EU, ASSISTENTE DE CÂMERA, MULHER

 

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Por Renata Reis

 

Ingressei na faculdade de Cinema e Vídeo da Universidade Federal Fluminense, localizada em Niterói, em 1993, sem ter ideia do que seria trabalhar com cinema. Tinha apenas o desejo de escrever roteiros e dirigir filmes.

Durante o curso, nosso professor de Iluminação e Fotografia, Sérgio Vilela, indicou uma colega, Auira Ariak, para fazer estágio em uma locadora de câmeras de cinema no Rio de Janeiro, a Mega Filmes. O dono da locadora, Jorge Veras, que havia sido fotógrafo de cinema, pedira esta indicação. Fui também!

O Veras, como é conhecido até hoje, preferia ensinar às mulheres pois, por experiência própria, considerava-nos mais disciplinadas e interessadas. Achava graça disso, mas o fato é que ele foi um grande incentivador e apoiador para que mais mulheres exercessem a função de assistente de câmera, lugar predominantemente masculino.

Durante este estágio, aprendi a realizar as funções de um assistente de câmera, principal (e quase único) caminho para se tornar fotógrafo de cinema no Brasil, até a chegada do digital. Ele também nos ensinou procedimentos de cuidado e manuseio de lentes e câmeras, conhecimentos técnicos e operacionais. Por mais de um ano eu e minha colega íamos todos os finais de semana para o estágio e aos poucos fomos nos inteirando desta profissão.

O mercado de cinema e publicidade conhecia-nos como as “meninas do Veras”. Como ele é um profissional bastante criterioso, tínhamos o “selo de qualidade” do nosso professor.

Depois de nós, algumas outras meninas passaram por este estágio, mas nem todas continuaram a carreira de assistência de câmera.

No Rio de Janeiro, se não me falha a memória, existiam somente duas mulheres exercendo esta função: a Isabela Fernandes e a Maritza Caneca. Em São Paulo, somente uma, a Katia Coelho (todas elas hoje são fotógrafas de cinema e publicidade).

Nesta época, foram surgindo outras entre Rio e São Paulo: a Heloísa Passos, a Kika Cunha, e a Janice d’Avila (todas elas e também os demais fotógrafos de cinema, podem ser contatados através do site da Associação Brasileira de Cinematografia – http://www.abcine.org.br/abc/).

Meu primeiro trabalho remunerado foi como segunda assistente de câmera de um colega de faculdade, Fabrício Tadeu, que estreava como primeiro assistente de câmera (uma equipe de câmera – com negativo, ou seja, não digital – normalmente tem o primeiro assistente de câmera, o segundo assistente, o “loader” e o operador de vídeo).

Até então havia feito outros trabalhos em curtas metragens, como estagiária, sem remuneração. Ganhei em dez dias de cachê o que minha mãe ganhava no mês como funcionária pública.

Foi um curta-metragem, fotografado pelo Toca Seabra.

O equipamento de câmera era pesado… Achei que não daria conta.

Até então estava acostumada com os sets de filmagens da faculdade e a primeira “chamada de atenção” que levei do fotógrafo de forma mais dura, chorei.

Enfim, os primeiros contratempos foram: peso do equipamento, certo preconceito por ser mulher e a maneira um tanto desumana com que algumas pessoas se relacionavam no trabalho. Em alguns momentos, num set de filmagem, temos a sensação de estarmos em um campo de batalha…

Estes primeiros trabalhos como assistente de câmera foram duros.

Trabalhar com cinema é em si, trabalho duro! Exige disposição física e mental. Como assistentes de câmera também temos de ter disciplina, criar e aprender métodos de trabalho, ter organização, agilidade e atenção o tempo todo. O tempo todo mesmo!

Os equipamentos são caros. Qualquer pequeno erro, além de comprometer o trabalho de todos, custará caro.

Como mulher, somos alvo de olhares meio incrédulos, admirados, olhares também de compaixão… Todo mundo quer ajudar. Acham estranho nossos superiores nos deixarem carregar peso.

O equipamento de câmera, como disse, é pesado. Trabalhamos com equipes de maioria masculina e temos que aprender a lidar com tudo isso.

Eu particularmente achava que a única “desvantagem” com relação aos homens era a força física. Mas essa força vai aparecendo e vamos nos adaptando.

No começo, confesso que não aceitava ajuda de ninguém. Um pouco de imaturidade e orgulho…

O primeiro grande filme em que trabalhei foi A guerra de canudos, de Sérgio Rezende.

Antes deste já havia trabalhado em longas-metragens de quatro ou seis semanas, no máximo. Neste, foram quatro meses no sertão de Pernambuco, trabalhando uma média de 14 horas por dia, com direito a uma folga na semana. Muito calor, muita poeira, filme de época, de guerra… A equipe, em sua maioria, masculina.

Uma equipe de cinema, ainda que estejamos em nossa cidade, passa a ser nossa família, nossos melhores amigos. Não existe muito mais tempo para nada, além do trabalho.

Bem, entre um trabalho e outro, conclui a graduação. Exceção nas turmas da faculdade, já que poucos colegas conseguiram concluir o curso.

Este ano (2012) fiz um trabalho, o primeiro mais longo com maioria da equipe de câmera de mulheres, e me surpreendi. Achei ótimo. Somos mais dóceis, mais tranquilas, menos competitivas (no mal sentido), atenciosas, generosas e temos força sim, não só a física, mas vontade, disposição e energia.

Atualmente existem várias mulheres fotografando e mais de dez como assistentes de câmera somente no Rio de Janeiro.

A consideração, o respeito e o reconhecimento estão ganhando espaço e força.

Hoje, pensando melhor, acredito que a maior dificuldade mesmo desta profissão é a instabilidade financeira e a carga horária de trabalho. Além, é claro, da relação profissional que temos de ter com o mais variado tipo de pessoas. Se ao fazer trabalhos com amigos na faculdade tínhamos um entrosamento harmonioso e divertido, no mercado de trabalho precisamos cumprir metas, planos muitas vezes “impossíveis”, com pouco dinheiro e em pouquíssimo tempo grande parte das vezes.

É assim como uma maratona.

Mas se existe disposição para aprender, para “ralar” e se aventurar… Pode ser bastante divertido também. Teremos de aprender a lidar profissional e emocionalmente com as adversidades um dia e o quanto antes, melhor.

Com relação ao fechamento de cachês, até o ano 2000 era um grande desgaste.

A cada trabalho tínhamos que negociar o cachê e muitas vezes não recebíamos as horas extras.

Em 2000, nós, assistentes de câmera do Rio de Janeiro, nos reunimos e fundamos a Associação Profissional dos Assistentes de Câmera do Estado do Rio de Janeiro, a APACERJ, e padronizamos a cobrança de diárias, horas extras, etc.

Mas isso é só um passo, pois individualmente continuamos não tendo remuneração estável, nem benefícios garantidos de um emprego fixo.

Com relação ao seguro, todos os projetos são, por lei, obrigados a fazer, mas nem sempre isto acontece. Todos deveriam fazer contrato, assinar nossa carteira de trabalho, mas, muitas vezes, a documentação não contempla todo o período do projeto. Assim, precisamos viver sempre com uma reserva, pagar previdência privada e seguro de vida.

Precisamos, como todo profissional, nos reciclar e nos renovar sempre. Manter os conhecimentos atualizados e conectados com o mercado e suas mudanças. O início da era digital foi um marco neste sentido, pois estamos tendo que aprender tudo do zero.

Bem, as vantagens desta profissão também são muitas.

Não trabalhamos todos os dias do ano, de segunda a sexta, com horário fixo. Se tivermos um volume razoável de trabalho, a remuneração aumentará na mesma proporção. Os cachês para a função de assistente de câmera atualmente são justos e nossa união tem mantido certo respeito e consideração que não tínhamos antes. O mercado para assistência de câmera não é tão restrito. Podemos trabalhar com cinema, publicidade e televisão.

Além disso, conhecemos diversas regiões do Brasil que, não fosse essa profissão, jamais teríamos ido ou conhecido. No Rio de Janeiro mesmo conheço lugares que de forma alguma conheceria se não fosse através do trabalho. Entramos em contato com pessoas, culturas e estilos de vida diferentes.

Para quem se aventurar… Acredito que o melhor caminho para se ingressar neste mercado no Rio de Janeiro seja através da APACERJ, entrando em contato com os assistentes de camera, fazendo estágios em filmes e principalmente mostrando-se disposta a aprender.

Anualmente a APACERJ realiza cursos que são excelentes oportunidades para se aprender e conhecer pessoas.

http://apacerj.blogspot.com.br/

O filósofo e poeta, Daisaku Ikeda, meu mestre da vida, diz que:

“vivemos uma época em que sensibilidade, sutileza, flexibilidade, tenacidade, benevolência, atenção e intuição — qualidades que as mulheres possuem em abundância — serão altamente louvadas e utilizadas ao máximo. Seja em um país, em uma companhia ou em uma organização, prosperará aquele que der total liberdade à capacidade e aos talentos das mulheres”.

 

Desejo boa sorte a todas e todos!

 

Renata Reis exerce a profissão de assistente de câmera  desde a década de 1990.Formada em Cinema pela Universidade Federal Fluminense, trabalhou em inúmeros filmes de curta e longa metragem, como Guerra de Canudos, Bela e Galhofeira, assim como peças de publicidade.

One thought on “EU, ASSISTENTE DE CÂMERA, MULHER

  1. Auira Ariak

    Que delícia relembrar a época da faculdade, o estágio com o Veras (como ele está hoje?) e os primeiros trabalhos pela narrativa da história da Renata Reis, companheira de faculdade, moradia, estágios e trabalhos.
    Fiquei imaginando que poderia ter eu também esta história bem parecida até hoje, não fosse pelo desvio que a vida me trouxe, sobretudo a chegada da vida de minha filha, Verena – hoje já com 15 anos! Se para uma mulher ou homem já não é fácil essa vida de set de filmagem, imagine para uma mãe… Tive que optar e tentar outros caminhos que não exigissem tanto tempo fora de casa. Foi bom também, quem sabe um dia eu também conto. Por hora, Renata, tudo de bom pra vc, parabéns por ter persistido no que gosta! Quero ver os seus filmes sempre e sei que ainda vai ganhar muitos prêmios merecidos como fotógrafa do cinema brasileiro. Tenho um orgulho danado de ter te conhecido tão de perto. Forte abraço!

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