VIDEOCLIPE NO RECÔNCAVO

UMA CARTOGRAFIA MUSICAL

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Por Cláudio Manoel Duarte (claudiomanoelufrb@gmail.com)

A ideia é simples.

O projeto Videoclipe no Recôncavo é uma das atividades de elaboração de conteúdos da disciplina de Produção do Curso de Cinema e Audiovisual da UFRB, em articulação interdisciplinar com Oficinas Orientadas de Audiovisual e, eventualmente, com Direção. A articulação dessas disciplinas tem caráter interdisciplinar, elegendo um produto único, o videoclipe, realizado por equipes de, em média, 5 pessoas. Entendendo o Recôncavo Baiano como uma paisagem multimusical, o projeto procura resgatar esse variados, complexos e ricos gêneros, num leque que envolve desde o samba de roda e samba chulo, de distintas estéticas de grupos musicais originados do candomblé, corais religiosos, cantores românticos, filarmônicas, o reggae, poprock, rap, rock, jazz, experimental…

Produzidos 22 vídeos em apenas 3 semestres, o projeto tem como objetivo principal a montagem de uma coletânea on line de videoclipes com diferentes artistas da música do Recôncavo Baiano.

Com isso, pretende-se contribuir com o mapeamento de obras dos cantores e grupos musicais ainda com pouca visibilidade na região e fora dela; incrementar a difusão/divulgação desses artistas com a circulação de seus videoclipes em redes digitais; exercitar a produção acadêmica, em equipe, e a direção focadas na linguagem do videoclipe; e, ainda, experimentar, do ponto de vista da narrativa, as inúmeras possibilidades estéticas a que se propõe um videoclipe, como produto que dialoga com a bricolagem, com a ficção, a animação, o mush up e a documentação.

Videoclipe no Recôncavo é, ainda, uma ação extensiva, que conecta teoria e prática focada na comunidade, na relação da instituição acadêmica com o espaço “externo” em que ela está inserida (e se está inserida não é “externo”), abrindo um canal de diálogo efetivo com essa comunidade a partir da elaboração de produtos que interessam às duas partes.

Essa experiência tem a ver com os avanços das tecnologias ligadas às pós-mídias. Saímos do elemento primário do planejamento, da pré-produção, com a elaboração de um projeto executivo por equipe e por artista e mapas de produção, passando pelos processos externos (seleção de locação, gravação de vídeo, gravação de áudio – já que algumas bandas/cantores não dispunha de faixas com qualidade) e edição. Após essas etapas-matrizes do videoclipe, as equipes puderam experimentar os caminhos de aperfeiçoamento do produto, na pós-produção (com correção de cor, de áudio, aplicação de efeitos…) e, mais que isso, pensar na expansão de seus produtos em mídias sociais. Esse projeto tem como foco, no processo de difusão, as redes digitais como infra-estrutura fundamental para o produto, nas vias da exibição e do consumo. Produto local em redes globais.

Tem a ver com os avanços das tecnologias ligadas às pós-mídias, pois todas as etapas-matrizes e de pós-produção e difusão estão pontuadas pela apropriação tecnológica e pela livre difusão em redes telemáticas, em canais audiovisuais.

Uma das 3 leis da Cibercultura – a liberação do pólo de emissão – trouxe o advento importante nos novos formatos de comunicação pós-massivos: ampliação radical do que seja espaço público.

Se antes os MCMs não poderiam ser pensados como espaços públicos de ocupação cidadã/livre, já que seu pertencimento era/é unilateral e com restrição na difusão de conteúdos, os espaços midiáticos pós-massivos empoderam o cidadão comum.

Chamamos de pós-massivos, recuperando um conceito de André Lemos, por entender que que essas mídias sociais digitais remodelam a tríade mercadológica de produção, circulação e consumo. Onde a lógica um-todos cede lugar ao todos-todos, e o antigo e mero consumidor é também proprietário da emissão.

Essa é uma resposta à centralização/decisão/aprovação dos gatekeepers (selecionadores de conteúdos) dos MCMs. Aliado à liberação de emitir, o cidadão comum se apropriou das tecnologias do produção digital para poder ter domínio de veiculação de seus assuntos (pessoais ou de ordem comunitária), colocando em redes globais seus temas locais.

Essa experiencia não é atribuída somente ao surgimento da internet.

Com o Super-8, a cinematografia já havia experimentado essa liberdade, onde o fazer-cinema pode sair das esferas restritas do mainstream e entrar nas casas, ao ponto de documentar temas nadas coletivos – ou mais pessoas -, como festas de casamento. Mas foi esse mesmo S-8, a partir dessa apropriação que permitia o suporte, que possibilitou outros usos narrativos, de jornalísticos a experimentais, nas mãos de artistas do imaginário e de comunicadores – gerando novos fluxos de idéias para novos fluxos de consumidores (espaços alternativos aos canais eletrônicos dos meios de comunicação de massa).

Essa apropriação tecnológica foi radicalizada com o Video Home System-VHS, onde a produção amadora, pré-profissional e também profissional ganhavam mercados sem necessariamente pertencer à grande cadeia da indústria cinematográfica. Porém, tanto o S-8 quanto o VHS ainda necessitavam de espaços geolocalizados para contatar com seus públicos, para as vias de exibição e consumo.

A jovem produção dos videoclipes no final dos anos 80 e 90 é um exemplo dessa reconfiguração. Produto de marketing, esses vídeos eram, antes, ferramentas de gravadoras para expor e vender seus artistas. Hoje, como produto dos próprios artistas, fazem a função de difusão da música fora do mercado mainstream.

Com o surgimento das redes telemáticas e o barateamento das tecnologias de audiovisual, essa produção amadora, pré-profissional e profissional se rizomatiza em novos espaços de fluxos líquidos hiperconectados, na malha da hipermídia – ganhando e gerando novos espaços de fluxos (Castels), e ampliando o espaço público.

Videoclipes podem ser lidos, hoje, como cartografia da música contemporânea de pequenas regiões para o mundo, conectando música e audiovisual, cibercultura com comunicação.

Esse trabalho pretende, a partir da experiencia de produção de 22 videoclipes no projeto Videoclipes no Recôncavo Baiano, alimentar esse escopo – fazer esse diálogo de transversalidade da arte e seus cruzamentos.


Os 22 artistas contemplados, até agora, teve seleção feita pelas próprias equipes. O projeto tem fôlego: pela riqueza da música das cidades e áreas rurais do Recôncavo; pela possibilidade dos desdobramentos dos produtos, com exibições públicas em espaços físicos, download, produção de dvd-coletânea, remixes, reedição, incorporação em blogs e redes sociais virtuais. Foram feitos para rolar por aí…

Cláudio Manoel Duarte de Souza, mestre em Comunicação e Cultura Contemporânea/Cibercultura pela UFBA, é professor do Curso de Cinema e Audiovisual da UFRB e lider do Grupo de Estudos e Práticas Laboratoriais em Plataformas e Softwares Livres e Multimeios – LinkLivre (CNPQ/UFRB). Integra o grupo artístico Coletivo Xaréu, de arte eletrônica. Fundador e produtor cultural do Pragatecno (coletivo de djs). É dj (cada vez menos) e criador (cada vez mais) de felinos. (SOUZA, C.M.D.)

BIBLIOGRAFIA

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CORREA,  Laura Josani Andrade. Breve história do videoclipe. Disponível em http://www.portcom.intercom.org.br/navegacaoDetalhe.php?option=trabalho&id=28615

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SOARES, Thiago. O videoclipe como articulador dos gêneros televisivo e musical. Disponível emhttp://www.portcom.intercom.org.br/navegacaoDetalhe.php?option=trabalho&id=28725, em 10 de abril. de 2013.

 

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