TRABALHAR CANSA

Trabalhar cansa (2011) - Juliana Rojas e Marco Dutra

Trabalhar cansa (2011) – Juliana Rojas e Marco Dutra

 

Por Ian Gadelha

 

Trabalhar cansa é um filme diferenciado dentro do cinema brasileiro contemporâneo: não pela temática que aborda, mas pela escolha de um viés sobrenatural e fantástico para temas tão caros à sociedade. A trama é simples: Helena, mulher de classe média, resolve alugar um velho mercado abandonado para empreitar um novo negócio. Seu marido, Otávio, homem bem sucedido no mundo dos negócios, vê-se diante de uma situação temida por todo trabalhador: a procura de uma oportunidade no mercado de trabalho. No meio disso, uma filha e uma empregada doméstica formam o núcleo da família. Helena tenta levar adiante o pequeno negócio. O filme fala, dessa forma, sobre esse universo corporativista e selvagem, onde tudo pode desabar de uma hora para outra, onde nem sempre é possível identificar com exatidão o impacto disso tudo sobre o sujeito – em um âmbito mais subjetivo.

É, pois, no seio da família de classe média que os pequenos conflitos ganham contorno. Desemprego, a relação com o mercado de trabalho, as dificuldades do dia a dia, elementos de uma típica tragédia social. Entre crises, reflexos e críticas ao mundo contemporâneo, um elemento aparentemente a parte desse mundo – o suspense – toma, lentamente, conta da narrativa, em um tom crescente e misterioso, ainda que não seja dado seu inteiro esclarecimento ao longo do filme. Há algo errado no ar: nas relações cotidianas, questões subjetivas desenvolvem-se, sempre dando margem à crítica em relação ao mundo do trabalho, questão que perpassa todo o filme. Mas é através dos pequenos mistérios que a obra ganha força, criando de forma eficiente um suspense e uma certa atmosfera, elementos que podem ser encarados como metáfora para os problemas enfrentados pelos personagens, angústias e insatisfações guardadas no âmago do ser, onde, assim como no universo fantástico, nem sempre colocam-se às claras.

Pequenos sinais, por vezes simples alarmes falsos, preparam o caminho e indicam a existência de uma força maior por trás dos problemas. Cachorros latindo para o vazio de uma noite deserta, uma grande mancha que aparece sem razão aparente, uma substância preta e fétida que sai do chão, quase um pesadelo kafkaniano. Uma ameaça velada e desconhecida. Os problemas no campo da realidade são aparentes, mas como isso se manifesta no mundo subjetivo? Como lidar com essa estrutura entranhada no interior do ser e das coisas sociais?

A última cena não poderia ser diferente (lembrando Teorema, de Pasolini, guardada as devidas diferenças). Em uma palestra sobre o mercado de trabalho, um instrutor fala algumas coisas providenciais: “o homem moderno tem que retomar o contato com suas raízes para sobreviver na selva”. Algumas palavras sobre libertação, sobre um lado esquecido, que finalmente encontra vazão sobre o grito em primeiro plano do personagem, um grito que expõe uma angústia proveniente do embate entre o ser e as exigências do mundo contemporâneo.

Ian Gadelha é aluno do segundo período do curso de cinema da UFRB

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