COBERTURA PANORAMA – ENCERRAMENTO

por Thacle de Souza
Encerramento 01
Quarta-feira, noite. O Panorama Cachoeira encerra um dia antes que em Salvador. Os tambores ressoam em batuques incessantes, muito alto. Djalma sentado com óculos escuros e um cigarro na mão. Marcelino canta e dança com uma energia invisível em torno de si. Chega Mãe Iná como a deusa da praça – todos personagens recorrentes dessa conjuntura de ativismo independente ao ar livre em Cachoeira. O canto do terreiro ecoa pela praça na manifestação do candomblé, recorrendo à rua como seu lugar de direito. Assim encontramos a Quarta, onde questionei-me durante parte de minha formação sobre a dimensão do sagrado que não prevalece na academia; na consagração da resistência afrodescendente em nossa vivência e constatação da consciência de diferença nos espaços sociais urbanos. A noite inicia com o toque das nações, a exibição é na Praça Teixeira de Freitas, durante a noite da Quarta dos Tambores. Para mim é um lugar muito típico. Frequentei a idealização com um projeto audiovisual de quase dois anos (com meus parceiros Augusto Bortolini e Poliana Costa, além da participação de Emerson Santos em alguns momentos), um laboratório de vídeo, música e espiritualidade.Não à toa, a exibição trouxe um universo muito localizado para o encerramento. Começando por alguns teasers de Anikulapo, de Pedro Rajão, um projeto de documentário em longametragem sobre Fela Kuti e sua música libertária, para uma expansão da articulação política, a ser lançado ainda em 2014. Entrevistados estão desde Seun e Femi Kuti, Tony Allen e Mulatu Astatke a Gilberto Gil, com material filmado na raça há anos. Com um esquema organizado em torno da economia colaborativa, conseguiram arrecadar um baixo custo (menos de R$ 30 mil) para a viagem à Nigéria (a convite de Seun Kuti, filho de Fela) e finalização do filme. Uma estratégia concisa e bastante econômica em seus valores, dando origem a um material rico e carismático por essa celebração em torno do movimento afrobeat, sua representação cultural e política, e na valorização das tradições africanas. Em depoimento, o realizador torna à questão de nos voltarmos ao nosso próprio país na resistência contra a ideia propagada de democracia racial. Kologbo finaliza um dos teasers: “O seu DNA é da África. A África é centro do mundo. É o movimento do movimento. Acredite ou não, agora é o futuro!”

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Em seguida, Odu, de Cyntia Nogueira (professora da UFRB e gestora do Cineclube Mário Gusmão) e Evandro de Freitas (aluno e projecionista-crítico do festival em Cachoeira, figura de embate pontual na mesa de bar do encerramento). Um curta documentário sobre o ator Mário Gusmão. O filme faz parte de um projeto de box de dvds com 43 curtas baianos, com a publicação de críticas (onde até eu tenho uma mão) das exibições do Cineclube Mário Gusmão, projeto de extensão da UFRB. A figura do Mário é muito icônica nesse sentido, já que ele é cachoeirano e até há pouco isso não era do conhecimento de todos. Exibir na praça acarreta uma integração maior e um lugar de intervenção, embora esteja rodeado de interferências externas. Assisti ao lado do mixador, Thiago Logasa, preocupado com algumas sequências ainda não-finalizadas – motivo esse que não desanimou a recepção do público em sua totalidade. Ter Mário ali, destrinchado por amigos do cinema e do teatro, com respeito à causa. Ao fim da sessão, Cyntia Nogueira e o ator Jorge Washington sentaram-se ao lado de Alder (apresentador da Quarta dos Tambores) para um debate sobre o filme, discorrendo tanto sobre a história de Gusmão, como sobre a situação atual de Jorge no teatro, realidade de ator negro na disputa por espaço para sua imagem. Mário, ao contrário de Antônio Pitanga, que mudou para o Rio de Janeiro, permaneceu na Bahia, fazendo forte presença na formação dos blocos afro e de atores e atrizes negras, tendo vivido um episódio rigoroso nos anos 70, preso por tráfico de drogas em uma articulação por trás de jovens brancos e suas famílias de alto escalão, findando em rejeição de uma sociedade racista, ainda perpetuando esses velhos locais da estigmatização social.

Panorama na Quarta dos Tambores 1 (foto Maiana)
Parte da equipe Panorama Cachoeira (fotografia: Maiana Brito/Quarta dos Tambores)

Cachoeira nos abriga pela linguagem como intermediação de discursos e de experiências estéticas. Nosso corpo se metamorfoseia em urgências e reconfigurações de sentido, aqui e agora. O cinema deve ser pensado em longo alcance, as hipermídias estão aí, os hyperlinks se fazem a todo momento, o pensamento se distribui acelerado – pensar e filmar os conflitos – intimamente ligado à cidade, à relevância desse panorama nas ruas e nas interações em Cachoeira, para o que se faz, pensa e se espera daqui, revigorando as forças para além do lugar de conforto, no cinema e no comportamento.

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