UM “TELEPHONE”MA

ENTRE O VIDEOCLIPE E O CINEMA

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Por Rafael Rauedys

 

– “Alô! Alô! Baby!” Bem, em 2010 eu tive o prazer de assistir uma obra cinematográfica deliciosíssima, digo – pensei um pouco-, um videoclipe deliciosíssimo de Lady Gaga, com a direção de Jonas Akerlund… Mas, um momento… Filme? Ou videoclipe? Pra mim, qual a diferença? Se eu perguntasse pra você se aquilo ali era um videoclipe cinematográfico ou um filme videoclíptico, o que você me responderia?

Falar das profundidades com que um gênero audiovisual mantem seus alicerces num modelo canônico de estrutura imagética e estética é fácil, mas se deparar com um videoclipe que diverge de suas ferramentas autônomas, não andando em equivalência com a música, subordinando-a a uma ou mais ações dramáticas, é difícil.

Discorrerei um pouco sobre o que vi para alimentar você do que eu estou falando: era uma bela manhã, Lady Gaga chegou na cadeia, estava presa… Por quê? Matou o marido no clipe “Paparazzi”, dirigido também pelo Jonas Akerlund. Ela pede a ajuda de sua amiga Beyoncé para sair da prisão. Após a saída, ambas elaboram uma chacina e são perseguidas pela polícia. O clipe continuará.

Citei mais acima “Paparazzi”, videoclipe de 2009, uma produção com mérito cinematográfico também, a música se baseando na estrutura de uma narrativa que extrapola seus acordes iniciais e finais. Nada tão inédito, o rei do pop, Michael Jackson, foi o pioneiro na execução das ferramentas de uma linguagem cinematográfica em produções audiovisuais do tipo, cito aqui, “Ghost” e “Thriller”, mas se “Paparazzi”, que manteve a mesma ousadia de “Telephone”, não obteve tantos méritos, o que teria feito o segundo algo tão singular?

 

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Tendencialmente é fácil identificar como as obras cinematográficas contemporâneas tem se destinado a trilogias para alimentar o espectador numa ânsia por um clímax que estaria um pouco distante. Lady Gaga não fica atrás nessa tendência: “Telephone” é a continuação de “Paparazzi”, e isso é um fator que já o torna uma experimentação inédita. É genial como a cantora se apropria de novas formas cinematográficas e impõe em suas obras essas estruturas a fim de redimensionar o gênero em suas produções.

Imponho a ela esse mérito de inovadora, sua ousada tentativa de aproximação da expressão e da linguagem cinematográfica faz de sua produção não um videoclipe, e nem muito menos um filme, mas um musical. A construção com que a música se deixa correr na espera de uma brecha para se declarar como promotora das imagens, é incrível, porque sendo um produto em que se divulga uma canção específica para tornar massivo seu consumo, Lady Gaga não prioriza seu instrumento chave; o clipe mantem a imagem independente das intervenções provocadas pela letra. Como o dito anteriormente, a música parece reter sua existência, funciona como um atenuador rítmico, a suspensão de um tempo narrativo, assim como ocorre nos clássicos musicais.

“Telephone”, portanto, assume com a genialidade estrutural do cinematográfico a negação do espectro de um paradigma videoclíptico, gerando uma nova forma de pensar o videoclipe como um processo experimental e de novas possibilidades, e reestruturando formas preconcebidas com o intuito de fundar uma nova ordem das linguagens, ao que, nesse ponto, me permito até chama-la (Lady Gaga) da fundadora de uma espécie de Nouvelle Vague Videoclíptica.

 

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