COBERTURA DO PANORAMA INTERNACIONAL COISA DE CINEMA – CACHOEIRA

ABERTURA

 

Por Guilherme Sarmiento

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Começarei minha cobertura no quarto branco. Estou hospedado no Identidade Brasil, na cidade de Cachoeira, e aqui, cada um dos seis quartos possui a cor de um orixá. O quarto branco é de Oxalá. Deitado na cama após uma viagem de duas horas, deixo que meu corpo relaxe sobre o colchão e que minha mente vazia comece a se abrir para que as ideias surjam como formigas se afogando em um copo de leite. Como começar? De que maneira tornar viva esta experiência de se assistir a filmes e tocar as pessoas com impressões que, se não forem proveitosas para existência das obras em si, ao menos sejam reveladoras de um estado de espírito apaixonado? Pela paixão se perdoa o assassínio e, certamente, pelo excesso de amor também se há de perdoar o julgamento torto ou a crítica equivocada. Acima da cama, o Santo, pai de todos os outros, desenhado por Suzart, artista plástico de Muritiba, olha para mim com sua cabeça cercada pela luz e o colo cheio de pássaros invisíveis.

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Este é o segundo ano em que o Panorama Internacional Coisa de Cinema divide-se entre Salvador, tradicional sede do evento há nove edições, e Cachoeira. Se em 2012 tal desdobramento exigiu dos organizadores um grande poder de mobilização, agora o esforço foi aumentado devido ao período de férias dentro do calendário da UFRB (Universidade Federal do Recôncavo da Bahia). Grande parte do sucesso da parceria entre a instituição, representada pela Professora Cyntia Nogueira, e a produção deste que é hoje um dos maiores festivais cinematográfico do estado da Bahia deveu-se à presença de estudantes tanto nas mostras competitivas quanto nas mesas de debates, consideradas por todos os participantes de 2012 como acaloradas e estimulantes para os que se prontificaram a viajar até a pequena cidade do recôncavo e apresentar seu curta ou longa-metragem para um auditório cheio. O esvaziamento da cidade universitária certamente causaria impacto tanto pela ausência do público alvo do festival, pessoas adestradas por produções com um perfil mais “artístico”, como pela resistência, sentida em outras iniciativas de mesmo porte, dos moradores de Cachoeira em aderir a um evento estranho a suas expectativas.

Na Praça da Aclamação a tela já estava montada e as cadeiras dispostas para a apreciação de A grande feira, de Roberto Pires. A abertura do Panorama Internacional Coisa de Cinema em Cachoeira seria a céu aberto. Desde 2010, no primeiro CachoeiraDoc, festival realizado por professores do colegiado de cinema da UFRB, exibir um filme em praça pública se tornou uma possibilidade de aproximação com os moradores da cidade. Esse formato de exibição, no entanto, é uma faca de dois gumes: ao tempo que insere a projeção fílmica num espaço público, deixa bem claro para os espectadores que a vida é bem maior do que o cinema e, certamente, esta evidência ostensiva prejudica a fruição das obras, pois, para a imersão total na espectatorialidade cinematográfica, as imagens em movimento têm de ser, se não um dado superior à existência, um equivalente da própria realidade. Passar A grande feira sob estas circunstâncias exigiria do filme um chamado para vida e um confronto velado com o mundo ao redor.

Perto das cadeiras, encontrei o aluno Evandro, responsável pela projeção, conversando com Adilson Nascimento, projecionista aposentado do antigo Cine-Glória, reformado pelo IPHAN no ano passado, mas aguardando ainda o resultado da disputa por sua administração, que colocou a governança da UFRB e a Prefeitura de Cachoeira em lados opostos. Seu Adilson segurava as malas contendo as clarinetas dos netos, atualmente ensaiando suas primeiras notas musicais na filarmônica, e se lembrava dos quarenta anos passados dentro da cabine de projeção como se os tivesse vivido em uma Maria-Fumaça, colocando lenha no forno e mantendo a velocidade constante para que as perfurações da película não escapulissem da grifa, queimando o celuloide e estragando o espetáculo. Conversava voltado para o prédio ainda sem uso definido, e, estranhamente, a exibição em praça pública pareceu a materialização de um espírito à espera de um retorno à arquitetura restaurada, vazia, transformada em depósito para guardar os palanques da Flica -Feira Literária de Cachoeira. A alma do cinema pairava na praça aguardando uma nova encarnação.

Sentada na cadeira com seu namorado, esperando o início da sessão, Tatiane Mateo, nascida na cidade de Cachoeira,  também tinha histórias que a levaram para o evento de abertura do Panorama. Em 1990,  fez uma participação especial na série Global Danada de Sabida, toda filmada ali. Hoje trabalhava como enfermeira, porém garantiu que, desde criança, manifestava talento para ser atriz. Ela, como tantos outros moradores, sentia-se atraída pelas oportunidades abertas pela universidade e, a presença do cinema, ao tempo que mexia com sua imaginação, denunciava  um corpo estranho ainda a ser totalmente assimilado. Alguns depoimentos são reveladores deste estado de espírito oscilante dos cachoeiranos com relação à presença da UFRB, como o dado por Hélio Rodriguez e Valdir Cardoso, o Bolão, para a câmera improvisada de meu celular:

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Depois da exibição da Filarmônica, iniciou-se a projeção, em digital, da cópia restaurada de A grande feira. Em seu livro seminal Brasil em tempo de cinema, Jean-Claude Bernardet vai dedicar um dos seus capítulos à análise do clássico de Roberto Pires, provando que se trata de um filme incontornável para se entender os dilemas enfrentados pelos cineastas do Cinema Novo. Segundo o então jovem Bernardet, um farejador voraz da má-fé pequeno burguesa, as obras do cinema brasileiro devem ser lidas como o lento despertar de uma consciência de classe, no caso, um caminho cheio de evasivas para que a burguesia, achatada e dilapidada, encontrasse a medida exata de sua alienação através de obras cada vez mais autorreferentes. O problema desta epifania sociológica construída com rigor passa tanto por sua incapacidade de encontrar a finalidade última desta autoconsciência – chegado ao fim desta busca transcendente, qual será o destino do cinema se não seu próprio aniquilamento? – como torcer as intenções dos autores para que coubessem com folga dentro desta abordagem poderosa e, como todas as construções teóricas, restritiva. Isto fica claro quando, ao se voltar para o longa de Roberto Pires, o crítico aponta Roni, o sueco, como a criatura ficcional reflexiva das oscilações burguesas, deixando para trás aspectos narrativos tão mais reveladores destas contradições de classe quanto o lugar na escala social ocupado pelas personagens.

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Um dos grandes problemas de A grande feira é ser um filme cuja coerência interna esfacela-se ao se dividir, primeiramente, entre dois casais de protagonistas e, ao final, optar por aqueles que até então ocupavam um papel secundário dentro da trama. Do meio para o final Roberto Pires deixa para trás os reais condutores da história, Maria da Feira e Chico Diabo, e, consequentemente, toda a pulsão de violência produzida pela possível remoção da Feira de Água de Meninos, para mergulhar no melodrama açucarado entre uma dondoca recém-separada, interpretada por Helena Ignez,  e seu ideal romântico, o marinheiro sueco, Geraldo del Rey. Pode-se considerar o final de A grande feira como um dos exemplos mais contundentes de anticlímax na história do cinema brasileiro. Após Maria da Feira explodir em mil pedaços dentro do mar na tentativa de salvar a vida dos feirantes e Chico Diabo ser levado preso, temos um improvável e artificioso diálogo entre os dois outros amantes sobre o futuro incerto de seu romance, alienando com sua atitude escapista toda a elaboração dramática traçada anteriormente. Esta escolha pode ser reduzida a uma “escorregada” pequeno burguesa, como quis Bernardet, porém formalmente reflete as tensões internas de um experimento cinematográfico partido por duas visões ainda inconciliáveis para Roberto Pires: sua nascente consciência social não se adequou completamente a predileção por uma temática popular, de matiz melodramática.

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Após a sessão, fiquei me perguntando se as contradições de A grande feira não seriam, muito mais do que algo compartilhado por uma geração de cineastas, o reflexo vivo dos próprios dilemas enfrentados diariamente por nós, professores da UFRB, ao implementar um projeto deste porte em um lugar tão reservado e enigmático quanto Cachoeira. A janela aberta pela iniciativa do Panorama em parceria com o Cineclube Mário Gusmão, na praça principal da cidade, ao invés de abrir um portal para o passado, devolveu à vida o assombro de uma iluminação noturna cujas ressonâncias poderiam ser o anúncio de um despertar. Subindo as escadas que me levariam ao quarto branco me perguntava de que maneira nossa presença não representava um risco, na visão dos moradores locais, tal como os depósitos de petróleo da Esso foram para os feirantes de Água de Meninos… Como nossas iniciativas são  interpretadas e assimiladas? Ou melhor ainda: será que nossas ações brotam de uma autoconsciência profunda do lugar que ocupamos?

 

 

 

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