CINEOP: CINEMA É PATRIMÔNIO

Por Cyntia Nogueira

Para quem chega de Cachoeira em Ouro Preto, impossível não perder algumas horas e talvez até dias pensando nas aproximações e diferenças entre essas duas cidades históricas, de arquitetura colonial, ícones de momentos econômicos fortes do Brasil Colônia, como os ciclos do açúcar e do fumo, na Bahia, e da mineração, em Minas Gerais. Hoje, as vocações econômicas das duas cidades parecem muito semelhantes, entre vida universitária e turismo cultural, tendo o cinema como uma possibilidade.

Em Ouro Preto, o modelo de desenvolvimento da universidade e de negócios voltados para o turismo cultural chama atenção. Um Centro de Convenções com forte atuação local, projeto arquitetônico e serviços modernizados, mantém o comércio aquecido o ano inteiro. Ouro Preto tem bons restaurantes, pousadas charmosas, livraria especializada em arquitetura, arte, literatura e culinária mineira, cinema, teatro, botecos que vendem 1 litro de Stella Artois por R$8 (Barroco) e 600ml de Heineken por R$4 (Satélite), muitas repúblicas de estudantes, federais e privadas, mas também uma periferia que cresce e muda o horizonte da cidade.

Ainda não entendi muito bem como funcionam essas repúblicas, mas por todo lado há placas anunciando vagas em bonitos casarões reformados e preservados, o que, me parece, ser reflexo de políticas governamentais associadas ao projeto da UFOP, uma das 12 universidades federais de Minas Gerais.

Preservação e educação. Esses são os dois faróis da Mostra de Cinema de Ouro Preto, que reúne anualmente profissionais de arquivos audiovisuais, cinema e educação. A curadoria da mostra tem como foco filmes históricos e restaurados. Em seis dias, participei de discussões e encontros preciosos sobre documentação, conservação, preservação e restauração de filmes brasileiros, além do Fórum da Rede Kino, um instigante projeto de transformação da educação brasileira tendo em vista a potência pedagógica do cinema.

Vi três filmes que revelam bem o espírito da CineOP: Rico ri à toa (1957), de Roberto Farias, Redenção (1959), de Roberto Pires, ambos no Cine Vila Rica, e Nem Sansão nem Dalila (1955), de Carlos Manga, na Praça Tiradentes, lotada.

Os três trazem um pouco da mesma emoção: o reencontro com um cinema brasileiro popular, divertido, realizado por três grandes diretores brasileiros, dois deles no início de suas carreiras. Esse cinema conviveu com as primeiras investigações voltadas para o realismo social cinematográfico nos anos 50. Um cinema que, como contou Roberto Farias no dia seguinte à exibição de Rico ri à Toa, precisava se pagar na bilheteria para se manter nas telas. Fazer cinema era uma necessidade e um negócio. Um negócio cultural, capaz de colocar o samba na sala dos ricos, de fazer o povo rir da elite, a Bahia acreditar que poderia fazer cinema.

Na noite de abertura da CineOP, de cadeira de rodas, o mestre das chanchadas e grande homenageado da sexta edição da mostra, Carlos Manga, emocionou-se muitas vezes ao lado de Roberto Farias. Pena que Pires não teve a mesma chance. Grande diretor do cinema brasileiro, o cineasta baiano, contemporâneo de Glauber Rocha e diretor de clássicos como A Grande Feira (1961), Tocaia no Asfalto (1963) e Máscara da Traição (1968), morreu antes que fosse encontrada a única cópia disponível de seu primeiro filme, Redenção, no acervo do Instituto Lula Cardodo Ayres, em Pernambuco.

Pires morreu antes de ver sua obra revisitada com grande entusiasmo por jovens estudantes e pesquisadores de cinema, e pelo público, que sempre deu sentido às suas produções. Fiquei feliz ao saber, por Petrus Pires, que assumiu o projeto de restauração da obra de seu pai, que o filme A Grande Feira estava sendo vendido por camelôs na Av. Sete de Setembro, em Salvador. Delícia saber que esse filme está de volta ao imaginário popular baiano, com seus personagens inesquecíveis, como Chico Diabo, vivido por Antônio Pitanga, e a Maria da Feira, interpretada pela belíssima Luisa Maranhão. Filmes como esses fazem lembrar uma auto-estima negra, baiana, recôncava, que parece faltar ao projeto de desenvolvimento de Ouro Preto.

Tanto Pires quanto Farias, dois diretores afeitos ao filme policial, de grandes êxitos comerciais e artísticos, que iniciaram suas carreiras nos anos 50, tiveram seus primeiros filmes trazidos de volta à vida. Exibidos no Cine Vila Rica, os cases de restauro foram discutidos no último dia da CineOP e expõem alguns dilemas que envolvem a questão da preservação de filmes hoje no país.

O primeiro é tragédia de sempre: a destruição, ao longo dos anos, por falta de políticas de conservação, dos negativos originais dos filmes, o que restringe sobremaneira as infinitas possibilidades de restauro oferecidas hoje pela combinação das tecnologias digital e fotoquímica. Redenção foi restaurado a partir de uma única fonte, a cópia 16mm encontrada na acervo de Lula, duas latas de filmes que somam ainda 57 minutos apesar dos fotogramas perdidos para sempre. Melhor sorte teve Rico ri à toa, restaurado a partir das matrizes originais. Outro dilema é o alto custo de restauração e a pouca disponibilidade das empresas em participar, via isenção fiscal, de projetos desse tipo, o que chama atenção também para a questão da viabilidade comercial dos projetos de restauração para os laboratórios.

Outros dilemas estão ligados igualmente à ideia de desaparecimento: de fontes de pesquisa como revistas especializadas. Ou a questões éticas: o que restaurar, como restaurar. E ainda à consolidação do campo: investimento em formação, necessidade de descentralização das políticas de preservação… Afinal, como manter nossos acervos acessíveis ao público ao longo dos anos? Então, como é mesmo que a preservação e a educação podem transformar a possibilidade cinema em realidade? A CineOP está em busca de respostas para essas questões. Ouro Preto não é apenas cenário, mas inspiração e problematização, como continua a ser a Igreja de S.Francisco de Assis, fonte inesgotável de produções e relações simbólicas, econômicas, identitárias.