CAVALO DE TURIM

NIETZSCHE, O PROFETA DO APOCALIPSE

Por Guilherme Sarmiento

Há algumas semanas atrás, Carolina Dieckman saiu da livraria com um volume de Nietzsche debaixo do braço. Posicionou o exemplar de maneira a deixar o nome do filósofo bem nítido, junto de suas axilas perfumadas, num ângulo que permitisse aos paparazzo veicularem a imagem de uma atriz cuja beleza física era apenas um acessório para o adorno do espírito. Apesar de bela, filosofava. Mas o estreitamento do pensador ao seu seio palpitante denotava algo mais. Diante do escândalo envolvendo o vazamento de suas fotos íntimas na internet, ela procurava se apresentar sintonizada a um pensamento positivo e explorava simbolicamente, midiaticamente, a vulgarização filosófica dos valores estruturantes do individualismo tal qual o conhecemos hoje.  Pois os aforismos nietzscheanos, caso estejam descontextualizados, podem ser absorvidos como gotas de sabedoria pop, guarnecendo as prateleiras das lojas de conveniência com mensagens edificantes e seduzindo celebridades com exortações, muitas vezes raivosas, contra tudo o que lhes tolha a liberdade individual, lhes enfraqueça o poder de decisão e impeça o brilho fulgurante de suas personalidades.  Estamos diante do anúncio do super-homem e, ao tempo que somos afrontados por sua rebeldia exemplar, algo na escrita nos impulsiona em direção ao que poderíamos um dia nos tornar caso rompêssemos com a história, a religião e a própria filosofia.

No Cavalo de Turim, Bela Tarr coloca em questão as bases desta filosofia hiperhumanista, cujos resultados, conforme seus usos e abusos, podem se tornar desastrosos.  De forma um tanto insidiosa, coloca Nietzsche contra o próprio Nietzsche.  Através de uma voz over, apresentando a consciência de um narrador explícito, embora invisível, conta um trecho da biografia do filósofo tendo como fundo a neutralidade angustiante de uma tela negra: doente, fragilizado e prestes a ser tomado pela demência, o autor de Assim falava Zaratustra é descrito realizando uma ação, no mínimo, terrível para quem pensou o homem como potência. Prostra-se pateticamente diante de um cavalo fustigado por um cocheiro, impedindo, com seu corpo suplicante, a continuidade do açoite. Aquele que preconizou a chegada de um novo homem, grita no meio da rua, entre lágrimas, e o pior: em defesa de um ser irracional, uma besta servil e inutilizada.  Em nenhum momento “vemos” a cena, porém sua impressão permanece como um anátema que futuramente selará o destino de quem castigou tão irascivelmente o animal. As imagens posteriores confirmam o agouro funesto ao invés de celebrar o encontro do homem com a liberdade.

Nietzsche torna-se, então, o profeta do apocalipse. Pois, com sua queda interdita diante do cavalo, assinala a saída do cocheiro e seu animal em direção a um mundo cujo contorno vai sendo aos poucos degradado pela raspagem contínua do tempo e do vento. Num dos planos mais belos e assustadores da cinematografia recente, vemos o esforço imenso do pangaré ao atravessar a parede de ar selvagem, enquanto, acima de seu corpo esquálido e sujo, paira a cabeça oscilante de seu algoz: um velho descabelado, desorientado pela precipitação de nuvens de poeira e folhas secas, talvez o último dos cavaleiros a anunciar a chegada da morte, da fome e da peste. Anunciador e ao mesmo tempo sofredor dos males para o qual foi talhado, pois, se não o fosse, seria ele mesmo arrancado do chão e levado pela intempérie. Ainda lhe resta algumas paredes sólidas onde possa se proteger, algumas peças de roupas para vestir, algumas batatas para comer e os cuidados de uma filha única para minimizar a solidão.  Mas até quando?

Um dos grandes trunfos narrativos de Cavalo de Turim está em organizar os espaços de forma contrastante: se temos um mundo em perpétuo e intempestivo movimento do lado de fora, atrás da porta encontramos o silêncio mitigado, austero e, por vezes angustiante, do claustro onde pai e filha vivem seu mistério. Mas estas fricções opositivas entre a inércia e o movimento, o fora e o dentro, estão longe de criar alguma luminescência dramática. O vestir, o comer, o contemplar, toda a ritualística que deveria se aconchegar a um sentido de plenitude humana, contrastando com a fuga do tempo, deixa-se escoar como o fundo de uma ampulheta, tornando qualquer sólido um pouso largo para futuras erosões, talvez tardias, porém definitivas. Como manter intacta a individualidade se a natureza toda se move, se choca, e a paisagem muda a cada novo minuto? O núcleo duro onde se guarda o espírito é apenas o molde de um fóssil que, na passagem dos cataclismos, se deixa enterrar pelo entulho.  Tarr parece dizer que no momento em que Nietzsche profetiza o super-homem demarca, na verdade, o declínio do humanismo: esta primavera da vontade e da potência humanas nasce e morre com o filósofo.

Talvez por isto, de forma um tanto irônica, o cavalo seja a única personagem que esboce algum tipo de vontade dentro do filme.  Apesar de domesticado pela força do cabresto, há um grau de resistência que permite o desenho de uma personalidade tenaz no interior da besta : nega-se a andar, nega-se a se alimentar, e mantem intacta na tempestade de seu ser irracional um pouco da rebeldia daquele que enlouquecera em seu nome. O filme, então, torna-se um dos maiores pesadelos que o profeta filósofo poderia ter tido nos dez anos em que passou enfermo.

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