ROTEIRO DO SUDOSTE

Por Guilherme Sarmiento

Logo após se separar do segundo casamento, minha avó foi morar sozinha em Monte Alto, vilarejo de Arraial do Cabo, localizado, mais ou menos, a 18 km de Cabo Frio. Eu e meu irmão, muitas vezes, íamos passar os fins de semana lá. O percurso entre minha casa até a pequena cidade da Região dos Lagos ia se espremendo em uma estreita faixa de terra entre a lagoa de Araruama e o Oceano Atlântico, imergindo os viajantes numa sensação muito parecida com aquela sentida pelos que atravessaram, em fuga, o Mar Vermelho. De uma hora para outra o profeta colocaria seu cajado sobre o chão e, aí, as ondas se fechariam sobre os fariseus. Ao fundo víamos os moinhos bombearem água para as salinas abandonadas e, encalhadas nos canais elaborados artificialmente, as sucatas das barcaças, que antes revolviam o fundo da lagoa, jaziam enferrujadas pelo salitre, tomada por cracas, caranguejos e baratas d’água. Tínhamos ali a impressão de que a natureza vingava-se da ambição humana, deixando atrás de si os despojos da Indústria do Sal e da Barrilha. Inúmeras vezes me peguei imaginando personagens sem rosto vagando naquela região informe, castigada pelo vento e pela maresia, guardando em si a memória de antigas e futuras catástrofes naturais. Estas visões começaram a tomar corpo quando, pouco mais de dez anos depois, meu amigo Eduardo Nunes me procurou para que escrevêssemos um curta metragem juntos.

Conheci Eduardo Nunes, me lembro bem, no patio do IACS (Instituto de Artes e Comunicação Social), campus que abrigava o curso de Cinema da UFF. Momentos antes havia entrado em contato com a sinopse de O sopro, seu filme de conclusão de curso, cuja direção dividiu com Flávio Zettel, apaixonando-me pela maneira como elaborava o tempo da narrativa. Ofereci-me para trabalhar de assistente de produção e, ali mesmo, descobrimos as afinidades capazes de nos tornar amigos e estabelecer as bases de uma parceria profissional duradoura. Ambos compartilhávamos inquietações filosóficas diante das imagens, especialmente com sua contingência temporal, e, claro, uma admiração profunda pelo cineasta russo Andrei Tarkovsky. Seis meses depois, escrevi especialmente para ele um curta chamado A infância da mulher barbada, premiado no primeiro concurso da Riofilme, em 1993. Toda esta trajetória conjunta me autorizava a, no momento em que me expôs seu desejo de escrever um novo projeto, instigá-lo a partir para um formato fílmico mais ousado. Estava na hora de encarar a escritura de um longa-metragem. Não precisou que eu insistisse muito para que começássemos o trabalho logo naquela semana.

O primeiro tratamento de Sudoeste foi escrito em mais ou menos dois meses. Escrevi o filme numa máquina elétrica Olivetti. Mandava os originais para Eduardo que digitava o texto no seu computador, enxugando-o e adaptando os diálogos a seu modo de expressão muito particular. Tínhamos então somente a sinopse um tanto vaga de uma mulher cujo metabolismo era acelerado por um fenômeno desconhecido, comprimindo seus oitenta anos de vida no intervalo de um único dia. Ela nascia, crescia, envelhecia e morria em vinte e quatro horas. A história começou a se configurar com rapidez no momento em que imaginei esta personagem andando pelo ambiente mágico e inóspito de Monte Alto. Para mim, um ser ficcional começa a se delinear somente quando o vejo integrado a um espaço qualquer e, neste caso, por suas características geográficas, a região cumpriu bem mais do que o papel de um pano de fundo, constituindo-se como elemento fundamental para a composição física e espiritual da protagonista. Esta importância foi prontamente compreendida por Eduardo. Durante o processo de criação do roteiro fomos andar por entre as salinas abandonadas, pois, na época, sua mãe residia nas proximidades de Cabo Frio. Refletidas na água parada da lagoa, as casuarinas pareciam uma fileira de fantasmas despencando em direção às nuvens. Algum tempo depois, ele levaria Mauro Pinheiro Jr, o fotógrafo do filme, para comungar de sua perplexidade diante da beleza peculiar daquele sítio, dando início ao premiado projeto de fotografia elaborado ao longo dos dez anos de realização de Sudoeste.

Desde o início, já tínhamos acordado o título do filme. Em toda a Região dos Lagos, o vento mais comum é o nordeste. Pela constância com que sopra, deixa inclinadas as copas das árvores na direção do mar; o vento sudoeste, portanto, impõe-se como uma anomalia ao inverter as correntes de ar de volta para o continente. Traz com ele as nuvens carregadas e a tempestade. Mas existiam outras conotações explicitadas nesta palavra que levava também a um lugar imaginário, localizado entre o sul e o oeste, um lugar de ninguém, cuja pronúncia evocava com igual força aquelas terras perdidas no deserto tantas vezes exploradas pelos westerns norte americanos. Desde o roteiro havia a intenção de se produzir certa ambiência mítica dentro da qual a personagem circulasse, arrastando com ela o espectro de uma maldição interdita.

Na época eu estava lendo os três volumes sobre Mitologia Grega do Junito de Souza Brandão. Um dos mitos que mais me chamou a atenção foi o de Deméter e Perséfone. Deméter, deusa ctônica, ao perder a filha para o mundo subterrâneo, sequestrada por Hades, o guardião do Reino dos Mortos, deixou para trás um mundo sem víveres. As plantações morreram. Após um acordo intermediado por Zeus, a moça passou a visitar a mãe anualmente, dando início ao ciclo da primavera. No roteiro original havia uma transposição textual do mito, uma cena inteira passada no interior de uma caverna, na qual Clarice, desorientada, escutava o choro de uma criança que pensava ser sua, retirada da versão comercial da película. A crítica Marlyn Ferdinand http://www.ferdyonfilms.com/2011/ciff-2011-southwest-sudoeste-2011/11480/percebeu com agudeza estes elementos míticos presentes no filme, especialmente aqueles de matriz católico-cristã. A própria circularidade indicativa dos ritos, sejam eles cristãos ou pagãos, casava perfeitamente com as intenções de Eduardo Nunes em criar uma história que se fechava sobre si mesma. Então, meus conhecimentos produziram ressonâncias sobre a ideia inicial e fomos dando vida a este universo cheio de arcaísmos subliminares, deixando nossas frontes adormecerem em águas muito remotas.

A grande dificuldade na elaboração do roteiro de Sudoeste, para mim, foi construir uma trama na qual o espectador tivesse a ilusão de que assistia a um filme linear, porém, durante a projeção, fosse se perdendo entre as muitas vias adjacentes, ou subterrâneas, à jornada principal. Pretendi, junto com o diretor, construir uma história fragmentada sem deixar a percepção de um tempo continuado: ao invés de quebrar a narrativa através de uma montagem alternada, quis apostar nas camadas de tempo subsistentes num mínimo gesto, dando a cada passo da protagonista a consciência de que se multiplicava, se desdobrava, em outro lugar. Dentro desta concepção dramatúrgica, por mais que Clarice realize alguma ação, ela nunca impulsiona a trama para frente, ou mesmo em sentido contrário, mas a empurra cada vez mais para o fundo, escavando o seu Ser até que surja a matéria amorfa de sua composição interior; seu ato nunca é inteiro, apesar de, aparentemente, fluir conforme a passagem de uma cronologia com um início, um meio e um fim, pois ele se divide constantemente entre suas memórias e seus mais terríveis presságios; por nunca conseguir se manter no presente, ela também não consegue criar uma identidade. Neste sentido, sequer pode ser considerada um ente, já que sua psiquê encontra-se perdida entre a busca (ou fuga) de uma mãe assassinada e de uma filha abortada, ambas confundidas nela mesma, Clarice. De certa forma, ela engendrou a si, tornando-se, para todos os efeitos, uma aberração.

Poderia falar muitas outras coisas, mas acho que estas apreciações podem acabar tornando o filme pequeno. Deixo aqui postado o roteiro integral para que tirem suas próprias conclusões comparando-o posteriormente com a obra realizada. Aproveito para agradecer a todos que fizeram com que as personagens ganhassem vida, dos atores à direção de arte, especialmente a Eduardo Nunes, por ter realizado Sudoeste, projeto que me orgulho muito de ter colaborado. Boa leitura!

Acesse o roteiro aqui ROTEIRO DE SUDOESTE

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