeitura de Salvador pareciam fatos auspiciosos. Infelizmente, em 2011, os acervos existentes permanecem em condições precárias. Enquanto o Município não fez investimentos, o Governo Estadual investiu grande soma nesta área. Entretanto, se pensarmos na preservação como “o conjunto dos procedimentos, princípios, técnicas e práticas necessários para a manutenção da integridade do documento audiovisual e garantia permanente da possibilidade de sua experiência intelectual” (SOUZA, 2009, p.6), não vemos avanços significativos. Reconhecemos o grande investimento feito pelo Estado da Bahia no restauro de filmes, mas este, se por um lado, nos alegra pelo reconhecimento do valor do patrimônio audiovisual, por outro, provoca alguns questionamentos inquietantes. Qual o critério para a escolha destes filmes (pelo que se sabe A grande feira não estava em perigo de se perder)? Uma política de restauro deve partir de um diagnóstico claro, que defina prioridades; ele não pode se basear nos “grandes” nomes. Seria mais urgente, por exemplo, cuidar da instigante produção baiana de Super-8; são mais de duzentos filmes realizados entre 1970-1983 e em nenhuma outra época do cinema baiano se experimentou tanto. A outra questão que se coloca é como se justifica o investimento de tão grande soma no restauro de três filmes, mas nenhum na criação de um espaço climatizado adequado ao acervo da Dimas?

Estas questões deixam claro que precisamos ainda elaborar uma política de preservação do patrimônio audiovisual da Bahia. Para isso é fundamental que se pense no todo (em ações de pesquisa, prospecção, conservação, restauro, duplicação, digitalização e difusão; em como estas ações devem estar articuladas; e no seu desenvolvimento ao longo do tempo). Ao mesmo tempo, temos que partir de um diagnóstico claro para definir prioridades, visto que os recursos são limitados.

O foco de uma política nesta área tem que ser criar condições para a preservação dos filmes, visto que o restauro é um processo caro e complicado. É necessário que se pense prioritariamente na conservação dos filmes, ou seja, que se façam “todas as atividades necessárias para prevenir ou minimizar o processo de degradação físico-química de um artefato” (SOUZA, 2009, p.7) e, para isso, é fundamental que se tenha um espaço adequado para o acondicionamento do acervo audiovisual da Bahia; sem este espaço, a restauração não faz muito sentido. (Onde se vão colocar os filmes restaurados? Muitos filmes baianos recentes vêm se perdendo por falta de um espaço adequado de acondicionamento). Mas a preservação não acontece sem os profissionais; precisamos não somente de investimentos na formação, mas principalmente de estabilidade na equipe responsável pelos filmes, uma vez que, como disse Carlos Roberto de Souza na sua tese de doutorado sobre a Cinemateca Brasileira,

“A preservação não é uma operação pontual, mas uma tarefa de gestão que não termina nunca. A manutenção em longo prazo da integridade de um registro ou de um filme depende da qualidade e do rigor do processo de preservação executado ao longo das décadas, não importa sob quais regimes administrativos, até um futuro indeterminado. Nenhum filme está preservado; na melhor das hipóteses, ele está em processo de preservação“. (SOUZA, 2009, p.6).

Isso não é possível sem uma política clara, sem um espaço adequado, sem investimento em pessoal. É aí que o Estado precisa atuar.

Laura Bezerra coordena o projeto Filmografia Baiana. Doutoranda do Programa Multidisciplinar de Pós-Graduação em Cultura e Sociedade com o tema “Políticas para a preservação audiovisual no Brasil (1995-2010)”; bolsista da Capes.

NOTAS

[1] BOCCANERA JR, 1919, p. 19.

[2] Confira BOCCANERA JR, 1919, p. 16-17 e SILVEIRA, 1978, p. 26-28.

[3] Os diretores introduziram uma estória cômica – a de uma família do interior que vem assistir o carnaval de Salvador e passa por grandes apertos – às filmagens do carnaval.

[4] Cf. MATUSZEWSKI, “Uma nova fonte histórica”, 1898. Tradução de Daniel Caetano. In: Contracampo nº. 34, 2001. Disponível em http://www.contracampo.he.com.br/34).

[5] Cf. http://www.fiafnet.org/uk/members/fiafchronology.cfm, acessado em 17.2.2009. Ainda no final do séc. XIX, por exemplo, são depositados filmes na Biblioteca do Congresso de Washington para comprovação de direitos autorais; nesta mesma época, o Museu Britânico começa a recolher filmes, interessado no seu potencial como registro histórico.

[6] A CIS passará por diversas denominações, Departamento de Imagem e Som (DEPIS), Gerência de Imagem e Som (GEIS) e Diretoria de Imagem e Som (DIMAS). A DIMAS foi chamada de Diretoria de Artes Visuais e Multimeios, antes de se transformar, no primeiro governo de Jaques Wagner, em Diretoria de Audiovisual.

[7] Junto com José Umberto, Setaro será responsável pela investigação da obra de Alexandre Robatto, que culminou no restauro de seus filmes e na publicação “Alexandre Robatto, Filho – Pioneiro do Cinema Baiano” (1992). Em 2010 a Dimas lança “Alexandre Robatto Filho. Centenário de um cineasta baiano”. Importantes são as edições de textos de Walter da Silveira, “A História do Cinema Vista da Província” (1978) e “O eterno e o efêmero” (2006).

[8] DIAS, José Umberto. Rascunho de Amanuense. Salvador 2001, p. 26 (não publicado).

[9] Que incluiria a exposição dos equipamentos de cinema e vídeo adquiridos por Roque Araújo e equipamentos de rádio colecionados por Perfilino Neto.

BIBLIOGRAFIA

BEZERRA, Laura. Filmografia Baiana: Memória Viva! Portal de documentação da produção baiana de cinema e vídeo. Disponível em www.filmografiabaiana.com.br. Acesso em 15/05/2011.

________. Filmografia baiana – um panorama. In: Anais do II Ebecult – Encontro Baiano de Estudos em Cultura. Feira de Santana: UEFS, 2009. CD-Rom.

BOCCANERA JUNIOR, Silio. “Os Cinemas da Bahia”. Resenha Histórica(1897-1918) Salvador 1919.

CARVALHO, Maria do Socorro Silva. A Nova Onda Baiana. Cinema na Bahia 1958-1962. Salvador: Edufba 2003.

CONTRACAMPO, nº 34 (dezembro de 2001). Dossiê Preservação, restauração e difusão. Disponível em http://www.contracampo.com.br/34/artigos.htm. Acesso em 15/07/2009.

DIAS, José Umberto. Rascunho de Amanuense. Salvador 2001, p. 26 (não publicado).

______ e SETARO, André. Alexandre Robatto, Filho. Pioneiro do Cinema Baiano. Salvador: FUNCEB / Diretoria de Imagem e Som, 1992.

EDMONDSON, Ray. Audiovisual Archiving: philosophy and principles. Paris: UNESCO, 2004.

GUIMARÃES, Jorge Alfredo. “Novíssima Onda Baiana”. Disponível em http://www.abcvbahia.com.br/novaonda/index.htm. Acesso em 15/07/2009.

SETARO, André. Escritos sobre cinema – Trilogia de um tempo crítico. Vol. 3: Cinema Baiano. Rio de Janeiro: Azougue, 2010.

________. Panorama do Cinema Baiano. Salvador: FUNCEB / Coordenação de Imagem e Som, 1976.

SILVEIRA, Walter da. A História do Cinema Vista da Província. Salvador: FUNCEB 1978.

________. O eterno e o efêmero. Org. e notas: José Umberto Dias. Salvador: Oiti 2006.

SOUZA, Carlos Roberto de. A Cinemateca Brasileira e a preservação de filmes no Brasil. São Paulo: 2009 (Tese de doutorado, Escola de Comunicações e Artes/USP).

VIERA, Paulo Sá. O Cinema Super-8 na Bahia. Salvador, 1984.