ENTREVISTA COM LEON SAMPAIO

Hoje vamos continuar a série de entrevistas com os realizadores baianos apresentando uma “prata da casa”: Leon Sampaio, aluno do curso de cinema da UFRB. Seu curta O cadeado, sobre um professor que encontra a escola fechada e é impedido de dar aula, vem, sem grandes alardes, ganhando prêmios nos festivais e levando a produção da UFRB para fora de seus muros. Numa época onde a palavra alienação é constantemente usada para qualificar a juventude, Leon busca uma nova maneira de se fazer “filme político” no Brasil, dando uma cara nova às mazelas antigas de nossa realidade.

 

Entrevista por  Camila Mota

 

Cinecachoeira: De que modo a experiência em Cuba influenciou seu modo de pensar e realizar filmes?

Leon Sampaio: Cuba foi um ponto de partida, a experiência de estudar lá foi fundamental não só para entender o cinema, mas de como fazer. Foi também um amadurecimento do meu pensamento acerca do mundo. A experiência lá foi muito rica: os encontros, os debates, a compreensão política da América Latina. Eu fui muito cedo pra escola de cinema de Cuba, e tive uma  experiência rápida, mas foi fundamental pra poder abrir a cabeça, abrir as janelas. As referências, o lugar do cinema político – que é uma pauta minha, uma pauta que está na maioria das minhas obras e no meu pensamento – vem daí, dessa influência do cinema político, desses encontros, desses diálogos que eu tive lá na Escola de Cinema de Cuba.

Cinecachoeira: Você ficou quanto tempo lá?

Leon: Eu fiquei um mês. Foi muito rápido, eu tinha 17 anos. Foi assim, uma experiência muito importante, uma marca na minha vida.

Cinecachoeira: Algumas pessoas acham que O cadeado, ao mostrar deficientes na tela, acaba extrapolando os limites éticos.  O que você acha desta colocação e de que forma você vê a ética no cinema?

Leon: Tem um termo do Fernando Birri, que é professor lá da escola de Cuba, e é um dos grandes pensadores latino-americanos, onde ele pega aquela expressão do Glauber, a Estética do Sonho, e brinca com a coisa de, retirando uma letra, transformá-la em “Ética do Sonho”. Então, é daí a minha tendência de pensamento. Ao pensar em ética no cinema, vejo-a no lugar de justiça, no lugar de representação, e essa é minha preocupação em compor, em encenar, o lugar do meu olhar, da representação. Penso sobre tudo isso e pondero até onde fere o direito do outro, até onde eu tô desrespeitando em termos de relações, e eu acho que O cadeado, pelo contrário, não desrespeita essas pessoas. Exibindo em festivais e mostras, eu recebi muitas respostas, pessoas, críticos, gente que me disse o contrário, que o filme não fere nem desrespeita aqueles alunos em nenhum momento, e nem os trata com pena, não os coloca no lugar de subjugado. Claro que tem o traço da deficiência, mas é exatamente essa deficiência que se torna uma potência e é superada no filme. Tipo esse martelo que quebra o cadeado: só é possível graças também a uma aluna deficiente e a outros que estão ali. Essa aula só é possível graças a ela. Então, pelo contrário, eu acho que em nenhum momento o filme fere ou é um filme que apresenta algo que desrespeita aquele traço que eles têm, que é o da deficiência

Cinecachoeira: Você poderia falar um pouco sobre o longa que está escrevendo?

Leon: O nome do longa é Arame farpado, um filme que vem na perspectiva da inversão do olhar, nessa questão de classe, eu me colocando como sujeito, o lugar da auto representação, em certo sentido, o lugar de classe média, dessa juventude de classe média, que vive de alguma forma alienada a temas políticos, a discussões de conteúdo nacional. O filme narra a história de uma repórter que investiga casos de trabalho escravo. Então trata desse universo, só que sendo este um lugar critico, o filme aborda as relações de trabalho como um todo, não só esse lugar óbvio e direcionado, que é o do trabalho escravo nas fazendas, no interior do Brasil, mas também a exploração nos centros urbanos, do profissional liberal. Minha critica é nessa perspectiva, o modelo de produção que nos faz refém.

Cinecachoeira: Como é pra você fazer filmes na cidade da Cachoeira?

Leon: É muito bom, Cachoeira tem uma coisa muito positiva: por ser uma cidade pequena, todo mundo se encontra mais fácil, as coisas estão mais propicias a acontecer, só que a gente tem alguns problemas, como os de logística. Problemas pra encontrar atores profissionais, conseguir dinheiro… Para fazer uma direção de arte mais elaborada, temos de ir pra Salvador correr atrás. Ou seja, por um lado tem fatores que contribuem, que é essa coisa da proximidade, da gente ter mais diálogo, de ter equipamento, laboratórios, só que existem fatores negativos em relação à produção e à dramaturgia.

Cinecachoeira: Quais suas influências estéticas?

Leon: Eu sou cinéfilo de formação, então eu tenho uma influência muito forte do Neorealismo, do Cinema Novo, e agora do cinema contemporâneo, o cinema iraniano, do cinema argentino, que trabalha com o discurso indireto, Pablo Tapero, Lucrécia Martel, alguns diretores que me chamam bastante atenção. O meu lugar é mais do cinema político, de Gutierrez Alea, Pablo Larraín, que são diretores de minha preferência. Admiro Tarkovsky, Bela Tarr, mas a proposição que eu tenho de cinema não caminha muito por ai. O Arame farpado tem referências muito próximas do cinema contemporâneo, que é o cinema de Pablo Larraín, de Nuri Bilge Ceylan, que fez Anatolia, Três macacos, e o Sergei Loznitsa… Essas são algumas referências. Claro que tem os clássicos, o Profissão Repórter, do Antonioni, que é uma grande referência pro Arame farpado, mas nesse momento eu tenho visto mesmo muito cinema romeno. Um cinema mais barato, que tem uma forte carga de dramaturgia, o chamado cinema puro, mais basilar, sem muito artifício de montagem, sem muito artifício técnico, me interessa bastante e eu gosto muito.

Cinecachoeira: Quais as expectativas que você tem enquanto realizador no cenário em expansão do Cinema Baiano?

Leon: Eu acho que a Bahia viveu e ainda vive um momento de decadência, mas nos últimos meses, anos, esta começando a brotar novas obras e novos diálogos pro Brasil e pro mundo. Agora mesmo no Festival de Gramado o curta do Marcelo e do Wallace ganhou vários prêmios, foi super consagrado lá; tem uma diretora baiana que estudou em Cuba e mora em São Paulo que acabou de ganhar vários prêmios em Brasilia… São filmes que tiveram grande destaque. Cães, Carreto, Nego fugido, o filme do Daniel Lisboa, Sarcófago, em grande maioria curtas metragens; o Edgar Navarro, com sua história de ascensão, que nos últimos anos conseguiu realizar dois longas. O cinema baiano voltou a respirar porque a gente viveu um período de muita crise, uma crise de produção, e só agora voltamos a produzir. Eu acho que agora, falando como fruto dessa geração de Cachoeira, vem uma turma nova, mais atenta, mais aberta ao dialogo, mais aberta à experimentação, mais aberta a um cinema que pensa, mais preocupada com isso do que com um cinema comercial. Vão sair bons frutos dessa nova safra,  parte desse processo dentro das universidades publicas, da formação de cineclubes, da formação de um olhar, e também pela promoção de festivais de cinema, que é um lugar de resistência.

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