AS MULHERES DE JOHANNES VERMEER E O FILME MOÇA COM BRINCO DE PÉROLA

ENTRE SUJEITO E OBJETO

 

por Cristina Susigan

 

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Os estudos de obras de artes, em especial as telas de um determinado período histórico, constituem um amplo universo de informações a ser explorado. Partindo do princípio de que toda imagem conta uma história (BURKE, 2004: 175), o foco aqui se direciona para as mulheres da Holanda do século XVII pintadas em telas por Johannes Vermeer e representadas no filme Moça com brinco de pérola (2003), de Peter Webber. Além de se centrar na relação proibida de atração e desejo entre Vermeer e a criada recém contratada, Griet, esse filme examina igualmente o espaço da mulher dentro da sociedade e cultura holandesa.

As obras do pintor possuíam como tema paisagens, pinturas históricas e a chamada pintura de gênero, em suma, cenas do cotidiano, imagens de seres comuns na vida diária. Com exceção de duas paisagens de Delft, Vermeer pintou personagens femininas nos espaços domésticos. Costumava retratar as mulheres de diferentes segmentos sociais e etários, no cotidiano do ambiente doméstico com seus afazeres e modos de viver, em cenas de lazer e descanso nas casas e nos espaços da cidade. No entanto, o estilo de vida e de trabalho de Vermeer sugere que ele se valia dos membros da sua casa – sua esposa, filhas, possivelmente a criada – para figurarem nas suas pinturas.

Suas personagens incomodam e intrigam o olhar do observador. Nas telas do pintor de Delft, encontramos as representações de um artista voltado para personagens femininas. Eis o olhar de um homem lançado aos tipos femininos, habitantes do universo circundante, captando-os e transformando-os em personagens de seus quadros.

Certamente em Vermeer, através do visível, se revela e faz-se presente o invisível, aquilo que se encontra no íntimo do homem e dá significado à realidade e a cada momento da vida. Assim reside, talvez, a chave que permite penetrar no universo do pintor e sua intensa espiritualidade. Na base da sua obra se encontra, mais que um amor abstrato pela arte, o amor ao próprio ofício e, por conseguinte, o esforço por exercê-lo com a maior perfeição possível, sem perigo de monotonia.

As representações legadas pelo mestre de Delft trazem, pois, ensinamentos sobre as mulheres e seu mundo, com suas aparências e modos de ver, presentes na sociedade e cultura da época em que o artista atuou. Neste ponto, é importante destacar que, consoante os estudos das mulheres e de gênero, as masculinidades e as feminilidades consistem em produtos históricos, sociais e culturais, segundo Ana Colling: “São as sociedades, as civilizações que conferem significados às diferenças” (Colling 2004: 17)

 

Johannes Vermeer

Johannes Vermeer é considerado um dos grandes mestres da pintura do século XVII. Pouco se sabe a respeito de sua vida. Nasceu em Delft em 1632. Na época, era a quarta maior cidade da Holanda, famosa pela produção de cerâmica. Em 1653, Veermer se converte ao catolicismo (ele era protestante) para poder casar-se com Catharina Bolnes, com a qual teve quinze filhos. Além da pintura, trabalhou com o comércio de objetos de arte para tentar equilibrar as dificuldades financeiras, o que o levou a viver com a sogra, pertencente a uma família rica.

Os poucos rendimentos e a escassez da sua produção, com dois quadros por ano, em média, ocasionaram o acúmulo de dívidas, situação que se agravou com a invasão da Holanda pelo exército francês, uma vez que resultou em uma crise econômica, chegando a atingir o mercado de arte. Em 1675, com apenas 43 anos, Vermeer morreu, deixando a esposa à beira da miséria e oito filhos menores. Muitas de suas obras foram entregues como garantia para o pagamento das dívidas, motivo pelo qual suas telas se perderam. Além do mais, consta que Vermeer quase nunca assinava os quadros e quando o fazia, não era da mesma maneira.

Num período de aproximadamente vinte anos, Vermeer pintou não mais de 50 a 60 quadros, dos quais apenas 35 chegaram aos nossos dias. Poucos pintores holandeses pintaram tão poucos quadros. Neles, as mulheres aparecem quarenta vezes, enquanto os homens aparecem catorze vezes, em geral em segundo plano, sendo três vezes de costas para o observador.

A representação da mulher em suas pinturas era vista como objeto da atenção do homem. O artista – na sociedade patriarcal do século XVII – representou mulheres em seu cotidiano, dando-lhe voz e emoção: mulheres no ambiente familiar, lendo, escrevendo, vestindo-se ou envolvidas no trabalho doméstico. A mulher tornou-se o tema principal da pintura descritiva do artista, que imortalizou suas musas no tempo e espaço. Suas pinturas são narrativas sem enredo, motivo pelo qual escritores e realizadores insistem em elaborar os detalhes.

As mulheres de Vermeer são captadas com seus próprios pensamentos, autossuficientes, completas em si mesmas. Podem muito bem ser descritas como as primeiras mulheres modernas nas artes plásticas, devido ao fato de serem as primeiras a saborear o prazer da solidão.

Mulheres sós

Os pintores de gênero representaram muitas mulheres sós, as pintaram lendo uma carta, cozinhando, cozendo, fazendo música, dormindo… Os historiadores observaram nestas imagens referências expressas às virtudes domésticas: são virtuosas as mulheres que cozem ou cozinham, as que fazem renda de bilro, não as que dormem preguiçosas, mas as que leem uma carta ou fazem música. O debate sobre sua virtude ou vício poder ser grande. O que desejo assinalar é que os pintores de gênero irão repelir a representação do ícone, que resultava de um excesso de entorpecimento, pouco convincente, e tampouco deveria interpelar o espectador, eliminando o gosto pelo pitoresco. Elementos morais são introduzidos em cenas “atrativas”, pitorescas, nas quais se reconhece quem as contempla, quem atraía.

Mulheres sós, fisicamente sós, únicas protagonistas do quadro, mas também espiritualmente sós. Os artistas holandeses as pintaram em muitas ocasiões e de diferentes maneiras. Vermeer não foi uma exceção ainda que seja seu enfoque. Sua pintura se distingue pela contenção, pela concepção da imagem matizada. Todos os outros pintores terão optado por uma representação das cenas domésticas menos “ruidosas” do que o habitual. De todos, Vermeer adota uma posição mais radical.

Nos últimos anos de 1650 e nos primeiros de 1660, com exceção de Garota lendo uma Carta à Janela Aberta e A Leiteira, os quadros foram dominados por cenas com vários personagens e ações de conteúdo hedonista. O galanteio parece a nota que define essas damas que bebem com oficiais e cavalheiros, os interiores que, não sendo luxuosos, correspondem a uma burguesia acomodada.

A mulher que pega um jarro e abre uma janela está em um quarto que pode ser uma sala; a que coloca uma gargantilha de pérolas parece encontrar-se em um lugar mais íntimo, talvez um quarto de vestir; aquela que, de azul, lê uma carta, volta a estar em uma sala; a que pesa com uma balança, também está em uma sala privada… Por diferente que seja o quarto, todas estas mulheres estão no mesmo lugar e em posição muito similar: frente a uma janela – imperceptível em Mulher de Azul Lendo uma Carta, mas evidente a julgar pela luz -, destacando a proporção entre a parede do fundo, com os motivos no primeiro plano – mesas, cadeiras, tapetes, objetos sobre as mesas -, erguidas e concentradas em suas atividades. A decoração do ambiente pode variar, um mapa sobre a parede em Mulher de Azul Lendo uma Carta e Jovem com Jarro, pouco apropriado para um quarto de vestir ou um dormitório, mas adequado para uma habitação de uso comum; um espelho em Mulher com um Colar de Pérolas, com cortinas na janela, ambos os motivos também aparecem em Mulher Segurando uma Balança, atrás da qual, na parede, está pendurado um quadro de autor desconhecido com o tema do Juízo Final.

As variações são, portanto, importantes, mas, por si só, incapazes de explicar as diferenças substanciais entre estas obras. A composição é a mesma em todos os casos, com exceção de Jovem com um Jarro, no qual a figura tem uma atitude diferente e recorda mais que as restantes de A Leiteira.

Os temas são suficientemente precisos e, por sua vez, suficientemente imprecisos. A atitude da mulher que pega o jarro é completamente cotidiana, mas não dispomos de elementos suficientes para determinar com clareza a intenção da ação: deposita o jarro na bacia e aproveita para dar uma olhada pela janela? Olha a janela,  fecha, abre, vai utilizar o jarro para regar umas plantas num vaso que não vemos? Qualquer destas explicações é plausível, nenhuma manifesta. Também compreendemos a atitude da mulher que coloca a gargantilha de pérolas, o resto de sua vestimenta parece indicar que se arruma com cuidado, talvez para uma ocasião especial… Qual é o conteúdo da carta que a dama de azul lê? Seu gesto não indica nada a este respeito, apenas concentração. Está grávida ou é uma vestimenta da moda da época? E a mulher com a balança, pesa pérolas, pesa ouro ou nada pesa? Está vazia a balança? O artista teve cuidado de destacar a balança no espaço, para isto elevou ligeiramente a borda inferior do quadro do Juízo Final, que ao contrário não seria possível contemplar com clareza (a parte esquerda da borda inferior está mais alta que a parte da direita). A balança está vazia ou existe em cada prato uma moeda de ouro? O reflexo dourado pode ser efeito da luz ao recair no ouro, mas também reflexo no metal do prato vazio?

É plausível uma interpretação doméstica: uma mulher que pesa peças de ouro ou, melhor, que ajusta a balança a fim de alcançar a máxima precisão – por acaso não há moedas e pérolas sobre a mesa? – em um interior ornamentado com um quadro sobre o Juízo Final, como era adequado em lar cotidiano. E por que considerar que ambas as interpretações se põem? Por que não aceitar o que a pintura sugere? Ambas as interpretações se complementam.

Em Jovem com um Jarro, antevemos a temporalidade de sua ação, a visualidade de sua figura, a visualidade de todos os elementos que a constitui, em especial a luz. Antevemos a precisão e a nitidez, a perfeição com a qual tudo está feito, não menos que a concentração (subjetiva) da figura feminina: esta é uma mulher que nós reconhecemos, ainda não sabemos com exatidão o que está fazendo e o que está pensando, por acaso sabemos o que estão fazendo e pensando as pessoas mais próximas só de olhar para elas? Este mundo é referente de nossa vida quotidiana.

As mulheres de Vermeer

As representações de mulheres elaboradas por Vermeer estão repletas de simbologia e de significados ligados ao contexto social e cultural do pintor. Assim sendo, as figuras femininas retratadas representam a si mesmas, seu papel social, enfim, o das mulheres holandesas em pleno século XVII. Eis um traço marcante das telas do artista, a representação das mulheres como figuras solitárias ou com pouca companhia, detalhe que cria para as protagonistas das cenas, um ar de mistério e profundidade psicológica.

Vermeer privilegiou as cenas de interiores, na tranquilidade da vida doméstica, expondo a essência da vida por meio da subjetividade feminina. Uma característica essencial em suas pinturas é a forte individualização das figuras que surgem sozinhas, reclusas em seus devaneios e com expressões faciais sutis. A maioria das produções pictóricas de Vermeer privilegia a figura feminina, liberta de afetos, não necessariamente no sentido da ausência de sentimentos ou mesmo de falta de sensibilidade, mas no sentido de ocultar/revelar suas emoções ao observador.

O mestre de Delft codifica os seus sentidos, mantendo reserva e discrição das suas personagens em termos puramente estéticos, fato que pode ser uma resposta a um processo de mudança sociocultural já que a unidade familiar era vista como uma unidade de importância central. Com a divisão do trabalho, os homens se afastavam do núcleo familiar e cabia às mulheres a administração de seus lares, incumbindo-se de várias atividades.

Em suas pinturas, a marca registrada é a representação da mulher como objeto da atenção do homem. Não havia, por exemplo, crianças nos seus cenários, diferentemente do contexto doméstico da arte italiana. Ele preferia representar mulheres lendo, escrevendo, vestindo-se e trabalhando sozinhas nas atividades da casa. Repetidamente isolando as mulheres como seu tema principal, a arte de Vermeer é essencialmente descritiva. Apaixonadamente, o artista propôs um mundo não violado, autossuficiente, à parte, no qual ele existe através dessas mulheres.

Na produção pictórica deste artista, encontram-se mulheres exercendo alguma atividade introspectiva, uma forma, talvez, de escapar aos cansativos afazeres domésticos e à vida que a sociedade da época lhes oferecia.

Vermeer valoriza a figura feminina em suas pinturas – e mulher como objeto da atenção masculina, no contexto doméstico. Suas pinturas tinham características peculiares no que se refere às tonalidades das tintas, aos cenários e à luminosidade. Em suas representações de mulheres na arte descritiva, Vermeer propõe uma análise psicológica, compondo dessa forma, um mundo à parte. (Alpers 1999: 400)

A mulher nos afazeres domésticos: feminilidade camponesa

No quadro A Leiteira o artista reproduziu um instante das atividades cotidianas de uma camponesa, a qual se encontra em um ambiente bastante humilde, detalhe que se comprova a partir da observação dos pequenos buracos e rachaduras nas paredes, enfim, da arquitetura que se contempla com os objetos, itens que povoavam a decoração dos espaços domésticos e privados (a jarra, a cesta, as cerâmicas, as toalhas, o tear, as linhas) e também as peças das indumentárias dos afazeres domésticos, como os vestidos, aventais, a touca), estabelecendo a diferença entre a patroa, a mulher da burguesia e a criada. No filme, a criada Tanneke orgulhava-se de ter servido de modelo ao pintor, figurando no que era considerado até a época como sendo o melhor quadro de Vermeer.

A postura e a expressão fisionômica da mulher denotam a concentração e a tranquilidade na execução de tarefas atribuídas ao feminino. Os fragmentos visuais também desenham a intimidade das mulheres no ambiente doméstico, ao mostrar uma mulher de aparência serena na execução da ação cotidiana de segurar a jarra de leite, juntamente com a mesa, os pães e a cerâmica, banhados pela luz (que serenamente entra pela janela), compondo uma cena na qual a realidade é notória.

Vermeer pintou a mulher de notório silêncio, com os olhos voltados para baixo. Michelle Perrot (2005) observa que esse silêncio comum das mulheres, essa ausência de fala consistia em disciplina das famílias, dos corpos e da sociedade. De fato, no século XVII, as mulheres holandesas eram submissas ao pai e posteriormente ao marido, sempre absorvidas pelos trabalhos domésticos, com o cuidado e educação dos filhos. O silêncio das mulheres de Vermeer não consistia apenas na ausência de fala, mas também de expressões, gestos, uma vez que a postura dessas figuras femininas era de escuta, espera, sem queixas, sem confidências.

Mulheres letradas: feminilidade burguesa

Na obra Mulher de azul lendo uma carta, “a boca aberta e os olhos baixos revelam a abstração da leitora, que preenche o cômodo com a sua existência solitária, serena e silenciosa” (Slive 1998: 140). Identifica-se uma mulher em frente a uma janela não visível ao espectador –apenas o brilho na parede sugere a presença da luz – absorvida na leitura de uma carta. A mulher está rodeada de móveis, a mesa e a disposição das cadeiras demarcam o espaço da composição.

Embora aos olhos modernos, três ou talvez quatro mulheres nos quadros de Vermeer, como é o caso da protagonista de Mulher de azul lendo uma carta, aparentam estar grávida, há boas razões para acreditar que este não era o caso. De acordo com Marieke de Winkel, especialista no vestuário holandês, a gravidez não era esteticamente atraente. Sendo assim, como não era comum que a gravidez fosse retratada na pintura holandesa do século XVII, parece pouco provável que Vermeer tenha retratado um tema tão original como é o caso das mulheres grávidas, mesmo se levarmos em consideração as inúmeras vezes que Catharina Bolnes, mulher de Vermeer esteve grávida e a suposição de que o pintor valia-se de pessoas de sua relação como modelo.

Na Holanda do século XVII, o domínio da leitura e escrita era privilégio do qual poucas mulheres eram dotadas. Em geral, na escola, as meninas aprendiam apenas o alfabeto ou ensinamentos relacionados com atividades domésticas como, por exemplo, costurar, pois eram considerados mais importantes para a função de mãe e dona de casa, que mais tarde lhe ocupariam todo o tempo. Isso significa que certas figuras femininas de Vermeer pertenciam às famílias ricas, as quais quando desejavam o ingresso das filhas no mundo das letras precisavam contratar preceptores.

Outro exemplo, encontramos no quadro Moça lendo uma carta à janela com uma jovem absorta em sua leitura, a fisionomia tensa talvez, sua imagem refletida na vidraça da janela, proporcionando uma imagem tridimensional. A janela aberta, pintada com elementos simetricamente equilibrados, confere uma precisão na composição do espaço. Norbert Schneider ressalta que o fato de a janela estar aberta privilegia a entrada da luz, no cômodo escuro, e “noutro sentido, o desejo da mulher de alargar a sua esfera doméstica e de contatar com o mundo exterior, do qual, como dona de casa é obrigada a seguir as normas sociais, de que está extremamente afastada” (Schneider 2007: 49). Transparece um desejo de quebrar o isolamento doméstico, romper com os padrões familiares.

Essas mulheres e mães, silenciosas, solitárias eram a estrutura do ambiente familiar, responsáveis pela educação dos filhos, cabia a elas a tarefa de introduzi-los na vida religiosa. O ideal feminino da época as definiu como figuras dependentes do marido, a percepção de seus corpos estava diretamente associada às funções naturais de reprodução: a mulher holandesa do século de ouro deveria ter um corpo robusto, indício de que seria capaz de ter filhos, pois essa era a beleza admirada pelos homens da época. A indumentária também se apresenta como elemento importante da tela, ela contribuiria para a clausura das mulheres, pois além de destinadas à prisão do ambiente doméstico, elas se encontravam presas em suas roupas, longas, pesadas, apertadas pelos espartilhos e vários saiotes que dificultavam os movimentos. Portanto, as roupas contribuíam na construção da fragilidade feminina. Essas atitudes de esconder o corpo sob as roupas, associadas ao silêncio imposto pela ordem simbólica, mostram que as mulheres eram educadas para esconder suas vidas e assimilar a natureza da maternidade.

As mulheres e a música: feminilidade intelectual

A música constitui uma temática bastante explorada nas obras de Vermeer, ela também pertencendo ao cotidiano das mulheres de famílias ricas. Seis das 35 telas atribuídas ao artista abordam essa temática e em todas há a presença marcante das figuras femininas.

No quadro Mulher sentada ao virginal temos o retrato de uma jovem com trajes elegantes em cena do cotidiano. A presença do violoncelo indica a possível presença de outra pessoa. Em A lição de música, temos três personagens, a aprendiz na espineta, o preceptor e outra figura feminina, talvez outra jovem aprendiz ou a mãe observando a aula. A música, em especial a espineta, consistia em um meio de distração para as burguesas enclausuradas. Entre a jovem moça e o instrumento se estabelecia um diálogo que quebrava o silêncio. Tocar uma espineta era privilégio das moças de elite e enriquecia a educação feminina. Na escolha de uma mulher para o casamento, saber tocar espineta era uma habilidade apreciada pelos homens, visto que significava que ela seria uma esposa com dotes artísticos, os quais poderiam ser usados para agradar ao marido e para receber bem as visitas e convidados em sua casa. Temos uma clara referência desta função feminina, quando no filme, a mulher de Vermeer, toca a espineta para o deleite do artista, remetendo-nos para a educação refinada de Catharina Bolnes e a posição social de sua mãe, Maria Thins.

As figuras de Vermeer, nas duas telas mencionadas, revelam que o vestuário produzia a diferenciação das tarefas de cada sexo na sociedade. A mulher era sempre dona de um traje requintado, exagerado e sem mobilidade, fator que acentuava sua fragilidade e vida ociosa, enquanto a simplicidade da vestimenta masculina permitia aos homens a livre circulação. As mulheres de Vermeer reúnem em si todas essas questões. Desse modo, seus corpos, suas gestualidades eram vistos e apreciados pelos homens e ainda idealizados por eles. Por conseguinte, concluímos que o “ocultamento” consistia numa configuração habitual das aparências femininas e da feminilidade na sociedade holandesa do século XVII.

Da pintura ao filme Moça com Brinco de Pérola: o olhar da mulher holandesa e sua beleza expressiva

No século XVII os critérios de beleza foram incrementados com referências de etiqueta e de postura. Buscava-se o ajuste do visível e do escondido, por esse motivo havia também a insistência sobre a representação da alma, dos aspectos vindos do interior, um artifício para que a temática da expressão se intensificasse nas obras de arte. Desse modo, o rosto passa a expressar profundidade, emoções e paixões que complementam a estética dos traços até então percebidos, uma vez que na época todas as vertentes da estética se importam com as questões referentes à expressão.

Os olhos ganham destaque, pois enriquecem todos os detalhes da beleza, o quadro Moça com o brinco de pérola é uma das telas de Vermeer nas quais o olhar é enfatizado. No filme com mesmo título, para além da relação de sedução entre o pintor e a criada, o assumir de funções de aprendiz do artista, devido a sua sensibilidade para as artes, demonstra a passagem da modelo de objeto (criada e serviçal da casa) para sujeito (a personagem principal do quadro e da narrativa).

Moça com brinco de pérola é a tela mais conhecida do artista. A figura feminina retratada é uma jovem com um turbante na cabeça e brincos de pérola. Ela olha para trás, sobre os ombros, é possível que estivesse olhando para o pintor ou mesmo para quem a observava. Considerada uma das obras-primas do artista, na tela, o momento registrado é silencioso, a jovem está com a boca entreaberta, seus olhos, por vezes parecem refletir melancolia, tristeza, um brilho, cuja origem emana dos sentimentos interiores. Nenhuma palavra poderia substituir a imagem, Vermeer pintou um instante para o qual não existem palavras.

Após 1660, a evocação do olhar nas pinturas passa a ser prioritária. A qualidade e profundidade do olhar abriam as portas da interioridade e se expandiam na expressão. Além disso, não mais representavam a humildade misturada ao divino, mas a extrema beleza restrita do humano, repleta de paixões e desejos humanos. Isso significa que o rosto passa a ser considerado a parte mais bela do corpo, em função de sua identidade com a interioridade.

Moça com brinco de pérola constitui uma representação da expressiva beleza feminina a partir da evocação do olhar. Trata-se de uma categoria de beleza que confirma novos princípios da estética e da aparência, concomitantemente reforçam o abandono e envelhecimento da beleza religiosa. A beleza física inunda-se de profundidade e interioridade e Vermeer é capaz de representar essas imagens.

 

Considerações finais

É de suma importância ressaltar que a liberdade concedida às mulheres do século XVII possuía caráter condicional. O imaginário masculino criou um ideal de mulher e esposa responsáveis pelo cuidado com o lar, filhos e o marido, temerosos com a perda dessa base organizacional da família, forjaram uma liberdade a qual previa em troca a aceitação da mulher para com suas obrigações domésticas.

Nesse contexto, as representações de Vermeer para a beleza e feminilidade das mulheres holandesas revelam o olhar masculino e seu discurso como agente responsável pela representação corpo/mulher/roupa. As mulheres de Vermeer, registradas em seus lares e atividades cotidianas constituem um modelo de vida e comportamento almejado pelos homens para as suas esposas, trata-se de uma indicação, um aconselhamento de como deveriam ser para a apreciação masculina.

As mulheres pintadas por Vermeer nos permitem visualizar toda a vivência de uma sociedade dotada de forte cultura e, nesse sentido, a arte holandesa constitui um registro imagético cujas imagens revelam o naturalismo observado pelo artista. Todavia,  importa lembrar que as gravuras são carregadas de reflexões e simbologias, justamente por esse motivo nos instigam a pesquisar além das aparências.

No caso das cenas de gênero, elaboradas por Vermeer, constituem indícios da vida social holandesa, mas é possível também que possuam sentidos ocultos. Sendo assim, nossa análise referente às representações de beleza e feminilidade se constrói não apenas a partir das imagens, mas também por meio dos registros escritos e produções referentes à época.

Fator indiscutível do período em estudo é a marcante presença feminina, mesmo sob o domínio masculino, as mulheres fizeram história. Estudá-las a partir da análise das representações de beleza e feminilidade é um meio de conhecer uma pequena parte de suas vivências e imaginar através daqueles momentos estáticos, o que estariam a pensar, uma espécie de fuga ao cotidiano. Jovens, idosas, camponesas, burguesas, intelectuais, em suas telas, Vermeer as representou de modo que pudéssemos compartilhar suas vidas.

 

Bibliografia e Webgrafia

ALPERS, Svetlana. A Arte de Descrever: A arte holandesa no século XVII, trad. Antonio de Pádua Danesi. São Paulo: EDUSP. 1999.

BURKE, Peter. Testemunha Ocular: história e imagem, trad. Vera Maria Xavier dos Santos.  São Paulo: EDUSP, 2004.

COLLING, Ana. “A Construção Histórica do feminino e do Masculino” In.: STREY, Marlene, N; Sonia T. Lisboa Cabeda; Denise R Prehn (eds.). Gênero e Cultura: Questões Contemporâneas, Porto Alegre: EDIPUCRS, 2004.

ESSENTIAL VERMEER. Vermeer catalogue [online]. Disponível em: http://www.essentialvermeer.com/. Acesso em: 11 Dez. 2009

ITAÚ CULTURAL. Pintura de Gênero [online]. Disponível em http://www.itaucultural.org.br. Acesso em: 12 Set. 2010.

PERROT, Michelle. As Mulheres ou os Silêncios da História, trad. Viviane Ribeiro. Bauru, SP: EDUSP, 2005.

SCHNEIDER, Norbert. Vermeer 1632-1675: Emoções veladas, trad. Carlos Sousa de Almeida. Lisboa: Paisagens, 2007.

SCHAMA, Simon. “A Distância do Olhar [online], tradução de Clara Allain. Disponível em http://www1.folha.uol.com.br/fsp/1996/3/31mais!/11.html. Acesso em: 22 de Maio de 2011.

SLIVE, Seymor. Pintura Holandesa 1600-1800, tradução Miguel Lana e Otacílio Nunes. São Paulo: Cosac e Naify, 1998.

VERGARA, Lisa. ”Perspective on Women” In.: FRANITS, Wayne (org.). The Cambridge Companion to Vermeer, Cambridge University Press, 2001.

WINKEL, Marieke de. “The Interpretation of Dress in Vermeer´s Paintings” In.: GASKEL, Ivan; JONKER, Micheil (org.), Vermeer Studies, National Gallery Washington, 1998.

Filmografia

Garota com Brinco de Pérola (Girl with a Pearl Earring), 2003, Dir: Peter Webber. UK/ Luxembourg: Pathé Distribution.

Cristina Susigan é mestra em Estudos Norte-Americanos pela Universidade Aberta – Delegação Porto (Portugal) e pesquisadora na mesma instituição do CEMRI – Centro de Estudos de Migrações e das Relações Interculturais, coordenado por José Ribeiro. Docente do Ensino Superior nas áreas de Direito de Autor e Estudos Visuais, realiza doutorado na Universidade do Minho (Portugal) com pesquisa sobre a apropriação nas artes. Também exerce a atividade de Crítica de Cinema.

 

 

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