VIDA LOUCA – A VINGANÇA DE UM MOTOBOY

O NAIF NO CINEMA

Por Guilherme Sarmiento

Um dia destes eu e Juliana hospedamos em nossa casa Adriana Dantas, professora de História do Brasil da UEFS – Universidade Estadual de Feira de Santana. Eu não a conhecia pessoalmente e, como é comum nestes contatos iniciais, conversamos rapidamente sobre nossa identidade profissional e, após revelar minha ligação com o cinema, ela perguntou se eu já tinha visto A vingança de um motoboy. Fiquei surpreso ao saber que Feira de Santana, há pouco tempo, havia realizado um longa-metragem e de que o filme era vendido por camelôs da região, atestando o sucesso popular da excêntrica iniciativa. Cinco dias depois ela deixou o DVD na portaria de meu condomínio. Foi assim que entrei em contato com a produção dirigida por Alvenir Mamona e Chico Oliveira.

Sabemos que a Bahia é um grande celeiro de artistas populares, reconhecidos por marchants, negociadores e estudiosos de arte simplesmente como “artistas naifs”.  A grosso modo, o universo naif está indissoluvelmente ligado às artes plásticas, em especial à pintura e à escultura, pois nele aparece certos padrões de figuração e composição de imagens reconhecidos como “primitivos”, provindos de uma gestualidade não adestrada pela “norma culta”. Ninguém chama um escritor ou um poeta de naif, talvez pelo fato da escrita ser mais um ato do que propriamente um “gesto”, e, por se concentrar na elaboração de uma “atividade”, está sujeita de forma muito mais inflexível às leis gramaticais. Mas este tipo de dificuldade terminológica nunca impediu a ninguém, de qualquer classe ou formação, escrever poesias, e os livretos de cordéis espalhados pelas feiras baianas comprovam a vitalidade de uma arte cujas regras observam outros valores de feitura e apreciação.

Assistindo Vida louca – a vingança de um motoboy comecei imediatamente a refletir sobre estas questões, só que a partir do cinema. Seria conveniente chamar uma obra cinematográfica de “naif”? E mediante a quais parâmetros audiovisuais poderíamos identificar esta “ingenuidade das normas” presente nestes filmes?  Não estaria este termo colaborando mais para projetar os preconceitos de um professor universitário, pós graduado em letras, formado pela literatura e pela cinematografia clássica e experimental, do que alimentando a curiosidade intelectual sobre esta produção fílmica específica? Talvez sim. Mas o fato é que algumas reações ao filme na internet colaboraram para ampliar os efeitos da informalidade narrativa de maneira transversal, produzindo afirmações muito próximas àquelas esboçadas por mim.

Lançado no dia 27 de dezembro de 2011, no Centro de Cultura Maestro Miro, em Feira de Santana, A vingança de um Motoboy foi citado no Blog de Cristóvam Aguiar como um filme que utiliza “pessoas comuns como atores, sem recursos técnicos e financeiros, sem nenhuma experiência em cinema”.http://cristovamaguiar2.blogspot.com.br/2012/03/vida-louca-vinganca-de-um-motoboy-um.html Segundo as palavras do blogueiro, esta percepção contínua de uma “falta”, presente na execução fílmica, ajudou a tornar a obra muito mais autêntica e mais reflexiva da realidade local. Estas apreciações ligeiras, feitas um dia após o lançamento, apontam alguns princípios da identidade do cinema naif tal como o entendemos: fora do mercado e fora da academia. Sem recursos e sem know-how. Eis as bases destas construções marginais a quaisquer regulagens econômicas e estéticas.

Se na pintura naif o real é desfigurado por um senso pictórico que não obedece ao sentido de proporção e à construção em perspectiva, fugindo, com isto, do realismo academicista,  no cinema a realidade se constitui como um índice incontornável de sua elaboração imagética – fugir dela seria recair no indizível “trash”. O filme “trash”elabora um discurso hiperbólico da precariedade a partir de gêneros como o fantástico, o terror e a ficção científica e, muitas vezes, sua poética contrapõe-se conscientemente ao ascetismo sentimental de um bom gosto, digamos assim, pequeno burguês. O naif no cinema adequa-se ao real, denunciando seu estatuto de representação através de idiossincrasias estilísticas motivadas pelo amadorismo, a prática de um conhecimento audiovisual espontâneo e adestrado por procedimentos já codificados pela espectatorialidade cinematográfica. A vingança de um Motoboy, como mesmo já anuncia a capa do DVD, é um “filme de vingança”.

Por seus aspectos fotográficos, especialmente aqueles presentes numa captação digital, o filme naif, ao contrário da pintura, possui cores esmaecidas pela intensa solaridade – no caso, nordestina – , deixando-se ofuscar pela luz e, consequentemente, tornando a profundidade de campo um domínio saturado pelo grão ou escondido pela sombra. Aqui, a perspectiva do enquadramento constrói-se de forma casual, em função de deslocamentos muito mais favoráveis a uma elaboração horizontal de mise-en-scène. Neste sentido, o fato do personagem principal ser um motoboy faz toda a diferença. Através de seus deslocamentos, o panorama adequa-se perfeitamente à narrativa e, ao mesmo tempo, revela o supremo gozo pelo movimento demonstrado desde às origens do cinema. Naif, para as artes plásticas, é cor viva; para o cinema, ação contínua.

Assistir a A vingança de um motoboy exige um sentido de fruição estética e posicionamento crítico diferenciados, que perceba este registro integrado ao cotidiano. Independentemente do valor que se atribua à iniciativa, sua beleza está em refletir a plena vivência da informalidade: a informalidade do trabalho de motoboy, que leva e trás passageiros pelo recôncavo e adjacências sem licença ou autorização; informalidade da linguagem fílmica, que se espraia sobre a superfície digital sem os filtros de uma alfabetização audiovisual; a informalidade da distribuição, que faz o filme chegar às ruas através da ação organizada da pirataria. Estão aí as bases do cinema naif.  Uma cadeia  produtiva de imagens repentinas, que, à medida que evoluem, abrem espaço no intervalo das leis.  E nestes desvios, tornam o cinema uma experiência compartilhada, uma fala como outra qualquer.

16 thoughts on “VIDA LOUCA – A VINGANÇA DE UM MOTOBOY

  1. Adriana Dantas

    Parabéns Guilherme,
    Excelente crítica de um filme que eu achava ser “trash” kkk. Agora aprendi que, na verdade, se trata de um filme naif, adorei saber mais sobre essa experiência compartilhada!

  2. andre gomes

    Naiff?
    onde isso é Naiff?
    isso é desconhecimento completo da linguagem…
    desde os creditos iniciais ja se revela uma monotonia traduzida em audiovisual.

  3. ketyara

    esse filme veio pra acabar com a imagem de feira de santana, que vergonha!! a minha cidadizinha ficou conhecido como a retardada, pq esse negocio que chamam de “filme” é horrivel, mas mesmo ele sendo idiota ele aborda assuntos da realidade e isso ate é legal, mas o resto é uma porcaria, e eu acho que esse filme não é naif, mas sim RUIM… kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk idiota de mais.

  4. Eduardo josé de Oliveira Lima

    OLÁ
    Meu nome e Eduardo josé, moro em são paulo e meus pais viveram em feira de santana por mais de 20 anos, e gostaria de assistir esse filme.
    Existe algun site link pra fazer o download ?

    Att

    Ejol

    1. guilhermesarmiento Post author

      Oi, Eduardo, acho que o filme não está disponível para download. Teria de entrar em contato com um dos diretores ou conseguir uma cópia com algum parente ou conhecido de Feira de Santana. Abs

    2. que vergonha desse filme

      eu acho que esse link da para você assistir não tenho certeza mais toma ai. a eu recomendaria você não assistir kkkkkk vai perde seu tempo experiência própria.kkk coitada de Feira :-(

      filmow.com/vida-louca-a-vinganca-de-um-moto-boy-t53974/

  5. Magaly Sanches

    Guilherme Sarmiento só pra lembrar UEFS significa Universidade ESTADUAL de Feira de Santana e não federal como vc mencionou no primeiro período do seu texto.

  6. fsa

    esse filme estragou a image de Feira de Santana esse filme chato que tem mais musica do q tudo os xing ling do feiraguai deram risadas da gente

  7. Pingback: Mototaxistas feirenses: o cotidiano de quem conhece a cidade sobre duas rodas - Feirenses - Feira de Santana aprofundada

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