HABEMUS PAPAM

BARTLEBY NO VATICANO

Por Guilherme Sarmiento

Semana passada, para distrair meu filho de quatro anos, resolvi ler para ele A divina Comédia, de Dante. Era uma versão adaptada por Seymor Ghwast e recentemente publicada pelo selo de quadrinhos da Companhia das Letras. Conforme avançava na narrativa, percebia que os desenhos primários de Ghwast pouco ou nada atenuavam as tenebrosas visões há mais de meio século imortalizadas pelo poeta italiano e, com o canto dos olhos, ia acompanhando as reações de Matias ao atravessar, junto comigo, um a um, os nove círculos do inferno.  Continuei minha pedagogia medieval com a certeza de que os castigos infligidos aos pecadores não eram maiores do que os sofridos por Tom ao perseguir Jerry, ou do Coiote ao Bip Bip. Com os olhos maravilhados, ele acompanhava a execução rigorosa daquela grande engrenagem construída em espiral, levando-nos, a cada uma de suas voltas,  mais para baixo ou  mais para cima da geografia terrestre,  deixando ao longo do caminho figuras de linguagem expressivas de nossa queda e redenção.

Mas o quê a Divina comédia, um dos grandes clássicos da literatura universal, tem a ver com Habemus papam, filme certamente menos pretensioso, dirigido no século XXI por Nani Moretti? Podemos considerar uma semelhança expressiva o fato de ambas as obras, com maior ou menor ênfase, utilizar determinados aspectos do imaginário e da prática católico cristã para realizar uma crítica à sociedade, mais especificamente, a um de suas instituições milenares: a igreja. Ambas o fazem através de um leve tom satírico e farsesco, caracterizando-se como “comédias”. Mas o fato de assistir ao filme alguns dias depois de folheado o quadrinho fez com que o sentido cômico pertencente a cada uma das obras adquirisse colorações distintas,  suas formas profanas opunham certos aspectos de comicidade muito particulares.

Quando Dante denominava de “comédia” seu conjunto de cem cantos a respeito do inferno, do purgatório e do céu fazia por um motivo mais grave do que aquele através do qual Moretti, mediante as convenções modernas sobre este mesmo gênero, assinalou sua vocação para o riso.  “Comédia”, para o escritor medieval, referia-se a certa aderência artística a formas consideradas menores pelos eruditos da época, denotava uma escolha formal pela linguagem vulgar, ou seja, o autor publicava um texto de viés metafísico em idioma italiano – até então só se escrevia obras literárias em latim. Apesar de em vários momentos manifestar sua crença em Deus e na  Igreja, profanou heróis, reis e autoridades eclesiásticas ao reduzir a saga destes “grandes homens”ao linguajar das ruas, fazendo-os purgar seus pecados submersos em termas de larva fervente ou de águas congeladas para, através da alegoria, “dar o exemplo”. Mesmo admitindo o alto grau de iconoclastia presente em Habemus papam, seria muito mais fácil, hoje, o diretor julgar moralmente suas personagens quando o próprio Sumo Pontífice admite o desvio de sacerdotes e, em função destes mesmos desvios, paga em moeda corrente sucessivas indenizações às vítimas da sacra pedofilia. Ao evitar a sátira alegórica, de fundo moral, Moretti almejou um riso bem mais difícil de se soltar.

Portanto, mesmo perfilando-se em uma longa tradição de sátira à igreja presente na literatura e no cinema italianos, o autor contemporâneo desviou-se dela para reconduzir o sentido de comicidade a um outro nível, nem acima nem abaixo dos homens, mas na altura de seus olhos assustados. Ao contrário de Dante, cujas visões encarnavam em efígies de emblemas, símbolos e alegorias, postulou, a partir da herança realista, o aparecimento de um assombro tão infernal quanto impalpável: o mal estar de se perder dentro da própria mente, enclausurando-se em espessuras cada vez mais densas de medo. O mundo atual desenvolveu um vocabulário enorme para denominar fobias, entretanto, a mais terrível delas, como apontou Roberto Bolaño numa passagem de “2666”, é a “fobofobia”, o medo de ter medo. Ela desencadeia dentro de nós a ruína da confiança no esquecimento, no se deixar levar pela vida, para o florescimento de uma sombra agigantada de nossos atos sobre a realidade que nos cerca. A retração, portanto, torna-se inevitável. Com ela, a negativa de agir, consequência do escrutínio constante do vazio.

Diante desta ficionalização de um homem inoculado pelo medo, não parece gratuito o fato de Habemus papam trazer o Cardeal Melville como protagonista, homônimo de Herman Melville, romancista americano responsável pela criação de um dos mais inquietantes personagens do século XIX – o escriturário Batleby. A partir de uma leitura muito particular do conto original,  o espanhol Enrique Vila-Matas diagnosticou uma patologia psíquica muito comum aos escritores do século XX: a “síndrome de Bartleby”.

“Todos nós conhecemos bartlebys, seres em que habita uma profunda negação do mundo. Emprestam seu nome do escrevente Bartleby, o copista de  um dos contos de Melville (…); que nunca bebe cerveja, nem chá, nem café como os outros; que jamais foi a parte alguma, pois vive no escritório, onde passa até mesmo os domingos; que nunca disse quem é,  nem de onde veio, nem se tem parentes neste mundo; que, quando lhe perguntam onde nasceu ou lhe encarregam de um trabalho ou lhe pedem que conte algo sobre si, responde sempre: “Preferia não o fazer”. (VILA-MATAS, 2008, p.9)

O Cardeal Melville, do filme de Moretti, portanto, está muito longe das circunvoluções dantescas, de sua proliferação de espacialidades e de personagens alegóricos, pois seu universo manifesta-se em sintonia com o esvaziamento de sentido, ou da inutilidade de encontrá-lo na natureza, nos desígnos divinos ou dentro de si mesmo.  Ao se negar a ser papa, afirmou sua crença neste buraco negro cuja substância fria e pegajosa anuncia uma ausência;  implodiu sua fé diante dos crentes e das autoridades eclesiásticas que o elegeram; implantou no seio da religiosidade as sementes do desencanto e, pode-se dizer, do ateísmo. Por menos Dante foi banido e exilado. Ao diretor atual, restou a consagração pública, apesar dos tímidos, quase inaudíveis, protestos do Vaticano.

Referências Bibliográficas

GHWAST, Seymor. A divina comédia de Dante. São Paulo: Quadrinhos na Cia., 2011.

VILA-MATAS, Enrique. Bartleby e companhia. São Paulo: Cosacnaify, 2008.

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