COBERTURA PANORAMA – COMPETITIVA NACIONAL V

 por Thacle de Souza

 

Hoje a sessão demorou para começar. O atraso se estendia desde a primeira programação, devido ao término tardio da oficina de direção de Juliana Rojas. Eu saí antes do encerramento, precisava almoçar para não perder a próxima sessão. Depois de conferir um trecho de Woody Allen na oficina (Melinda e Melinda), nos recônditos entre a tragédia e o cômico, e O Duplo, não é estranho que as reflexões sobre dramaturgia tenham perdurado durante o dia e a programação.

Colostro

 

 

 

 

 

 

 

Colostro (SP, 15’), de Cainan Baladez e Fernanda Chicolet

O Panorama segue com agradáveis surpresas e, ocasionalmente, lugares de hesitação. O festival segue a preliminar de identificar tendências recorrentes, como filmes com forte presença em outros festivais pelo país. Na sequência de hoje, um mergulho em uma espécie de terror cotidiano, factível, inserindo a dramaturgia em um lugar comum de impulso, instinto e uma fixação pela violência em sujeições variadas. Mais uma vez pensando em termos de uma associação na curadoria, uma justificativa se interpõe.

Colostro (SP, 15’), de Cainan Baladez e Fernanda Chicolet, deu início à sessão. Logo se tornou evidente o que viria a se tornar um dissabor inesgotável conforme a progressão dramática. Observei nos créditos a presença de Gabriela Amaral como assistente de roteiro, surtindo algumas relações na pré-recepção fílmica. A narrativa sustenta uma ambiência macabra nessa relação íntima entre uma mãe e um bebê. Se além de não nos serem revelados os fatos em sua completude, deixando-nos pairando irresolutos, amainando o envolvimento na relação depressiva da mãe, somos ainda levados por outras instâncias na cadência do filme. A fruição geométrica nos espaços reflete um olhar rigoroso e essas linhas rebelam uma sobriedade contra a tensão dramática que apenas progressivamente se revela. Não será por mero acaso que esses títulos apontam para um terror sugestivo. A maternidade é o mote depressor do filme, deparando-nos com essa realidade sujeita a um senso colonizado: “Ah! Que bebê mais branquinho!”, no momento de adoção.

A paleta de tonalidades em pastel, cuja inocência típica de um ambiente para bebês transborda uma contradição. Lembrar que colostro é a primeira fase de amamentação, com a saída de um líquido amarelado, repleto de proteínas – no filme, o que sai do peito é sangue. Na mãe, uma dispersão absoluta, entre visões de uma menina misteriosa e um distanciamento de seu marido. Um desencontro entre o limiar da lucidez e uma intensidade emocional beirando o absurdo.

todos esses dias em que sou estrangeiro

 

 

 

 

 

 

Todos Esses Dias Em Que Sou Estrangeiro (RJ, 20’), de Eduardo Morotó

Todos Esses Dias Em Que Sou Estrangeiro (RJ, 20’), de Eduardo Morotó, assumiu o telão em seguida. Pouco antes da exibição, o diretor nos disse que a história se passava em torno de dois personagens sertanejos (pensei que eram músicos sertanejos, porque não esperava sermos os nordestinos transvestidos todos de sertanejos para essa representação). Aquele confinamento de irmãos em um espectro preto e branco, altamente contrastado e granulado, revela um lugar muito específico de apreciação. É certo que o formalismo do filme encanta destarte. A cena no quarto onde os irmãos fumam juntos e o mais velho finda por tocar um acordeon é memorável. Uma janela a partir de uma porta quebrada, envergando esse olhar para extremidades do cotidiano. Um olhar esquizofrênico sobre a intolerância, em que consequências drásticas afundam nossas expectativas. Para o filme, o garoto quebra um prato na cabeça de um cliente que lhe provoca, em um restaurante no qual trabalha, terminando por levar um soco do irmão mais velho. Se a dramaturgia provoca certa solidão pelos personagens enquanto imigrantes em uma relação de estranhamento do ser no mundo, a narração aponta para um entrelaçamento incoerente, ainda que explicável. O irmão que se vinga do seu próprio irmão, poderia até nos ser justificável, se não passasse por uma visão tão distanciada de que no sertão as “famílias se matam e deixam o sangue escorrendo para amarelar com o tempo”, na fala do diretor. Não que não existam casos como tal, tanto quanto violência em todas as culturas, mas não é difícil aferir que essa escolha de personagens sertanejos é tão genérica quanto uma visão fugaz possa propiciar. Se bastassem apenas o sotaque e o acordeon para localizar aqueles personagens ali, mas profundamente ultrapasse um sentido capcioso que faça entender no ato que aqueles personagens ali não poderiam ser quaisquer outros, em quaisquer rotulações genéricas que os tornem comuns a algum lugar.

o lobo atrás da porta

 

 

 

 

 

 

O Lobo Atrás da Porta (SP, 100’), de Fernando Coimbra

Após alguns aplausos, retornamos à experiência de uma intensidade dramática progressiva. O Lobo Atrás da Porta (SP, 100’), de Fernando Coimbra, era o primeiro longa-metragem do dia, já aguardado pela carreira recente. O retorno a questões dos curtas anteriores era inerente à própria fábula contada. Uma incoerência sentida em sua propriedade mais violenta, explosiva e com certa independência (niilista?) dos personagens de toda a sessão. O Lobo é um filme que se permite à grande plateia cinematográfica, ansiosa por uma história de pontos bem marcados. Dirige-se a um espectador que se inclina para um cinema mais amplo, entre o comercial e as escolhas sofisticadas tecnicamente, tornando-se decerto um filme envolvente a vários daqueles presentes no festival. Leandra Leal é um destaque (que lhe rendeu o prêmio de melhor atriz no Festival do Rio), e sua apropriação na narrativa rende um forma concisa de construção de personagem, tendendo a incertezas de seu caráter e aspirações.

Um joguete de identidades narrativas inicia o filme, deslocando a recepção em diferentes pontos de vista; moldurados exclusivamente pela história que condiz às verdades de cada um, pela recorrência das grades entre os personagens, deslocando-os entre si ou unificando-os em um mesmo espaço para uma concepção do que seja comum entre eles, ambos lobos e caçadores. Essa busca do narrador se desenrola até que Rosa (personagem de Leandra Leal) evidencie todos os fatos como eles supostamente são. O que surge como uma história linear e romântica, leva a um percurso perverso em que o que se suspende entre a violência e o carinho é muito tênue para se revelar objetivamente. Após a sessão, alguns me indicaram uma recusa àquele final desconcertante. O filme se resolve em uma construção que ampara o suspense, uma insurgência dramática determinada a levar a um fim consciente de seus atos, como a certeza escancarada da ação fílmica.

Quem é o lobo atrás da porta? Esse questionamento costurou toda a programação, cuja aproximação de um cinema confortavelmente inserido na telona rende-se ao público para uma experiência compartilhada em amargura. Em Colostro restam incertezas pela dubiedade em que o filme se coloca, com um final aberto o suficiente para não me satisfazer em sua premissa, mas que reserva àquela mãe um sentido de desencontro forte o suficiente para entrelaçar frustrações (para com o bebê e para com o pai).

4 thoughts on “COBERTURA PANORAMA – COMPETITIVA NACIONAL V

  1. Eduardo

    Olá Thacle,

    Só queria esclarecer alguns pontos da sua crítica ao filme. Em momento nenhum o filme faz essa estratificação de transvestir “todos” os nordestinos como sertanejos, nem eu jamais falei isso. Primeiro porque o filme, por sí só, seria incapaz disto, é sobre só dois personagens, aí já existe um imenso recorte e esses personagens vêm do sertão do nordeste, portanto sertanejos, refletindo apenas dois modelos (dois muitos existentes) do homem de lá. Foi isso que falei.
    E segundo, também não falei que o conflito histórico entre “famílias que se matam e deixam o sangue escorrendo para amarelar com o tempo” era a justificativa para o desfecho do filme, até porque a história não é sobre isso, essa cena das camisas é apenas uma menção a esse modelo representado pelo irmão mais novo (ligado a forças mais ancestrais, animais, instintivas, à “honra” a todo custo) é uma metáfora a uma herança espiritual que ecoa até hoje.
    E essa idéia (que repito, é mais um elemento de uma narrativa que quer criar linhas subjetivas e não justificar nada) não vem de uma visão distanciada, pelo contrário, venho de um lugar assim e os personagens e situações do filme são inspirados em exemplos próximas.
    Abraços,
    Eduardo Morotó

  2. Eduardo

    Olá Thacle,

    Só queria esclarecer alguns pontos da sua crítica ao filme. Em momento nenhum o filme faz essa estratificação de transvestir “todos” os nordestinos como sertanejos, nem eu jamais falei isso. Primeiro porque o filme, por sí só, seria incapaz disto, é sobre só dois personagens, aí já existe um recorte e esses personagens vêm do sertão do nordeste, portanto sertanejos, refletindo apenas dois modelos (dois muitos existentes) do homem de lá. Foi isso que falei.
    E segundo, também não falei que o conflito histórico entre “famílias que se matam e deixam o sangue escorrendo para amarelar com o tempo” era a justificativa para o desfecho do filme, até porque a história não é sobre isso, essa cena das camisas é apenas uma menção a esse modelo representado pelo irmão mais novo (ligado a forças mais ancestrais, animais, instintivas, à “honra” a todo custo) é uma metáfora a uma herança espiritual que ecoa até hoje.
    E essa idéia (que repito, é mais um elemento de uma narrativa que quer criar linhas subjetivas e não justificar nada) não vem de uma visão distanciada, pelo contrário, venho de um lugar assim e os personagens e situações do filme são inspirados em exemplos próximas.
    Abraços,
    Eduardo Morotó

  3. Thacle

    Opa, Eduardo!

    É muito difícil assistir aos filmes e não os dispor em seu lugar de inquietude, dentro de um festival, dentro das perspectivas de leitura do filme e da representação nesses tempos.

    Veja só, essa leitura de nordestinos parte de mim e da minha associação a esse caráter de personagem! Resumidamente, parece-me que o estrangeiro sertanejo aparece tanto quanto um outro estrangeiro nordestino, ou, em muito do filme, um estrangeiro qualquer. Obviamente que não posso descartar o preconceito com aquela de Paraíba, mas é um preconceito dado que também se revela a outras minorias (de classe, raça e gênero, inclusive).

    Outra questão é que essa assimilação acerca das famílias que se matam me parece muito forte para não se permitir associá-la a um garoto que arca com a morte (ou ataque) do irmão de forma brutal e fria, ao mesmo tempo me parece que esse tipo de violência e intolerância que se quer explorar no filme poderia ser natural a qualquer um outro estereótipo de estrangeiro (na figura subjetiva, um estrangeiro de classe, etc), mas foi colocado justamente nessa figura violenta do sertão (ou do nordeste).

    No mais, alguém me perguntou se a morte foi causada por uma “singela vingança”, o que parece óbvio para a fábula, mas que gera um estranhamento dramático nessa ruptura tão radical e diferente da relação anterior entre esses irmãos.

    Abraços,
    Thacle de Souza.

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