UM DIA NA RAMPA

A CESTA CÂMERA

Por Diego Jesus

Um dia na Rampa (1960), de Luiz Paulino dos Santos, concentra-se num espaço geográfico da cidade de Salvador e tenta explicá-lo a partir das relações sociais existentes nele. Como o subir e descer da Rampa do Mercado Modelo e sua reverberação na dinâmica do comércio que tem sua rota traçada na Baía de Todos os Santos. Os homens, suas idas e vindas, seu relacionamento místico com o mar e as peculiaridades em suas relações profissionais e interpessoais compõem a linha central do filme.

Como sinaliza Walter Benjamin, a metáfora da cidade é possibilitada pela passagem dos corpos naquele local específico. Os homens que em sua labuta diária movimentam o comércio, ao mesmo tempo, transformam-se, estando em constante movimento, na repetição do subir e descer, “através da passagem das mercadorias, passagens do desejo, passagens do tempo”.

O que poderia ser mais uma tentativa de construção da identidade baiana a partir de seus pontos turísticos, resumindo a cultura aos seus aspectos geográficos e comportamentais, torna-se com Um Dia na Rampa a representação de um indivíduo que está ali anterior à sua classe, às hierarquias sociais. A edificação de um estereótipo, de um lugar de fala específico, comumente imposto pelos sufocamentos da práxis de apreensão do outro, dá espaço à necessidade de se conhecer, anteriormente, o terreno. Antes das feiras organizadas separadamente, antes das preferências e imposições sociais de função e consumo, do chegar ou partir de trem, carro ou carroça, existe algo que entrelaça cada uma daquelas pessoas à própria necessidade de serem eternizadas pelo cinema.

A realização cinematográfica está para além de uma composição observativa pautada na subjetividade do sujeito que concentra a voz às imagens do “real” e às reconstituições do que a palavra não poderia expressar. Ela necessita da relação e só esta o fará respirar através de enquadramentos cuidadosamente “descobertos” e repletos de beleza plástica, fazendo com que a montagem possa funcionar atrativamente, metaforicamente.

E por falar em metáfora, é nela que o filme existe e é a partir dela que o filme termina. Subir a rampa, descê-la… Esse sobe e desce aparentemente ingênuo, nesse encher e esvaziar de sacos, esse trânsito entre “barcos de comércio”, “barcos de amor”, “barcos culturais”, “barcos identitários”, nada mais é que a conseqüência mais próxima no exercício da relação com os espaços, com os indivíduos, dos quais também inclui a figura do realizador (cineasta). Como um homem que ao fim do filme observa o mar e tem uma cesta nas mãos, o cineasta o captura com uma cesta própria, gênesis do seu fazer: a cesta-câmera.

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