A ALEGRIA – O RETORNO À ALEGORIA

Por Emerson Dias

Não por acaso A alegria (2010) se afirma enquanto gênero: um filme de super-heróis. Nessa fábula assistimos às aventuras diárias da jovem Luíza juntamente com seus amigos Leandro, Duda e Marcela na cruel jornada de tentar colorir e dar vida a um mundo inumano, medroso e apático.

A alegria, dirigido por Felipe Bragança e Marina Meliande, constrói um universo onde real e imaginário intercambiam-se cheios de cores e de poesia. Combinando elementos do cinema fantástico com traços alegóricos do cinema brasileiro moderno, o filme tem como cartão postal a cidade do Rio de Janeiro, entretanto, trata-se de uma narrativa que está para além das fronteiras cariocas.

Como bem observado por Ismail Xavier em seu livro Alegorias do subdesenvolvimento, certos filmes do cinema brasileiro moderno têm como ímpeto a totalização de dados períodos históricos, apropriando-se do uso de metáforas para representar o todo pela parte. Por esse caráter, esses filmes têm uma forte tendência à tessitura de teses acerca do mundo histórico.

Para um olhar desatento, A alegria nós traz apenas uma narrativa sobre a classe média carioca vislumbrada com festas em apartamentos, mas, em uma segunda leitura do filme, podemos identificar um forte olhar do autor sobre o universo contemporâneo –  através da alegoria.

Apresenta o seu caráter alegórico em sua forma-sentido através de dois fatores: 1) sua estrutura em capítulos que divide a história em atos, 2) pela mise-en-scène que preza pelo antinaturalíssimo dos personagens. Não se trata mais do universo pós-64 do cinema brasileiro moderno, marcado pela temática do sertão ou do povo oprimido. A alegria retoma a estrutura alegórica propondo uma leitura do universo peculiar das sociedades pós-industriais, uma abordagem destinada à pós-modernidade.

Simbolicamente, o período pós-moderno surge com o fim do holocausto. Muitos pensadores batizam-no como a Era dos Simulacros. Uma era em que as relações se dão entre os meios tecnológicos de comunicação, ou seja, através da simulação. A matéria e o espírito se esfumam em imagens e em dígitos num fluxo acelerado, ficando apenas o simulacro do mundo real. Outros pensadores intitulam o período como o fim da história, caracterizado pela recusa de teorias e narrativas longas sobre as coisas.

Retomando o sociólogo Zygmunt Bauman, a presença da pós-modernidade se instaura antes de tudo como um mal-estar – o nada, o vazio, a ausência de valores e de sentido para a vida – levando o sujeito a entregar-se ao presente e ao prazer, ao consumo e ao individualismo. A consciência pós-moderna nega a transformação do mundo através da ciência e da racionalidade, antes abraçada pelo mundo moderno. As grandes utopias do breve século XX, carregadas pela crença do caminhar histórico e dos mecanismos sociais, são pulverizadas na pós-modernidade, onde os indivíduos não conseguem enxergar nada além do vazio e das repetições.

A jovem Luíza é justamente o personagem que encarna a negação dessa consciência, fazendo um breve diagnóstico do período em seu primeiro monólogo: “Quando eu nasci me disseram que a história tinha acabado que a vida era só esperar, repetir e repetir, que tudo que surgisse no corpo era doença, teimosia ou imaginação. Tem dias que eu acho que o mundo acabou e a gente fica só assombrando, andando em círculos sem lembrança.”. A protagonista se apresenta como a grande heroína do grupo ultrajovem, aquela que tem como missão a transformação do mundo através da coragem e da alegria (!?).

Tendo como superpoder a imaginação, esses super-jovens, usando máscaras e cabelos pintados, combatem o medo e a covardia dos adultos que não mais acreditam numa reação. O protagonismo desses super-heróis se revela na sequência em que eles vão às ruas com faixas escritas – Se o mundo acabou, vá embora – combatendo policiais armados com pedaços de madeira e pedras. Nessa cena, a alegria retoma as utopias dos tempos modernos, militando agora contra o espectro pessimista da contemporaneidade. O filme, em outras palavras, acredita no potencial de transformação dessa juventude, ainda que de maneira idiossincrática e colorida. O anel utilizado pela menina de cabelo vermelho, a força da amizade e a imaginação até mesmo capaz de atravessar paredes são metáforas que se traduzem na crença da transformação do mundo através da esperança e da coletividade, forças há muito perdidas no universo pós-moderno marcado por pessimismo e fragmentação coletiva. Vemos montado através de inúmeras metáforas uma alegoria do otimismo.

Por esses elementos, A alegria termina por criar uma forte ruptura com os filmes que priorizam a construção realista e que tomam como aporte a temática da violência como Cidade de Deus, Tropa de elite, Ônibus 174. O filme abandona os clichês dos espaços urbanos e das favelas – já gastos pelo cinema brasileiro contemporâneo – para se apropriar do lirismo e da poesia. Transformando estética em ferramenta política.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *