THOR, O FILME, E O MARAVILHOSO CRISTÃO

Por Guilherme Sarmiento

Atualmente, nenhuma franquia cinematográfica produz sucessos com tanta regularidade quanto a Marvel Studios. A marca, definitivamente, deixou de ser somente um selo de quadrinhos para se transformar em uma poderosa usina de mundos expandidos, com seus heróis coloridos ganhando movimento e se espremendo, não sem certas perdas e danos, nos modelos dramatúrgicos de Hollywood. Talvez o veículo mais natural para o formato seja a televisão, pelo caráter serial das histórias de super-heróis, muito mais próximas do folhetim. Mas o cinema já tem um longo trato com jornadas de todos os tipos, sua construção em arco, de modo que a inclusão de um martelo boomerang não criaria tantos transtornos de adaptação para roteiristas experientes. Thor, o Deus do Trovão, foi domesticado pelos paradigmas terrenos de Syd Field e Cristopher Vogler.

Em 1978, Richard Donner já havia experimentado a fórmula com êxito. Dirigiu Super-Homem com a seriedade de um esteta, cujas referências iam de John Ford a Stanley Kubrik, sem com isto abrir mão do grafismo e colorido dos quadrinhos. Kenneth Branagh não obteve a mesma liberdade para efetuar suas citações eruditas, mesmo quando tentou refinar a interpretação dos atores a partir de caracterizações levemente shakespearianas. Se nossa indulgência e boa vontade permitir, poderemos achar em Thor referências a Rei Lear e a Otelo, este último nas insidiosas manipulações palacianas de Loki, semelhantes àquelas promovidas pelo ressentido Iago nas ilhas mediterrâneas. Nada disso, no entanto, faz com que se imprima algum estilo notável ao filme, cujo atrativo principal reside na maneira como os roteiristas conceberam, a partir da estratificação clara dos espaços, uma recriação contemporânea do Céu, do Purgatório e do Inferno através da maravilhosamente etérea Asgard, da planura desértica, realista, do Planeta Terra, e da gelada e noturna biosfera dos gigantes de gelo.

Aí está todo o atrativo do filme Thor. Nisto o Deus do Trovão e o Homem de Aço muito se assemelham. Suas parábolas extemporâneas bebem tanto da mitologia grega quanto das escrituras bíblicas, iluminando artifícios cênicos e construção de personagens com uma leve pátina de maravilhoso cristão. O pequeno superhomem atravessa os espaços em sua manjedoura de cristal como Moisés atravessou o Rio Nilo boiando em um cesto de cânhamo trançado. São referências que atraem nosso imaginário ocidental e, de forma silenciosa, descascam suas paredes ressecadas, revelando mosteiros entranhados, celas de penitentes e a presença de anjos e demônios ao lado de velas acesas. Penso na construção dramática de Thor como a realização de um tríptico da Alta Idade Média, retábulos realizados também por pintores renascentistas e barrocos do porte de Hieronymus Bosch ou Albrecht Dürrer, onde se tentava representar as espacialidades imaginárias do além, dividindo-o em três partes bem marcadas. O céu pintava-se à esquerda da peça; no meio, representava-se a terra no momento do juízo final, encimada pela figura de Cristo; à direita, o inferno, com sua escuridão, suas criaturas repugnantes e cenas grotescas.

Observando a construção fílmica através desta lógica, percebemos as verdadeiras forças subjacentes às estruturas íntimas do filme Thor. Esqueçam a mitologia bárbaro-norueguesa, mero adereço carnavalesco. Atentem-se para o modo como Asgard foi construída fotográfica e digitalmente no filme, com uma luminosidade dourada de amanhecer, com suas torres edênicas serenamente governadas por Odin. Em contraposição, temos o planeta dos gigantes de gelo, região sombria, na qual habitam seres disformes com olhos rubros de sangue, próximos daquilo que entendemos por demônios. Já o planeta Terra aparece plantado em território vazio e desértico, um lugar intermediário, onde o protagonista deverá passar por duras provações até atingir a humildade necessária para retornar à Asgard como seu herdeiro soberano.

Conceitualmente, o ambiente terrestre assenta-se num realismo dissoluto, insalubre, filmado do ponto de vista de uma equipe de filmagem a quilômetros de distância de uma explosão. Muitas vezes se cria realmente esta impressão de uma câmera hiperrealista à espera de uma catástrofe natural sem precedentes, ao longe – algo comum nos filmes americanos atuais. Na película, meteorologistas arremessam-se no vórtice de tornados e trovoadas como moscas tontas, à procura de alguma explicação para o açoite de fenômenos cósmicos e naturais sem uma lógica aparente.

Por conta de inúmeras idas e vindas entre tantos mundos, o filme Thor acabou perdendo parte de sua verdadeira vocação – ir fundo nas desventuras de um deus purgando em um mundo decaído. A parte mais fraca do filme reside justamente no momento em que se dá estas provações. Nenhuma instância narrativa – da concepção do roteiro à interpretação dos atores – consegue mostrar o processo de queda e redenção através da descoberta da humanidade por parte do herói. Nenhuma das relações estabelecidas por Thor na terra é forte a ponto de realizá-lo como um representante entre os dois mundos. Ainda assim, por mais tênue a sua encarnação, o Deus do Trovão conseguiu mobilizar analogias blasfemas com as escrituras sagradas na internet.

Em uma questão lançada publicamente pelos usuários do Yahoo http://br.answers.yahoo.com/question/index?qid=20110325144913AAg8YUW, um internauta jogou a intrigante pergunta na rede:

“Thor veio pra nos livrar dos gigantes do gelo, e isso esta funcionando. Jesus veio nos livrar do pecado…?”

Mais à frente, outro respondeu a provocação:

“Thor não tem que lidar com a vontade dos que tenta livrar, por isso ele é ficção, enquanto Cristo, apenas pede que não nos conformemos com este mundo, mas nos transformemos pela renovação do nosso entendimento, isto implica em renúncia pessoal, em decidir ser diferente. Ah, se bastasse só um martelo para isso…”

Neste sentido, de Branagh e sua equipe exigia-se um maior distanciamento de Shakespeare e uma maior aproximação de Dante para cumprir esteticamente sua promessa mitológico-cristã. Deixar de lado o bardo inglês e se apoiar em outras referências estéticas e artísticas mais conscientemente de seus valores tornariam o filme bem mais instigante. Esperemos, então, a versão de Mulher Maravilha dirigida pelo Aronofsky, ou quem sabe, pelo Haneke, para provarmos as delícias da culpa e do pecado, recriando através do universo pop as alegorias de um mundo à procura de novos sentidos para a divindade.

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