OS FILMES DE AGNÈS

Por João Aleixo

Os filmes de  Agnès Varda fazem-me retornar a uma questão muito íntima: por que o documentário, por que o cinema? Saio de seus filmes querendo olhar, escavando na minha memória eventos que possam dar um filme. A partir de seu olhar, me pego tentando catar olhares sobre o mundo que me afetem, que me tirem de um lugar, que me transformem. Desejo me relacionar com alguma coisa que está além de mim, que guarda seus mistérios, sua incompletude.

Escrever sobre uma mostra que homenageia a obra de Varda é difícil. Seus filmes são constituídos de associações diversas, que percorrem caminhos muito singulares. Tratam do tempo, da memória, da imagem, costuradas por uma subjetividade na figura de Agnes, que fala, filma e se filma. Que adere.

Ulysse, filme que tem como ponto de partida uma fotografia tirada pela diretora em 1954, desenrola-se a partir de uma ausência. Tanto o garoto da foto, que em 1982 é livreiro em Paris, como o homem nu, diretor de arte da revista Elle, não se reconhecem na fotografia. A cabra morta da foto virou pó. “A imagem está aí, e isso é tudo”, constata a diretora. A imagem mostra-se como um estado de mundo, onde o que lhe constitui é uma falta. Nada nos é dado, nada está reproduzido.

Ulysse é um filme que dialoga com  As praias de Agnès no sentido em que ambos os filmes possuem uma relação, à qual é recorrente nos filmes da diretora, entre memória e imagem. Quando Varda, em “As Praias”, se diz em dúvida se a reconstituição de fatos da sua vida é o melhor caminho para falar de sua história, ela enxerga o passado como um gesto de escritura, como uma versão dos fatos, um corpo que muda. “Será que eu sei o que me passava pela cabeça há 28 anos ao fazer essa fotografia?”. O presente, nesse caso, constitui-se como um espaço da passagem. Um espaço que ativa e é ativado por um passado, não o trazendo para esse presente, mas para fazer com que ocupe outro lugar. O filme é uma passagem, com o passado existindo no presente como uma eterna possibilidade de movimento, de reescritura. Nesse sentido, o documentário, para além de representar ou reproduzir o real, instaura um estar no mundo que demanda, sobretudo, uma invenção. Viver filmando significa viver criando.

Em uma conversa após a exibição do filme Daguerreótipos, documentário em que a diretora filma os comerciantes de sua própria rua, alguém fala sobre  o amor que Varda necessita estabelecer com aquele que filma. Podemos pensar o amor aqui pra muito além de posse. Amor como um sentimento que considera os conflitos e os problemas, mas que preserva um mistério a respeito do ser amado que demanda um afeto. O cinema como um gesto afetivo. Nesse caso, um gesto que parte de uma diretora afetada pelo mundo (pelos sonhos de seus personagens, pelo amor deles), que busca uma relação próxima, demarcada, porém não-distanciada com o outro que filma. A subjetividade manifesta-se, aqui, em sua forma partilhada, em relação.

A dimensão íntima que é presente nos filmes de Agnès não existe pelo fato da diretora fazer filmes que falem sobre si mesma, mas sim pelo fato dela assumir um lugar de fala. Uma fala que, diferentemente da “Voz de Deus” do documentário clássico, possui corpo, que é mulher, que tem história. Essa fala existe em relação a uma imagem, a um olhar, que existe também em relação ao mundo. Uma relação de passagem, que apreende o outro consciente de que existe uma vida antes e depois do filme. Uma vida outra que é filmada, mas que reconhece o sujeito que filma também como outro.

Os filmes de Agnès, sendo uma complexa teia de associações entre espaços e temporalidades, são constituídos a partir de uma subjetividade que sai da dicotomia entre eu e outro. Reconhecendo o outro como singularidade, Varda dá o privilégio para o cinema de ser um espaço que vê no outro, no fazer junto, a única possibilidade. Assumir a relação, portanto, é assumir a incompletude do mundo, é levar em conta o caráter de construção do presente. O que totaliza, o que classifica, sempre escapa, chega uma hora que difere. A diferença, aqui nesse caso, é a condição para o cinema, é sua principal potência.

 

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