O ARTISTA

UMA VIAGEM NO TEMPO

Por Guilherme Sarmiento

Ainda no início da sessão do filme O artista, comecei a imaginar como os espectadores do século passado, especialmente aqueles que viveram os conturbados anos 20, receberiam o filme dirigido por Michel Hazanavicius. Tentei me colocar no lugar daquela platéia cujo olhar viu nascer um aparato industrial e espetacular, assim como aprendeu a soletrar o mundo através de imagens interpostas numa tela branca, gigantesca, tornando o cinema uma das artes mais populares de seu tempo. Sentado ali, após pagar 12 reais pelo ingresso,  diante de uma tela minúscula e numa sala vazia, refrigerada, esforçava-me para criar as condições interiores que me permitissem ser um espectador médio, acabado de sair da Belle Epoque, cujos vintens gastos no ingresso não chegavam ao preço do café com leite.  Será que ele se emocionaria, ou mesmo compreeenderia, a aparetemente simplória história de amor entre um decadente ator mudo e uma emergente atriz falante? Será que a palpitação acelerada daquelas cenas, forjadas na Era do Videoclip, tocaria o coração deste usuário de bondes e consumidor de laxantes a base de óleo de bacalhau? Tirei meu chapéu coco e o coloquei na cadeira ao lado, afagando minhas costeletas.

Não, eu estava partindo de um exercício de abstração equivocado. Assistir a O artista como um filme mudo, seria me deixar iludir pelos artifícios, muito bem construídos estilística e narrativamente, diga-se de passagem, de um fingimento direcionado ao homem do século XXI. Para ele convergem mais de cem anos de experiência no trato com a linguagem visual, embora a excelência da reconstrução cenográfica não deixe as anacronias saltarem diante de olhos maravilhados. Isto é especialmente gritante na exploração contínua da profundidade de campo realizada pela fotografia, algo inexplorado na década de 1920 e 1930, e que só encontrou sua expressão máxima em Cidadão Kane, de Orson Welles, dez anos depois. Também se percebe no filme uma afinidade insuspeita por obras bem posteriores como, por exemplo, Crepúsculo dos deuses, de Billy Wilder, no qual a metalinguagem atingiu o seu auge expressivo. Certamente o público da década de 1920 teria grandes dificuldades de acompanhar as bruscas inversões de perspectiva exigidas logo no início da película e abandonaria a sala, em meio a estrondosas vaias, ao se perder nestes frívolos jogos de representação.  Hazanavicius cento e dez anos antes teria feito um filme revolucionário e, possivelmente, incompreendido. Hoje, realizou um inofensivo pastiche, angariando fãs e prêmios mundo afora.

Interessante percebermos que, desde a década de 1990, os diretores americanos, assim como os técnicos, buscam de forma obsessiva reproduzir visualmente texturas fotográficas de outras épocas, revestindo o substrato audiovisual de uma roupagem divisível dentre outros elementos cenográficos,  um signo dentre outros signos temporais.  Talvez esta seja uma das consequências do hiperrealismo, um modelo de expressão consciente da qualidade enunciativa da imagem em si.  A visualidade cinematográfica aqui, portanto, é tão sólida que pode ser restaurada como um afresco pintado numa grande e deteriorada cúpula renascentista. Munido de material sensível e recursos digitais, o fotógrafo simula as filtragens realizadas pela tecnologia de outrora, tornando visíveis as camadas do passado e assumindo o estilo como constitutivo da realidade, ou melhor, o estilo como o adorno de uma realidade hiperbólica.  Penso aqui em Tarantino, com o seu Jackie Brown, ou os irmãos Coen, com O homem que não estava lá, obras para as quais o visual também desencarna, deixando atrás de si a nostalgia de sua película fantasmagórica.

Assim é também O artista. Uma obra que vive desta nostalgia através de um brusco deslocamento no trato da visualidade. Está longe de ser um filme mudo e, por isto mesmo, não leva nosso senso de espectatorialidade até os confins de uma época iniciática. Sua mudez interessa como um fantasma galhofeiro, barroco, desviado de um realismo ainda tateante para a ambiência de uma hiperrealidade saturada pelo estilo, exaurida pelos efeitos digitais e cada vez mais dependente da tecnologia. Pela codificação de uma maneira de fazer cinema, coloca brevemente o espectador atual diante da estranheza do porvir, pois, ao reconhecer o passado como linguagem, anuncia a este mesmo espectador a frontalidade de uma miragem instantânea, cediça, dos dias atuais. Seu maior mérito é criar a ilusão de que viajamos no tempo, quando, na realidade, estancamos diante da captação do movimento e nos esquecemos onde realmente estamos. Vivemos nestas lacunas efêmeras dentro das quais todas as épocas se tocam.

Ao fim do filme, quando extendi minha mão para pegar meu chapéu coco, descobri que a cadeira estava vazia. Minhas costeletas tinham se tornado uma barba indomada debaixo do queixo e o cinema Guarany voltou a ser o que era: o Espaço Cultural Unibanco, com suas quatro pequenas salas dispostas em dois níveis. A antiga sede do jornal A tarde vai se tornar, para acomodar os turistas da copa, Hotel Fasano.  Diante de mim, a estátua de Castro Alves olha o horizonte e proclama: nunca houve condores na Bahia.

 

 

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