OS DOCES BÁRBAROS

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Por Rafael Rauedys

 

“Música, resistência e transgressão”, palavras que se encontram inscritas na célula de cada um dos filmes de Jom Azulay, Rogério Sganzerla e Antonio Fontoura. Produzidos num período muito singular do Brasil, essas obras cinematográficas marcam, assim, os códigos com que a música brasileira a partir de alguns artistas como Caetano, Betânia, Gil, Gal e Rita Lee, teriam se deparado com uma obrigação “pedagógica” de acordar o povo brasileiro, disseminando a ideia de libertação dos paradigmas do militarismo ditador.

Deliciosíssimo, o filme do Jom Azulay, Os Doces Bárbaros, atinge em sua camada sonora um transe com performances e músicas altamente alegóricas, trajadas de uma defesa à cultura popular e à “margem” brasileira. O discurso engendrado com a sonoridade singular do grupo composto por Gal Costa, Caetano Veloso, Maria Bethânia e Gilberto Gil vem a calhar com todo contexto histórico de retrocessos e conjuntura política da época; emblemático, Os Doces Bárbaros atinge um aspecto de alto-afirmação a uma identidade ainda “à margem” vivida pelos próprios integrantes do grupo. Maria Bethânia em um trecho do filme, ao ser questionada sobre como enquadrar as músicas do grupo, afirma: “Sou meio à margem”, e juntamente com uma outra fala de Caetano que diz “no caso do Candomblé, é uma questão de área cultural nossa” entendemos estar no meio de um processo marginal, em que o campo de resistência se tornou a ressonância de um discurso a partir das músicas e figurinos que, apologeticamente, faz referência à religião que se encontra demarcada por “uma questão de área cultural” imbricada pela fala de Caetano.

Interessante pensar como ambos o filme trabalha com o mesmo dispositivo, a música, e como dentro dessa perspectiva há uma tentativa de imersão em todo o contexto de lutas da época, a fim de desempenhar uma ideia de como esse instrumento, que era a música, cumpria o papel não tão somente de um objeto de entretenimento, mas de engajamento e transgressão ao regime militar.

Jom Azulay cria, a partir daí, uma atmosfera narrativa para o filme que o traduz numa maravilhosa história cantada. Com pequenos intervalos para as falas dos integrantes dos Doces Bárbaros, o documentário vai se desenrolando na construção de seu discurso a partir de fragmentos retirados de entrevistas filmadas etc. e como a partir dessas as músicas dialogam e constroem de forma concreta os alicerces de seus ideais. Enfim, deleitem-se.

 

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