CASTELO/APIPUCOS

DOIS CURTAS DE JOAQUIM PEDRO DE ANDRADE

 Por Guilherme Sarmiento

 

Cardiovitol

O ano, por volta de 1952, quando o escritor modernista já recebia injeções de cardiovitol na veia e arrastava os pés inchados pelos cômodos da rua Ricardo Batista, 18, quinto andar/SP.  O dia: 15 de agosto. A hora: por volta das duas horas da tarde, enquanto se digeria o porco a pururuca servido no almoço. Os segundos: entre um trago e outro de um licor de jenipapo, ou entre as baforadas de um charuto cubano. Os décimos de segundo: na brusca névoa levantada pelos espíritos da bebida, nos desenhos evocados pela fumaça. Talvez pressionado pela compactação do tempo, pela certeza da morte, pelo fio da vida. Antônio Cândido olhou para o adoentado amigo Oswald de Andrade, o anfitrião, e cobrou uma autobiografia. “Uma literatura só adquire maioridade com memórias, cartas e documentos pessoais”, disse, cercado pelos quadros e livros que o escritor mantinha em sua biblioteca particular.

 

Acerto de contas

  Será que Joaquim Pedro de Andrade imaginava esta pitoresca cena quando dirigiu seus primeiros curtas O poeta do Castelo e o Mestre de Apipucos? Nos filmes de estréia do cinemanovista reverbera a voz de Antônio Cândido, ou, pelo menos, a intuição própria de que modernismo e autobiografia casavam perfeitamente bem.

No momento em que finalizava os dois filmes (1959), os dez anos da morte de Mário de Andrade (1955) já haviam sido comemorados. Oswald de Andrade tinha morrido cinco anos antes (1954) e deixado a primeira parte de suas memórias publicadas. O modernismo estava fechando um ciclo de existência e urgia documentar aquelas vozes, aqueles rostos individuais, sobreviventes: Manuel Bandeira e Gilberto Freyre. Nestas duas peças importantes para se constatar a coerência com que o diretor carioca construiu sua obra, escapa também um olhar engajado na transposição para as telas de questões já assimiladas pela literatura brasileira desde a Semana de 22. Chegara a hora do cinema brasileiro acertar as contas com a literatura moderna e seus criadores, seus pensadores.

 

Gilberto Mendonça Teles

 Ligo para Gilberto Mendonça Teles. Ele não está. Sua esposa atende, anota meu telefone.  Dez minutos depois ele toca. Reconheço a voz do poeta , mas ele não reconhece a minha. Lembro-lhe de que fui seu aluno. Em uma de suas aulas sobre Teoria Literária, cometi a ousadia de lhe entregar uma caricatura. Desenhei-o andando e com os dedos em riste. Gilberto chegava em sala desprendendo um leve odor de livros antigos. Um dia, tive a oportunidade de conhecer seu apartamento e entendi o porquê: todos os cômodos da sua casa eram forrados até o teto com mais de dez mil volumes e tomos envelhecidos pelo tempo. Tudo recendia a folhas de outono.

Peço sua ajuda para entender a relação dos modernistas com o cinema. A sétima arte parecia não haver arrebatado nenhum de seus grandes expoentes, os membros do Grupo dos Cinco, o que eu considerava surpreendente, pois na década de 20 o cinematógrafo aderia a todo movimento de vanguarda – o dadaísmo, o surrealismo, o experimentalismo – que surgia na Europa. Mário de Andrade chegou a utilizá-lo em suas pesquisas folclóricas, entretanto, não se pode considerar como suas intenções primeiras a criação de uma obra de valor estético, mas a produção de documentos etnográficos, registros de uma viagem pelo Brasil profundo.

Apesar de grande conhecedor do modernismo, Gilberto confessa nunca haver estudado o movimento por esta ótica.  Cita Humberto Mauro, de passagem. Observa, entretanto, o total desinteresse de Oswald pelas questões “modernas” no início da carreira. Em 1912, após a sua primeira ida a Europa, voltou ao Brasil sem ter uma noção muito clara do futurismo. Lembra-me da relação que aqueles intelectuais mantinham com a tradição barroca e colonial. Ao final, orienta-me a ler o verbete “Cinema e Literatura” contido na Enciclopédia da Literatura Brasileira, de Afrânio Coutinho.

 

Alcovas e bibliotecas

Narrados em primeira pessoa, mostrando um dia na vida de duas das maiores personalidades brasileiras vivas de então ( Manuel Bandeira e Gilberto Freyre ), os curtas O poeta do castelo e O mestre de Apipucos radicalizam pela imagem e pelo som os recursos confessionais legados pelo Modernismo. Bandeira e Freyre emprestam seu corpo e suas vozes para a farsa da imortalidade. Encontramos nossos deuses humanos e, por isto mesmo, admiráveis. Joaquim Pedro chegou o mais longe que pôde na intimidade de suas personagens, sacralizando-as em espaços que emocionam pelo banal. Por serem escritores, se os tivesse flagrado na alcova não os captaria em momento mais amoroso do que em suas bibliotecas…

 

Idéia fixa

“Uma literatura só adquire maioridade com memórias, cartas e documentos pessoais”.

 

Separações

Antes de entregar as cópias em DVD dos curtas, Daniel Caetano mostrou-me um trecho de entrevista onde Joaquim Pedro de Andrade revelava que, por motivos éticos, resolveu lançar O poeta do Castelo e O mestre de Apipucos separados. Assistindo-se aos filmes seguidamente, entende-se a preocupação do cineasta. Se fossem exibidos juntos realçariam pela ironia a vida abastada e artificial que Freyre exibiu diante das câmeras. Haveria um choque de personalidades cujos efeitos negativos seriam sentidos especialmente pelo sociólogo pernambucano. O ímpeto com que interpretou seu cotidiano de homem casado, cercado de serviçais prontos a satisfazê-lo, acabaria empastelado pela solidão e frugalidade de uma vida feita nos gestos mínimos, naturais, com que Bandeira construiu sua persona cinematográfica.

O mestre de Apipucos acaba bruscamente, sem uma finalização convincente. Gilberto Freyre finge ler um livro de poesias coligidas de Manuel Bandeira, o que não deixa dúvida quanto às intenções iniciais de Joaquim Pedro de Andrade. O final inconcluso parece ser o ponto vazio em que os dois episódios se encaixariam para compor um fluxo narrativo que levaria uma película a outra, uma personalidade a outra. Cortando-o, o diretor salvou a todos, inclusive a ele mesmo. O peso da experiência malograda soltou-se para que a mais bela experiência (auto)biográfica de nossa cinematografia viesse à tona sozinha. O poeta do Castelo, então, imortalizou-se.

 

Confissões modernas

 Não há nada mais modernista do que uma confissão triste ou infame. Seria possível a um escritor romântico, no Brasil, descrever-se secamente tocando uma punheta? A um parnasiano, rir melancolicamente de si mesmo ao saber que, no momento em que publicassem suas memórias, todos os seus leitores saberiam que suas hemorróidas obrigavam-no a escrevê-las de pé, ou agachado sobre uma efusão de ervas amazônicas?   Com a Semana de 22, a literatura brasileira amadureceu a ponto de assumir suas cirroses publicamente. Talvez por isso Lima Barreto seja considerado “pré”-modernista.

 

Jorge Veras

  Ligo para Jorge Veras. Ele tinha sido creditado como câmera dos dois curtas. Queria saber dele qual dos filmes foi rodado primeiro. Tinha a esperança que a fragilidade narrativa de O mestre de Apipucos fosse decorrente da inexperiência cinematográfica de Joaquim Pedro, que o tinha filmado primeiro. Ao dar prosseguimento ao projeto com a vida de Manuel Bandeira pôde aprimorar a forma mais adequada para a criação de uma (auto)biografia cinematográfica.

Jorge Veras atende meio desconfiado. Na época que filmou os dois curtas começava a carreira profissional e não tinha intimidade com o diretor carioca. Foi um trabalho pago. Lembra, sobretudo, de Domingos de Oliveira, cujas incertezas com relação ao futuro profissional o haviam jogado no set de filmagem de O poeta do Castelo, “o primeiro filme feito por Joaquim Pedro de Andrade”. O mestre de Apipucos foi filmado na sequência.  Mesmo depois de haver respondido minha pergunta – e quebrado minhas expectativas –, continuo conversando com ele sobre cinema. Atualmente, Veras trabalha alugando câmeras, chassis e material de filmagem. Está indignado com o governo por inviabilizar a entrada de equipamento de ponta no Brasil – lentes, sobretudo. Os impostos, muito altos.

 

Cinema Novo

 O que levou Freyre, um homem extremamente vaidoso, a se entregar a um papel histriônico de si mesmo? Vê-lo ajeitando o topete enquanto caminha por seu jardim particular, passeando sobre as areias da praia da Boa Viagem, mostrando as pernas bronzeadas pelo sol, burilando a barriga como quem afaga um bichinho prestes a ser saciado, são poses que provocam no espectador tremores de riso. Bandeira expôs-se com a mesma fagulha autodepreciativa, entretanto, as intenções de O poeta do Castelo concretizam-se. Não creio que isto foi unicamente devido ao fato do criador de Passárgada ser “padrinho” de Joaquim Pedro de Andrade, mas, sobretudo, pelo encontro de uma fórmula cinematográfica perfeitamente adequada à expressividade de um poeta como Manuel Bandeira.

(Mas não será justamente na “pose” enquadrada com certo distanciamento, na tentativa de contenção da exuberância de Freyre em um espaço íntimo que reside a peculiaridade de O mestre de Apipucos?)

Independente da qualidade de um filme em relação ao outro, ambos os curtas fornecem o testemunho de que o modernismo, de corpo e alma, deixava-se absorver pelo cinema naquele memorável ano de 1959. Se a literatura amadureceu a ponto de proliferar em memórias, cartas e documentos pessoais, o cinema brasileiro agora se apropriava de suas memórias vivas para se tornar novo. E assim foi.

 

 

 

 

 

           

 

 

 

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