A CLAQUETE MUSICAL DE CAETANO VELOSO

Por Fred Goes

cinema-transcendental

A projeção nacional de Caetano Veloso aconteceu no Festival da Canção da TV Record, em 1967, quando apresentou a canção Alegria, Alegria. Música inaugural do movimento Tropicalista. Já, naquele momento, o compositor/cantor revelava seu especial interesse pelo universo cinematográfico. Era desconhecido do grande público que, desde muito cedo, ainda estudante em Santo Amaro da Purificação, o jovem Caetano militava na crítica da sétima arte. A citada canção é um bom exemplo do que viria ser um traço recorrente da obra do compositor: a aproximação entre as poéticas da música popular e do cinema, como também as frequentes citações oriundas do mundo cinematográfico.

No calor do momento tropicalista, o poeta e crítico literário Décio Pignatari chegou a observar que Alegria, alegria apresentava uma letra “câmara-na-mão”, citando o mote do Cinema Novo. Vale observar que o Tropicalismo é um movimento cultural nascido nos meios de massa, de forma especial, na televisão, e que tem a música popular como elemento central. O que o distingue, entre os movimentos de vanguarda, é o fato de, sendo uma motivação nascida no âmbito da música popular comercial, ter estabelecido intenso diálogo com a diversidade da produção artística do momento em que surgiu. Fez aliança com a música erudita de vanguarda, por meio dos maestros Rogério Duprat e Júlio Medaglia; com as artes visuais, por meio de Helio Oiticica, (autor do penetrável Tropicália, que deu nome ao movimento) e Rubens Gershman; com o Cinema Novo, como já citado, por meio de Glauber Rocha; com o teatro, por meio da estética da montagem de O Rei da Vela, de Oswald de Andrade, pelo Teatro Oficina; com a literatura, por meio da Poesia Concreta. Vê-se, portanto, que já nos primeiros momentos, Caetano Veloso e seus pares tropicalistas buscavam romper as insuperáveis barreiras que dividiam a cultura popular da erudita ou consagrada.

Em fluxo de pensamento fragmentado, cortes rápidos e edição precisa, a letra de Alegria, alegria nos transmite a velocidade das imagens e das informações do cotidiano contemporâneo metaforizada na quantidade avassaladora das publicações expostas em uma banca de jornal. Explodem fragmentos que, em flashes, nos permitem perceber que um sol se reparte em crimes, espaçonaves, guerrilhas, em que se misturam Cardinales bonitas ( referência à atriz italiana Claudia Cardinale), caras de presidentes, bomba e Brigitte Bardot (referência a icônica atriz francesa), entre tantas outras citações.

Nas linhas das mãos de Caetano e nos trastes de seu violão estavam traçados roteiros de cinema, que viriam abrilhantar nosso cancioneiro. A paixão por e a proximidade do cinema se revelaria em inúmeros momentos da carreira do compositor. Participou, por exemplo, como ator, em 1982, do filme Tabu, de Júlio Bressane, onde interpretou o compositor Lamartine Babo, e sete anos depois, de Os sermões – a história de Antônio Vieira, como o poeta Gregório de Matos, também de autoria de Bressane. Em 1986, dirigiu e produziu Cinema Falado, onde reúne diversas personalidades de variados campos de nossa cultura, opinando sobre os mais diferentes assuntos. Ele é autor igualmente de um número expressivo de trilhas originais como, por exemplo, Tieta do agreste, (1996), de Cacá Diegues, que tinha, no papel de protagonista, Sônia Braga. No cinema internacional, participou com voz e até mesmo teve participação em filmes de Pedro Almodóvar, o que rendeu ao compositor uma gloriosa apresentação na festa de premiação do Oscar. Sobre ele, foi realizado o documentário Coração vagabundo, 2009, de Fernando Grostein, que acompanha uma excursão internacional do artista e permite que o grande público prive da vida íntima e dos bastidores de uma viagem desta proporção. O breve panorama aqui pontuado não esgota a relação direta de Caetano com o cinema, busca, tão somente, por em foco momentos significativos.

Em seu ABC da Literatura, o poeta e crítico literário americano Ezra Pound nos indica que no processo de criação poética há a recorrência de três aspectos: a fanopeia (a projeção de uma imagem visual sobre a mente), a logopeia, (projeção por meio do sentido da palavra), e a melopeia (por meio da melodia ou da camada fônica). Na poética de Caetano encontramos de forma exuberante as projeções de imagens. Um bom exemplo para constatar tal afirmativa é a letra de No dia em que vim-me embora . Nesta letra estão precisamente marcados os passos da despedida de um jovem que deixa o ambiente protetor da família interiorana em busca da capital, na sequência dos versos:

 

Minha avó já quase morta

Minha mãe até a porta

Minha irmã até a rua

E até o porto meu pai

O qual não disse palavra durante todo caminho

E quando eu me vi sozinho

Vi que não entendia nada

Nem de por que eu ia indo

Nem dos sonhos que eu sonhava

Senti apenas que a mala de couro que eu carregava

Embora estando forrada

Fedia, cheirava mal/ (…).

 

 

O compositor nos apresenta a despedida, pontuando, como em um “travelling” sinestésico, as diferentes reações dos familiares, no desenvolvimento da cena do adeus, para coroar o sentimento do protagonista com a metáfora da mala que “fedia, cheirava mal”, que sintetiza de forma cristalina seu pesar e suas dúvidas.

É também de grande expressividade no plano sinestésico cinematográfico a letra de Trem das Cores. Caetano nos oferece uma paleta de tons variados que se confundem com o dégradé das sensações experimentadas ao longo da viagem do trem. O ouvinte/expectador pode se aperceber das nuances de toda ordem de sentidos ora em um plano interior, ora em um exterior; ora pela proximidade, pelo detalhe (close), ora pela distância, paisagem (plano geral). Neste caso, não nos furtamos a transcrever a letra para reavivar a memória de nosso leitor, sobretudo, porque é fundamental que se experimente ou re-experimente a movimentação, a ação contínua deste grande plano sequência, que só termina quando o trem chega à Central, onde o céu azul é “celeste , celestial”.

 

A franja da encosta

Cor de laranja

Capim rosa chá

O mel desses olhos luz

Mel de cor ímpar

O ouro inda não bem verde da serra

A prata do trem

A lua e a estrela

Anel de turquesa

Os átomos todos dançam

Madruga

Reluz neblina

Crianças cor de romã

Entram no vagão

O oliva da nuvem chumbo

Ficando

Pra trás da manhã

E a seda azul do papel

Que envolve a maçã

 

 

As casas tão verde e rosa

Que vão passando ao me ver passar

Os dois lados da janela

E aquela num tom de azul

Quase inexistente, azul que não há

Azul que é pura memória de algum lugar

Teu cabelo preto

Explícito objeto

Castanhos lábios

Ou pra ser exato

Lábios cor de açaí

E aqui trem das cores

  Sábios projetos

Tocar na central

E o céu de um azul

Celeste celestial.

 

Não só podemos observar o procedimento cinematográfico na obra de Caetano Veloso, isto é, a construção do texto que se aproxima das técnicas utilizadas no cinema (cortes, montagem, enquadramento, movimentação, etc.), percebe-se igualmente freqüentes citações ou referências ao universo do cinema. No primeiro caso, lembramos o título do álbum de 1979 que se intitulava Cinema Transcendental. Aqui, a aproximação não se estabelece por um texto de canção, mas pelo conjunto de canções reunidas no trabalho. Não se trata tão pouco de uma referência a um cinema que se relaciona com o pensamento lógico, mas a um cinema que transcende a este, que ultrapassa limites, que excede, que é de outra ordem. Cabe ao ouvinte, de certa forma, editar os fragmentos propostos nas diferentes canções do álbum; cabe ao ouvinte montar o seu próprio filme, na tentativa de encontrar o Caetano Veloso que cada um de nós construímos a partir do que ele nos propõe.

Na canção Giulietta Masina, uma explicita homenagem de Caetano Veloso à atriz italiana, esposa de Federico Fellini, um dos mestres maiores da cinematografia universal, o compositor inova ao fazer a fusão entre a homenageada e uma personagem emblemática vivida pela atriz no filme Noites de cabíria, de 1957, dirigido e concebido por Fellini. Cabíria é uma prostituta que se distingue no ambiente do meretrício por sua postura quase ingênua, singular, meio aérea, sonhadora, “puta de outra esquina”, como propõe Caetano, talvez de uma terceira margem. A personagem feliniana, por seu comportamento, por sua forma impar de ser, dialoga em alguns planos com a Macabéa, de A Hora da Estrela, de Clarice Lispector, ambas são personagens transcendentais, adjetivo que nos sugere Caetano ao intitular seu álbum aqui citado. Na canção, se constrói um constante jogo de luz e sombra, claro e escuro, que remete ao cinema preto e branco. É possível perceber que as “pálpebras de neblina” da personagem e “a lágrima negra de tinta” se contrapõem à “tela de luz puríssima” e ao “vídeo de uma outra luz” . O verso final, surpreendente, “Aquela cara é o coração de Jesus”, nos remete à suprema pureza que a imagem sugere de um dos símbolos mais vigorosos e populares da cultura cristã. Ainda no campo das fusões, Caetano cita duas de suas canções Lula,lua, lua, lua e Cajuina, esta feita em homenagem ao poeta piauiense, Torquato Neto, companheiro dos tempos tropicalistas e falecido prematuramente.

Para finalizarmos este breve painel da relação do cinema e da música na obra de Caetano Veloso talvez não seja exagerado dizer que quando nos aproximamos da obra do compositor estamos, conscientes ou não, nos propondo a ouvir cinema.

 

Fred Góes é Associado IV junto ao Departamento de Ciência da Literatura da Faculdade de Letras da UFRJ e pesquisador do CNPq.

 

 

BIBLIOGRAFIA

Antropofagia, Tropicalismo e Multiculturalismo: um trajeto. Nas Fronteiras do Contemporâneo. VILLAÇA, Nízia e GÓES, Fred (org.), Rio de Janeiro: Mauad.2001 p 94 -101.

GÓES, Fred. Música Popular e Manifestos. Tempo Brasileiro; Poéticas e Manifestos que abalaram o mundo, Rio de Janeiro, (127):161-180, 1997.

POUND, Ezra. ABC da Literatura. São Paulo : Cultrix, s/d.

 

REFERÊNCIAS WEBLIOGRAFICAS:

www.pmc.com.br/Caetanoveloso em 10/03/2013

www.caetanoveloso.com.br/discografia.php em 10/03/2013

pt.wikipedia.org/wiki/Caetano_Veloso em 11/03/2013

 

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