ENTREVISTA – MIKA KAURISMAKI

MIKA

Por mais que Mika Kaurismaki tente ser discreto, acaba chamando a atenção por revelar com sua aparência tudo aquilo que imaginamos como estrangeiro. Na verdade, trata-se de um cineasta em permanente trânsito: nascido na Finlândia, mora no Brasil e filma em toda a parte do mundo. Desde a década de 1980 vem construindo uma carreira que já conta com mais de 30 filmes dirigidos, fora os produzidos, transitando igualmente por várias instâncias do aparato cinematográfico: realização, produção e distribuição. Junto com seu irmão, Aki Kaurismaki, fundou uma das maiores produtoras de filmes da Finlândia, a Villealfa, e foi responsável pela criação do festival de cinema mais importante do país: O Midnight Sun Festival.

Dando prosseguimento à série de entrevistas começada em 2012, hoje vamos conhecer um pouco da vida e da obra de Mika Kaurismaki.

Entrevista: Guilherme Sarmiento

Transcrição: Camila Mota

 

Cinecachoeira: A cinematografia da Finlândia é desconhecida aqui no Brasil. Eu queria que você falasse um pouco dessa tradição cinematográfica, e de que maneira ela se expressa no seu trabalho e no de outros cineastas finlandeses contemporâneos?

Mika Kaurismaki: Nos últimos 20 anos eu fiquei muito mais aqui no Brasil do que na Finlândia, eu não conheço muito bem o cinema Finlandês de hoje. O cinema de lá nunca foi para exportação, é sempre filme finlandês para finlandeses verem, já que na Finlândia falamos uma língua muito própria… O Dinamarquês, o Sueco tem alguma semelhança com o alemão, o inglês, mas, na Europa, ninguém fala algo parecido com finlandês. Não temos muitos filmes finlandeses que passem fora, só alguns filmes meus e do meu irmão (Aki Kaurismaki). A maioria tem como tema as guerras, como contra a Rússia, sempre assuntos nacionais… Na década de 1950, “Rena Branca”, de Erik Bolmberg, se não me engano, ganhou Cannes. Nesta época se produziu muito, era uma industria 30, 40 filmes por ano, com três estúdios em atividade. Devia ser a maior produção “per capita” da Europa. Muita comédia e filme romântico. Estes filmes me impressionaram um pouco, mas não podem ser considerados como minhas influências diretas.

Cinecachoeira: Quais eram os seus interesses cinematográficos? Eram mais filmes europeus ou americanos?

Mika Kaurismaki: Eu vivia em uma cidade pequena, que não tinha muitas opções para cinema. Frequentei um cineclube… Mas somente em Munique, em contato com a Cinemateca, assisti a filmes que realmente me estimularam cinematograficamente. Bresson, Samuel Fuller, alguns japoneses (Ozu, Mizoguchi, Kurosawa), Neorealismo Italiano, Glauber Rocha. Vi também Orfeu negro, alguns filmes de cangaceiros.Assistia, normalmente, a dois filmes por dia, às vezes três.

Cinecachoeira: Quando você chegou na Alemanha? Já produzia filmes quando foi morar lá?

Mika Kaurismaki: Cheguei em Munique no ano de 1977. Terminei a escola na Finlândia e ai fui pra lá estudar arquitetura, mas mudei logo para cinema. Eu comecei a fazer filmes na escola. Aliás, com 15 anos eu já filmava em Super 8 junto com alguns amigos. Pequenas ficções, só de brincadeira mesmo…

Cinecachoeira: Quem foram os seus professores na escola de Munique?

Mika Kaurismaki: Não tive nenhum professor famoso. Ensinavam a técnica, através de seminários ou cursos. Foi bom, pois fiz vários filmes enquanto ainda era estudante. O Roland Emmerich era da minha turma, somos até hoje amigos. Fiz a câmera de alguns de seus filmes. Fizemos alguns filmes de escola juntos.

Cine cachoeira: Então, na verdade, permanecer ali na escola foi uma experiência fundamental no início de sua carreira. E ai, a partir da década de 80, você foi acontecer dentro dos festivais…

Mika Kaurismaki: Concluí meu curso realizando o média O mentiroso, um filme em 35mm, filmado na Finlândia, escrito junto com meu irmão, Aki Kaurismaki. Ele também foi o ator principal. Ganhei alguns prêmios com ele. Fez bastante sucesso na Finlândia. Eu acabei ficando no meu país, porque meu irmão estudava jornalismo e, também, resolveu se dedicar ao cinema e, aí, começamos nossa carreira como cineastas.

Cinecachoeira: Vocês não só fizeram filmes como abriram a produtora Villealfa, além de produzirem um festival de cinema… Fale um pouco desse cenário, dessa sua volta para a Finlândia e como tudo se precipitou depois do sucesso de seu primeiro filme…

Mika Kaurismaki: Esse primeiro filme que eu havia feito na escola me deu a oportunidade de fazer outro na Finlândia, um primeiro longa de verdade. Nós nos juntamos a um grupo de jovens, alguns amigos, e montamos nossa produtora. Antes do longa fiz um documentário, junto com meu irmão, sobre o rock finlandês. Minha ligação era muito mais forte com bandas de rock do que com o o universo do cinema, logo que voltei da Alemanha. Muitos dos músicos que conhecia eu chamava para atuar nos meus filmes, eu sempre tive uma ligação muito forte com esses músicos. Em 1985, nos juntamos com mais dois produtores, adquirimos mais equipamentos. Depois que Ingmar Bergman fez Fanny e Alexander vendeu duas câmeras de 35mm, luz, som, nagra, dolly…Compramos tudo e nos tornamos uma produtora de grande porte.

Cinecachoeira: Com as bençãos de Bergman (Risos). Faziam publicidade também?

Mika Kaurismaki: Só cinema. Fizemos muitos filmes. Eu acho que eu fui um bom produtor: o meu cinema não chega a ter 30 ou 40 filmes, porém minha produção para outros diretores, entre curtas e médias documentários, tem muito mais do que isso. Hoje eu não produzo praticamente nada para outras pessoas, acho que já fiz minha parte. Já esta bom. Não tenho mais recursos ou infraestrutura para isso, e se eu for também produzir outras pessoas, não terei tempo de realizar os meus.

Cinecachoeira: E a produtora Villealfa?

Mika Kaurismaki: Ainda existe, mas não produz mais filmes, por que depois que eu sai da Finlândia, no final dos anos 80, eu fundei a Marianna Films… Comecei a morar fora e a trabalhar também, deu uma esfriada. De qualquer forma ela ainda esta lá na Finlândia. Ainda fazemos algumas edições, ainda temos o direito de algumas produções. Mas não produzimos mais filmes.

Cinecachoeira: Vocês também produziram um festival na Finlândia, o Midnight Sun Festival…

Mika Kaurismaki: Na Lapônia, no verão, é sempre dia. Em junho, tem 10 semanas que não há pôr do sol, e ai pensamos em realizar um festival nesta época. Até hoje produzimos o evento. Acho que é o mais famoso da Finlândia, grandes nomes do cinema já passaram por lá. Coppola chegou afirmar que era o melhor festival do mundo.

Cinecachoeira: Você atua em muitas frentes do cinema, direção, produção…

Mika Kaurismaki: Compramos um cinema e começamos a exibir e distribuir também. Distribuímos em média 80 filmes, entre eles filmes de Almodóvar, Win Wenders, Jim Jarmusch e vários outros diretores. E até hoje ainda temos o cinema, mais voltado para a exibição de filmes de arte.

Cinecachoeira: E sua relação com o Brasil? Em Moro no Brasil o vemos com um disco de bossa nova debaixo do braço, na Finlândia, e em seguida você em um Jipe cruzando o sertão nordestino… Foi um encantamento pela cultura, pela música brasileira que te trouxe para cá?

Mika Kaurismaki: Antes da minha vinda pro Brasil, na década de 70, eu ouvia muito Black Sabbath. O pai de um amigo do meu, que era marinheiro, trouxe um disco de musica brasileira, que é exatamente o disco que eu mostro no inicio do meu filme. Pulei do Black Sabbath para esse estilo de musica brasileira, era um LP que de um lado tinha bossa nova, e do outro lado música regional. Até então conhecia um pouco de Bossa Nova, meus pais escutavam Tom Jobim, mas foi esse disco que me introduziu na música brasileira. Mas só depois de 20 anos, através de um projeto de cinema, vim ao Brasil. Através de um filme de ficção, uma comédia, realizada na Alemanha chamada Helsink Napoli – all night long, com a participação de Samuel Fuller, Wim Wenders, Jim Jarmusch... Ele passou no encerramento do Festival do Rio de 1988. Planejava passar uma semana, em novembro ou dezembro. Ai não consegui mais ir embora e ainda estou aqui. Eu viajei 2 meses pelo nordeste, passei pela Amazônia, e isso tudo foi me encantando… Voltei em 1989 e fiz um filme de ficção chamado Amazonas, que conta a história de um pai com seus dois filhos foragidos da Finlândia, onde as coisas vão dando errado e eles acabam na Amazônia, uma aventura ecológica, um tema que estava começando a despontar naquela época.

Cinecachoeira: O roteiro é de quem?

Mika Kaurismaki: Meu e de Richard Reitnger um alemão que também residia no Brasil. Acabou virando uma co-produção envolvendo Estados Unidos, França, uma coisa maior que até complicou um pouco a realização do filme. Usamos alguns atores brasileiros,como Chico Diaz,  isso foi em 1989… Logo antes do Natal de 1989 terminei as filmagens de Amazonas e fui para Salvador passar férias. Fiquei 2 ou 3 semanas no Pelourinho…

Cinecachoeira: Você tem um grande interesse pela cultura afrobrasileira, de maneira geral…

Mika Kaurismaki: Hoje isto tem mudado, porém naquela época era muito raro você ver na Finlândia um africano ou um japonês andando nas ruas. É uma cultura muito homogênea, ao contrario do Brasil que tem uma mistura vigente. Aqui é um caldeirão de culturas, de raças. O que me encantou muito foi a maneira como as historias acontecem nas ruas. Em cada esquina que você passa esta acontecendo algo. As pessoas são mais comunicativas e menos reservadas.

Cinecachoeira: Eu vejo muito nos seus filmes, principalmente nos documentários, um crédito muito grande na música como um fator de transformação social e também de cura, de revolução. Isto fica bem claro tanto no Mama África, biografia da cantora sulafricana Miriam Makeba, quanto em Sonic mirror, quando justapõe um projeto social em Itapoã, na Bahia, a uma clínica na Áustria, ambos com projetos utilizando a música como forma de integração social.

Mika Kaurismaki: Eu acho que a musica tem uma força muito grande, ainda mais aqui no Brasil. Na Finlândia é mais para divertimento, aqui também, porém sua presença na cultura brasileira é mais significativa, casada com a dança, com as tradições, e importante para fundar uma identidade. Lá temos shows, concertos de rock; aqui nós temos o poder da roda de samba, com todos cantando, dançando, reunidos. E acho que em parte isso veio através da herança africana, que transformou seus cantos, seus rituais na musicalidade brasileira.

Cinecachoeira: Seus filmes documentários abordam temas, digamos assim, sérios, que se chocam com sua vocação para a comédia quando dirige ficções. Tanto Três homens em uma noite fria, quanto O ciúme mora ao lado, seus últimos filmes de ficção lançados no Brasil, possuem um humor negro marcante…

Mika Kaurismaki: Eu gosto muito de comédias, dos clássicos, sempre quis fazer comédia e ultimamente eu tenho apostado no gênero. Eu gosto de trabalhar nessa linha entre comédia e dramas, uma linha muito fina… Às vezes coisas que parecem muito tristes, podem ser engraçadas, dependendo do ponto de vista. Você vê um casal brigando, separando, divorciando: o momento para eles é muito trágico, mas para quem esta distante isso pode gerar uma situação engraçada. Eu realmente prefiro trabalhar nessa linha da comédia, apesar de tratar de assuntos delicados. Meu último filme Road north trata da relação mal resolvida de um pai com um filho, que volta após 30 anos, aparece de repente, e os dois fazem uma viagem juntos. O humor torna temas pesados mais fáceis de serem digeridos pelo grande público.

Cinecachoeira: Dentro do cinema, você procura imprimir uma marca autoral, pessoal?Isto tem importância para você?

Mika Kaurismaki: Eu sempre viajei com a minha câmera, saí pelo mundo gravando coisas, me sentindo confortável, me permitindo fazer parte desses espaços… Eu sou meio que um antropólogo, eu nunca tive muito jeito para ser o diretor de filme/cinema de arte. Talvez agora, depois de ter feito mais comedias, tragicomédia… Mas gostaria de experimentar outros gêneros também. Tenho várias ideias diferentes. Não quero ficar preso a uma marca.

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