BARRAVENTO

891902-8723-cp2

Por Cauê Rocha

Meados dos anos 40 e 60, o Brasil encontrava-se em uma situação de tensão, presente no ambiente cultural. A diversidade de olhares e pensamentos políticos ideológicos a cerca da cultura popular, das religiões afro brasileiras, sobre a modernidade do pais, o papel do intelectual, os conceitos de povo, de alienação, arte popular, o Cinema Novo. Nesse cenário é que se filma Barravento (1959/1962). Como quem apalpasse uma obra maravilhosa do cinema baiano, tenho o filme em minhas mãos. Desde já nego minha condição de intelectual ao saciar de tal obra. Venho como quem veio dar uma! Um grupo, um convite, um gozo cinematográfico.

Meu tempo cinematográfico é outro, é exótico ver um filme como esse nesse instante, cercado de conhecimento acadêmico, infiltrado na faculdade de cinema, como quem caísse na toca do lobo. O que você está fazendo aqui? Você é cinéfilo? humm… Relevo! Mais que natural, é prazeroso falar desse filme. Fiz ao avesso, vi as obras mais conhecidas de Glauber, e há poucos dias Barravento veio parar na minha frente, senti até um pouco de medo, mas barravento passou.

Glauber Rocha tem a fama de ser um grande cineasta, de fato, o cara foi um gênio, sua capacidade de criação era brilhante, mas para muitos, também incompreensível, chato! Não entendi nada! Dormi em todos os filmes de Glauber Rocha! Tenho que ver de novo! Sua riqueza literária, irreverência dramática e discurso, sempre foram para boa parte do publico algo difícil, sendo enquadrado como cinema de burguês, de intelectual, um dos pontos que é atribuído ao declínio do cinema moderno ( Cinema Novo, marginal). Mas isso é uma questão que pode ser vista também, de como o povo aprendeu a ver o cinema, como aprendemos a ler o cinema, considerando o momento atual, com a participação “alien’ativa” da televisão. Glauber, coitado, não agüentaria viver nesse mundo de agora, onde pouca coisa mudou, ainda vivemos um ensaio de uma indústria, acariciada pelo estado, o que era uma de suas grandes críticas, em torno da ineficiência de estabelecer uma industria cinematográfica. Glauber contribui em seu tempo para a reflexão de qual cinema queremos hoje. Seus filmes, críticas e revisões sobre o cinema nacional, ultrapassam as fronteiras de seu tempo, chegando a nós como uma das maiores referências do cinema brasileiro, com temas revolucionários, marxistas, trazendo o povo, as classes e poderes dominantes como personagens, intervindo nas representações do nacional, popular. Quando ainda jovem, interessado por cinema, era freqüentador assíduo do Clube de Cinema da Bahia, onde começou sua formação, e conheceu futuros parceiros.

Salvador passava por uma efervescência cultural bastante singular, a invenção, o experimentalismo, e o combate ao convencional. O aumento da produção entre 1958-1992 é um estímulo ao desenvolvimento cultural. Na verdade, essa tendência estava em todo âmbito nacional, o governo de JK, sustentado nas bases do desenvolvimento, da modernidade e da questão do nacional. Às vésperas da ditadura, os debates políticos entorno da cultura nacional se acirraram. Como seria feita a integração das classes populares à industria cultural? Salvador almejava o prestígio que o Brasil outrora alcançou, para isso investiu em manifestações culturais. De inicio lançaram mão de uma mostração da cultura baiana, a cultura negra como a mais forte do estado, descoberta por uma corrente sócio-antropológica com a chegada de forasteiros na Bahia, Carybé, Pierre Verger, Ibecê Camargo, Pancetti. A cultura negra marca presença na cidade a partir dos anos 50, o carnaval – capoeira – Candomblé, vista como algo perigoso para a sociedade branca dessa época. A chegada de estrangeiros desembarcados no Brasil contribui para a aculturação da elite nativa – frequentar terreiros, oloduns, capoeiras. Estrangeiros em sua própria terra.

As “coisas da Bahia” mais a importação de coisas modernas promoviam a imagem de uma Bahia que avançava em caminho da modernidade, preservando suas raízes culturais. Essa união que Barravento faz alusão, a relação conflituosa, vez contraditória, vez revolucionária, a existência da tradição e modernidade.

O filme passou por várias mudanças, começando pelo diretor, Glauber assume a direção do filme, substituindo Luíz Paulino dos Santos. Glauber promove varias mudanças no roteiro, dizem que a história original era alienante, centrada em “gigolôs e prostitutas”. O que não posso opinar, por enquanto. O roteiro original encontra-se na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, a espera de pesquisadores.

É um filme que a fotografia não passa despercebida, é muito linda! O preto e branco revela uma poesia na iluminação do filme. Os enquadramentos comportam a proposta de montagem influenciada pelos soviéticos. Há um lindo repertório de musicas baianas, de sambas de rodas, mandingas de capoeiras e cantos de orixás. A cultura afro é exposta com grande beleza, por mais que haja um aspecto negativo em sua representação vinculada à religião, a beleza e fascínio é imperante na representação da cultura como um todo.

O filme conta a vida de uma comunidade de pescadores na praia do Buraquinho. O cotidiano dos moradores, predominantemente negros, a ida ao mar, a preparação para a pesca, a puxada de rede, rituais religiosos do candomblé, rodas de capoeira e rodas de samba. Firmino, um antigo morador, retorna à vila. Sua chegada, com hábitos e noções exclusivas da cidade contrapostas a realidade da aldeia, é o vetor da discórdia que norteará a obra até seu desfecho. Os personagens assumem uma posição de sustentação dramática. O mestre, velho líder, que negocia com o dono da rede de pesca, um capitalista da cidade. Aruã é um jovem pescador, visto como protegido por yemanjá, sua virgindade é o que faz dele ser um ser divino. Cota é uma linda mulata, sedutora, que vive na aldeia. Gosta de Firmino, que a seduz fazendo com que realize algumas de suas vontades. Naína é uma moça branca, que gosta de Aruã. Com todo medo, aceita yemanjá por entender ser o melhor para todos da aldeia, como uma vontade da deusa.

Firmino é o personagem que se deve dar maior atenção. Suas ações refletem a tendência que o pais vivencia. Recém retornado à vila, traz os princípios da modernidade. Ele gosta de Naína e quer levá-la para a cidade. Tem problemas com Aruã e quer acabar com ele. Para isso faz com que Cota atraia Aruã para que se deite com ela, quebrando o feitiço do rapaz. Fazendo com que os pescadores percebam o processo de dominação que estão inseridos, dentro de uma tradição religiosa. Seu papel é perecível, como quem alimenta as transformações em conflitos e desafios, colocando os personagens em movimento.

A associação de Firmino com Exú é bastante pertinente e dada no filme. A cena em que Firmino vai à casa de santo encomendar um ebó para Aruã, o que é negado pela mãe de santo. Sua saída do terreiro é marcada pela música e toque de Exú, orixá das encruzilhadas, do acerto do errado, do contraditório, que traduz a atmosfera de transmutação do filme, entre os modernos anos 60, a rede de pesca, o saveiro desembarcando produtos do interior na cidade baixa, e o tradicional de uma tribo, a crendice, o santificado como responsável pelas mudanças, perdas e ganhos da comunidade. Firmino é o cara que provoca essas transformações na vila, em muitos momentos visto pelos pescadores como uma vontade do divino, do sagrado

Através de Firmino, é possível compreender a concepção do filme, o sentido de libertação do povo. Na história, pescadores conduzidos pelas tradições e crenças, esbarrados no pensamento revolucionário, muito próprio de Glauber Rocha.

O título – Barravento – fortalece a idéia de transformação como eixo do filme. Para os homens do mar barravento é a mudança de tempo, no samba de roda é a troca do verso, na capoeira é o defensor que contra-ataca e no atabaque é o toque sincopado e elíptico do ritual do candomblé. Barravento destaca o momento de virada, a chegada do limite, quando se faz necessário uma transformação.

O sucesso do trabalho no mar dependia de yemanjá – seguir as ordens dos orixás era necessário para uma boa pesca. Para Firmino, o candomblé mascarava os reais problemas sociais e era fonte de alienação do povo. Dominado por um misticismo trágico e fatalista. Aceitavam a miséria, o analfabetismo e a exploração com a passividade características daqueles que esperam o reino divino. Como consta no texto inicial do filme.

A questão do sagrado como a que conduzir a vida material dos pescadores, o trabalho só é possível com o interesse e vontade dos deuses. Podemos ligar essa história como uma tradução homérica. A questão da divindade humana, a crença de que Aruã é um ser divino, similar à figura de Aquiles e Hercules. Os Deuses como governantes do mundo e os mitos como comprovação do real. Na sequência em que as mulheres conversam sobre os poderes de Aruã, uma senhora recorda de uma história real, que aconteceu entre eles. De Isabel, quando teve um sonho que yemanjá queria sua filha, seu pai que era Joaquim não deixava a menina chegar perto do mar, até que os castigos vieram acontecer, rede que Joaquim tocava, não vinha peixe, ninguém mais queria jogar rede com ele, veio a fome. Joaquim decide ir atrás do peixe no mar, nunca mais foi visto. Isabel ficou doida, entra no mar em busca de Joaquim, quando desaparece no meio das ondas, sua filha que veio logo atrás, é jogada contra as pedras, foi uma tragédia.

Entro na discussão em percepção de possibilidade de estabelecer uma leitura do filme de questionamento ao que vem a ser religião em um panorama geral. Os meios, as circunstancias, crenças e ritos diferenciam os modos de experimentar a religião, diversas categorias e sistemas. Ossatura, nascida da religião, quando o estado mental coletivo vem estabelecer uma crença, algo que passa a existir com o coletivo sacro. Quando Kant ressurge com a experiência do conhecimento. Apreensão de algo do real como uma verdade, materializada em alguma espécie de crença teológica. Duckheim traz a crença e a representação em reflexo da essência compartilhada, o culto através da repetição, vem a renovação e a fé, como quem alcança a salvação na fé que se amplia com as idéias e sentimentos coletivos. “A idéia da sociedade ser a alma da religião”, a questão da força religiosa, como uma força humana, a força moral de natureza coletiva. Tudo isso é muito presente em Barravento, o respeit que os pescadores têm com suas tradições e a superação do medo, no caso de Naína, aceitando o candomblé, sem entender como que ela sendo branca pode ser de santo, diante da crença que a melhora da vila está nela aceitar o santo, como desejo dos deuses.

Barravento mostra-se contrário ao candomblé. O caráter político acrescentado a Firmino, que difunde a associação da religião ao atraso econômico. O que está presente em varias obras de Grauber, o povo alienado pela religião, a serviço do fascismo, da exploração do capitalismo, aceitando as condições de oprimido. Seus filmes são revolucionários enquanto a aceitação máxima do Marxismo de que “a religião é o ópio do povo”.

Posso dizer que adoro Barravento, por sua beleza fotográfica, pela musica representada, pela rica relação estabelecida com o tempo real de realização do filme, ligado a uma ficção inspirada nos costumes reais da uma parte da sociedade brasileira.