COBERTURA PANORAMA – COMPETITIVA INTERNACIONAL DE CURTAS II

por Thacle de Souza

 

More than two hours

Mais de Duas Horas (Irã), de Ali Asgari

 

Essas instâncias políticas do cinema revelam-se oniscientes para mim. Sessão à tarde em um feriado, cidade estagnada, vazio nas ruas. Ainda assim, é possível cá no interior da Bahia desmembrar tantos elementos universais em uma captura do momento, um olhar lúcido dessa realidade enquanto desconstrução de identidades. Nessa sessão internacional de curtas, existe uma multiplicidade que se insere enquanto inscrição de acontecimentos. Entre cinco filmes, existe uma relação nuclear nas visões do corpo, da intimidade, da autonomia e, por fim, da perplexidade.

Na simplicidade manipulada de Mais de Duas Horas (Irã), dirigido por Ali Asgari, reside um apontamento sólido e insurgente, como visão de mundo, um caso excessivo da opressão à identidade feminina. Nenhum hospital aceita operar uma mulher que sofre uma consequência de sua primeira transa porque ela não portava documentos que cedessem a esse condicionamento social um lugar padrão: não ser casada oficialmente. De fato, é um filme que aponta a outros países e lugares de discussão uma realidade local questionável, o lugar e a fragilidade da mulher na sociedade iraniana. Em uma breve troca de mensagens virtuais, Ali Asgari me conta que o filme não foi enviado a nenhum festival iraniano pela certeza da recusa, mas quando assistido em Cannes, membros do governo iraniano demonstraram contrariedade e rejeição ao filme, ainda que recentemente o governo tenha mudado, tomando uma postura “mais moderada”. Se o caráter linear do filme se dilui em cortes secos ao fim, surge também um jogo do não-visto, quando a mulher que sai desesperada para ligar aos pais some, que permite ao nosso imaginário mitigar essa abordagem. Se ela pulou da ponte, se o seu corpo é uma entidade em erupção para a morte contra a censura e a humilhação, é exatamente o não-ver que nos corrói em sua ambiguidade, manifestando uma realidade tão distante, mas não irrealizada em nossa vivência cotidiana, em tempos de crise pela permanência e afirmação dos movimentos sociais, no Brasil e afora, pelos direitos da mulher.

 

Kein Porno

Pornô Não (Suíça), dirigido por Jela Hasler

 

Em seguida, um dilema tão próprio a alguns desses estudantes que permaneceram em duas semanas de férias para assistir o Panorama em Cachoeira. O filme Pornô Não (Suíça), de Jela Hasler, é uma caricatura do improvável, pelo tabu. Um filme de conclusão de sua graduação em design. Uma proposta inicial de um filme com um ator pornô (não necessariamente pornográfico) torna-se (com o sumiço do ator) um documentário com sua família sobre a intimidade, o deslocamento e a crise de seu projeto como currículo profissional. O documentário é um processo sobre o estranhamento de seus familiares acerca de sua opção de filmar o pornô (ou sobre). Às cenas em que mulheres são abordadas nuas, explícitas, cruas, não me resta senão um estremecimento desconcertante por câmeras que ficcionalizam o corpo, em uma abordagem de produto de consumo excessivo. Essas linhas que se constroem nos enquadramentos do filme refletem um olhar apurado pela formação em design, tanto no desenho dos planos quanto, ainda mais, das realidades que se contradizem: lembrar do plano de sua irmã estudante de economia que menciona um desgosto com a opção da irmã artista pelo tema, no entanto, no mesmo enquadramento do depoimento, reside o corpo de um homem fortificado pela massa corpórea que tanto fomenta a mídia do corpo e o ensejo pela insistência do prazer na forma perfeita. Em outro momento fica a imposição de sua mãe com “tabu deve permanecer tabu”, entremeios de uma autorepresentação tão incisiva que aparenta uma encenação dentro do filme. O mundo é assim mesmo. O pai disse que ficaria mais contente se o filme fosse sobre “refugiados”, será que a discussão sobre o pornô não é uma discussão sobre o corpo, em sua potencialidade política e dissidente? O que é politicamente correto deve ser o cardápio de base na dimensão estratosférica da imagem na sociedade hipermidiática, com existências cada vez mais materializadas por necessidades virtuais. Aos créditos finais do curta, a realizadora surge nua em um de seus trabalhos freelancer para custear a sua formação, como modelo para desenho. Vemos seu rosto, trechos de seu corpo, uma certa transparência quando se apresenta a voz pelo corpo nu, quando o documentário enquanto ação para a câmera revela uma outra intimidade, em contraposição à realidade catastrófica de um olhar pornográfico tornando grotesca a experiência do sublime.

Tendo alcançado o meio da sessão, surge um filme de meio – como uma marcação da temática da seleção. Domingo 3 (Alemanha), de Jochen Kuhn, despertou-me certa sonolência, e a alguns dos pouco mais de dez espectadores da sessão. Nenhum conhecido me revelou uma visão sobre o filme, tendo sido levemente esquecido após a sessão. Não obstante, a sua escolha pela animação revela um joguete de impressões e sobreimpressões para a dissolução dos personagens e da fábula que proclamam uma atenção apurada. Um homem e uma mulher que se conhecem pela internet marcam um encontro. Nesse encontro, o homem descobre que essa mulher é Chanceler. O que segue é uma desconstrução da Chanceler, como um episódio desastroso de solidão, um anti-elogio irônico ao indivíduo inserido nos sistemas de poder. Essa angústia é uma contrapartida ilusória – enquanto se ficcionalizam os quadros dentro de quadros e a invasão de uma mão amputando alguns desenhos com outros desenhos, enquanto os corpos alternam-se entre pontos de vista diferentes, tão factíveis quanto um simulacro das relações de poder e as matizes de inconsistência dos indivíduos. Tão absurda quanto melancolicamente sombria, a Chanceler desiste de viver e se joga pela janela, do térreo, residindo aturdida e muito vívida, caída na grama ao lado de fora. Um esquema cáustico que desintegra essa visão séria e distanciada das figuras do poder.

Se a política em suas várias formas reorganiza essa seleção, em Asunción (Chile), de Camila Luna Toledo, é o desconforto da repressão sexual que vem à tona. No interior de um convento, Asunción é encarregada de observar o vigia, em busca de atitudes “questionáveis”. Mas o que se segue é mais revelador quando filmado à noite, entre planos trêmulos, com uma granulação característica do digital quando sob baixa luminosidade, revelando um olhar cru e cético para que a experiência do instinto não seja mera formalidade. O desconforto é uma resposta crônica à negação de nós mesmos. Asunción se machuca na tentativa frustrada de fisicamente opor-se a um desejo latente de espírito, já que o deus dominador se revela possessivo e ditador às latências da vontade e do descobrimento carnal, pela fé que torna o feminino isolado em uma ilha, afoito, à esquiva de tubarões insaciáveis, com fome de carne, fome da verdade, uma fome arrebatadora pela insurgência do corpo como extensão do espírito a partir do amor.

Essa mesma repressão é o contrário em Terra de Meus Sonhos (Portugal/França), de Yann Gonzalez. A insistência sobre o corpo nesse cinema contemporâneo aqui se revela pela sensorialidade, como uma explosão de sentidos pela música. Uma jovem francesa dança sensualmente em troca de alguns euros, produzida e apresentada por sua mãe, rumo ao apocalipse do corpo, a performance final em uma noite de sujeitos e desejos anônimos. O pênis é uma arma fatal. A dança é um ritual intenso pela simulação do olhar que faz sentir-me um voyeur esgotado pela efemeridade presente na usurpação do corpo do outro. O orgasmo se traduz mais pela perplexidade do que pelo toque carnal como um sentido real contra o desejo reprimido.

Para mim – ainda que com uma lucidez implícita – a experiência cinematográfica atrai pela embriaguez. Não aguardo, nem aguardem, que os filmes tenham um final ortodoxo, manipulável como fábulas inconscientes do movimento e transformação da realidade. Estar em Cachoeira – interior dinâmico da Bahia – é, sobretudo, um encontro dissidente com crises metodológicas da representação desse deslocamento de posturas e abordagens. Como estudante em fins de graduação, resta-me calcular o meu lugar entre as intransigências e o tempo histórico em suas lacunas, para que o cinema possa, livremente, tornar-se uma experiência estética anárquica e reflexiva para que não passe despercebido o que, de fato, é diferente em todos nós. Estar e escrever no Panorama de Cachoeira é estar, escrever e assumir a curadoria em uma outra proposta de leitura, cada vez mais universal em que cada vez mais interiorizadas sejam as visões de mundo aparentemente distantes.

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