COBERTURA PANORAMA – COMPETITIVA NACIONAL VII

por Thacle de Souza

 

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Jessy (BA, 15′), de Paula Lice, Rodrigo Luna e Ronei Jorge

Jessy (BA, 15′), de Paula Lice, Rodrigo Luna e Ronei Jorge, é sobre o processo de divinizar. Tornar diva ou divina uma mulher, como um exercício burlesco sobre a transformação. O documentário como uma fábula questionável que se permite intercalar diferentes realidades. Em Jessy, os homens-câmera surgem refletidos no espelho, transparecidos no fazer fílmico, embora interpostos como observadores (de uma realidade que eles proporcionaram). Muito se falou no encerramento da sessão sobre o processo de remontagem de Renato Gaiarsa para tornar em curta o média de 56 minutos, cuja intenção é essencialmente tirar do limbo as parcas oportunidades que o média-metragem tem nos festivais nacionais. No entanto, ali onde o filme se encerra, no impacto da transformação que ocorre com e para o filme – um close frontal em Jessy – um corte seco para a tela preta afasta-nos da assimilação completa da personagem e do triunfo do ato na liberdade. Não que a força do filme se extingua aí, há uma força muito reveladora nas personagens embutidas, na fruição dessa sensação gloriosa e lúdica do tornar-se diva e uma aceitação passional (e desafiadora) de fazê-lo com uma mulher naquele universo cintilante.

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Verona (SP, 54′), de Marcelo Caetano

Especialmente na exibição de Verona (SP, 54′), de Marcelo Caeatano, o som estava ruidoso nas vozes, prejudicando a recepção do filme. Com roteiro do próprio Marcelo e de Hilton Lacerda, com pesquisa de Leornado Mouramateus, inteiramo-nos de outros nomes presentes no festival. Debruça-se sobre um casal de homens em um retiro natural com a presença de um antigo amigo, antigo cantor, ou dublador em publicidade. Nesse mergulho bucólico e eletrônico, perdemo-nos com uma ingenuidade em vestes de conflito; enviesando o sentido cinematográfico na permanência dramática do tempo, na mudança, e para o que não torna mais: o perdido, pela consumação do tempo dos homens, na fragilidade que encontramos quando nos deparamos com nosso próprio passado e com aqueles que ali estiveram: “pô, niguém se deu bem”.

Ao final do filme, um homem ao meu lado questionou: “já acabou?”, é demasiado orgânico perceber que uma desunidade narrativa pairava em todos os filmes da sessão, como uma desintegração do resultado fílmico. Em Jessy, o fim é a própria experiência do filme encerrada abruptamente. Em Verona, há uma inversão da expectativa em conciliar absurdamente dois personagens com um adeus que se transforma em “Alô, Valter, tô indo embora. Boa festa” remixado em música eletrônica, ao passo desse personagem antes rejeitado, agora dançando totalmente entregue.

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Educação Sentimental (RJ, 84′), de Julio Bressane

Em Educação Sentimental (RJ, 84′), de Julio Bressane, o fim é a matéria-prima bruta do cinema trazida à tona, em um metaenfrentamento do acaso e do filme como moldura para si mesmo. O mito de Endimião e a Lua, em que se é “ousado pretender o amor de uma deusa”. Na desconexão diegética de Bressane, como na cena em que professora e aluno andam juntos, distantes, e o som dos passos tão próximo, deslocando-se para uma natureza extrafílmica, que se oculta pela fantasia veraz do filme. Essa irrealização nas imagens sonoras lida com traços da presença acusmática de Michel Chion, muito expoente em seus filmes como Barão Olavo, o Horrível (1970), em que o visual e o audível se confundem em camadas que enunciam um intervalo para uma reconfiguração dos sentidos. Ainda mais quando a opção pela artificialidade na encenação privilegia uma frieza ou uma perpetuação do tempo contingente naquelas caminhadas e a extensão dos planos na não-compressão do momento dramático, causando um outro tipo de envolvimento espectatorial, reminiscências dessa intervenção no pacto do espetáculo cinematográfico bastante presente nas entranhas do cinema underground brasileiro dos anos 60 e 70. Com Áurea e Áureo, há uma quantidade excessiva de inserções, trechos e narrações, inserindo aquele casal entre falsas cortinas vermelhas que repetem a cortina daquele quadro – configurando uma outra ambiência da ficção em um palco cuja forma cinemática se reorganiza na repetição de poetas antigos que “não tiveram tempo”, pois que o “mundo antigo é fora do comum”. Aqui o mar ecoa em suas ondas, enquanto ouvimos o forte endosso de um coração pulsante. O título do livro Educação Sentimental visto pela lupa: o romance de Áurea ou uma cópia de Flaubert? Lembrar da “importância no original” – o que ordena uma busca insaciável pelo que seja novo ainda que maduro em sua linguagem, pois que se “não é a razão, é o hábito que move a vida”, a práxis do cinema para Bressane reside nessa interlocução do objeto Cinema na forma Cinema, como uma parataxe que elabore a recepção do falso e do real, entre a erudição e a imaginação.

A película já é destacada peça arqueológica cujo lugar é o museu. Áurea até gosta de cinema. Mas passou. O filme passou. O cineclube passou. Embora tenha guardado a película como sentimento (memória). É aí que um fresnel aparece em cena (um ponto de luz). Quando o boom aparece para captar o som do rouxinol. Está armada a ficcionalização dos fatos. Áurea dança. Os corpos são desmembrados em máscaras cinematográficas de formas geométricas mais basilares: o círculo, o quadrado, o triângulo, em uma desconstrução de base no quadro fílmico. Cada plano toma um sentido único tanto quanto a voz de Vassourinha seja uma pintura.

Contemplar é participar, pois que o filme é uma circunferência cuja extremidade aponta para a recepção, quanto para a realização do filme, um mundo de “interesses práticos” em que o EU é uma matéria organizada ou é um vazio de estrondos? A professora dança sob a luz da lua, o menino deita isolado sob a luz da lua; que reflete andrógina, incognoscível sob ambos. Os corpos masculino e feminino contrapostos em sua força e tempo.

Ao fim, começam a surgir as cenas do backstage, a câmera vem à tona, o diretor vem à tona, os atores aparecem sem recursos – em um destrinchamento atômico do cinema. Uma desorganização daquele esquema incipiente, sadicamente proposto como um almanaque referencial. Satisfaço minha curiosidade em assistir Bressane mais uma vez, já tendo esperado uma proporção enigmática de sua obra, linear e suspensa, etérea, não normatizando a característica íntima do cinema em sua fragilidade ou vileza na representação e na forma.

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