COBERTURA PANORAMA – TATUAGEM, LIÇÃO DE ESQUI E POUCO MAIS DE UM MÊS

Por Guilherme Sarmiento

A primeira sessão da Mostra Competitiva Nacional do 9º Panorama Internacional Coisa de Cinema prometia, e essa promessa atraiu um número significativo de espectadores para o auditório do CAHL (Centro de Artes, Humanidades e Letras da UFRB). Aos poucos as cadeiras foram sendo ocupadas por estudantes, turistas de passagem pela região e alguns moradores curiosos com o movimento em torno da antiga charutaria reformada e transformada num Centro de Ensino Superior. Os filmes programados para o dia vinham impregnados pelo incenso da crítica e, conforme acumulavam prêmios nos festivais por onde passavam, adquiriam o peso das obras consagradas. Tatuagem, de Hilton Lacerda, assim como o curta Lição de Esqui, de Leonardo Mouramateus e Samuel Brasileiro, foram os grandes vencedores do festival de Gramado e Brasília, respectivamente; Pouco mais de um mês, de André Novais, saiu do último festival de Cannes com uma menção especial. As expectativas sentidas na noite eram muito próximas das geradas pela aproximação de uma onda: no dia anterior, Salvador sofrera o impacto destas obras e os rumores de uma sessão lotada chegaram até Cachoeira, excitando bastante os ânimos para o que estava por vir.

Uma das marcas do Panorama Coisa de Cinema, consolidada nesta quase uma década de experiência, é a atenção extrema de seus curadores com a seleção dos filmes e, principalmente, com a busca por uma coerência interna durante a levada de toda a programação. Obviamente a presença de cineastas brasileiros cada vez mais coerentes e articulados em torno das mesmas “premissas” dramáticas ajudou bastante no encontro deste formato, porém quando sentamos para assistir qualquer uma das sessões deste importante festival de cinema brasileiro, sejam as mostras competitivas ou as mostras nacionais, percebemos ali uma fonte criativa intercalando racional e desinibidamente os itens do cardápio: da entrada à sobremesa, somos seduzidos pela ordenação dos pratos. É como se Cláudio Marques e Marília Hughes, casal responsável pelo evento, considerassem esta etapa aparentemente técnica, fria, como um elemento a mais para a apreciação intelectual, uma camada a mais para se elaborar possíveis leituras e, com esse ato de juntá-las, transubstanciar as películas em um conceito suspenso e instigar a atenção do público apoiando uma estrutura formal sobre a outra. Quando se analisa os três filmes programados para iniciar a mostra competitiva, por exemplo, podemos perceber que a vizinhança entre eles potencializou suas qualidades e também evidenciou seus defeitos.

Lição de esqui

Lição de Esqui, 2013, Leonardo Mouramateus e Samuel Brasileiro

Avaliando os filmes em conjunto, o que a curadoria, nesta sessão específica, deixou evidente foi um aspecto bastante reiterativo da dramaturgia contemporânea em apontar sempre para outro lugar, geralmente um lugar não acessível para o espectador, enquanto a cena principal se desenrola e, muitas vezes, a ação apontada tem uma importância mais crucial para a história do que propriamente aquilo que está se mostrando na tela. Em Lição de esqui, o atropelamento motivador do “golpe” detalhadamente planejado pelos dois amigos é narrado duas vezes, sendo uma delas diretamente para o espectador, exigindo uma reconstrução puramente mental de um fato que, visualmente, não ocorre. Estes artifícios narrativos ganham nuances fantasmáticas em Pouco mais de um mês, um passo a frente na carreira do mineiro André Novais. As imagens, assim como o som deste seu novo filme, parecem ricocheteados de outro lugar e, com isso, nada que a penumbra do quarto deixa entrever parece estar realmente ali. Não sabemos, inicialmente, se as vozes das personagens partem de seu lento despertar ou de um off nativo de outras regiões, solto no espaço sem materialidade e em corpos estranhos encontrando seu pouso provisório. Novais conseguiu o feito de produzir uma síntese visual para se compreender este aspecto de sua obra, também presente em seu curta anterior, Fantasmas: a projeção invertida da rua, filtrada pelas cortinas semicerradas do cômodo, traduz muito bem essas inquietações com as camadas de tempo que se dessincronizam para abrir uma brecha, talvez uma ferida, no presente.

Pouco mais de um Mês

Pouco Mais de Um Mês, 2013, André Novaes

Prosseguindo com estas observações comparativas, chegamos ao principal filme da noite: Tatuagem. Se nos curtas estas disjunções narrativas conseguiram estabelecer um princípio formal, talvez pelos 20 minutos de duração, aqui sua experimentação produziu certos desníveis na carpintaria dramática que tornaram pontos que deveriam ser altos em sumários verbais, vitimados por certa resistência em reproduzir padrões clássicos narrativos. Hilton Lacerda, um roteirista que, como poucos no Brasil, se tornou um autor de cinema antes mesmo de dirigir um filme, ao enveredar pelos jogos do que se deve ou não ser mostrado diminuiu a força determinante de alguns personagens e impediu a contextualização da história, talvez por achá-la redutora de ações impulsionadas por uma energética atemporal, dionisíaca. Recife resultou apagada diante do desbunde colorido, performático e idealizado pela utopia sexual pré AIDS. Neste filme específico, de intenções épicas e cronologia linear, estas escolhas produziram, ao invés de lacunas a serem preenchidas pelo espectador, buracos que, primeiramente, se condicionaram pela recusa de se mostrar o obvio para, em seguida, se firmarem como diálogos atenuantes de uma falha.

Tatuagem

Tatuagem, 2013, Hilton Lacerda

São inúmeros os exemplos das consequências negativas desta recusa em narrar presente em Tatuagem, sendo a mais grave delas a falta de aprofundamento do conflito de Fininha, cuja dramaturgia fora completamente tragada e anulada ao se colocar sobre a influência de Clécio Wanderley, diretor da trupe de teatro, interpretado soberbamente por Irandhir Santos. Mesmo defendido com grande competência pelo novato Jesuíta Barbosa, Fininha não consegue se materializar como uma personagem autônoma. Sabemos que ele tem uma namorada, porém praticamente não o vemos com ela e, mesmo o término de seu namoro, ao invés de desenvolvido plenamente, reduz-se a uma simples fala – várias situações do filme são faladas e não mostradas – sem importância dentro de um mundo onde a sexualidade livre tornou tabu qualquer possibilidade de conflito. O ambiente opressivo do quartel deixa de oferecer um interessante contraponto para a boate Chão de Estrelas: atrofia-se até ser uma mera tomada fechada e opressiva de baionetas dentro de uma caminhão, perdendo sua substancialidade motora. Parece que o diretor, ao se ver cercado pela belíssima reconstrução cenográfica da casa de shows de Recife e por atores maravilhosos, entregues plenamente a seu papel, se esqueceu de atentar com mais rigor sobre as outras ramificações prometidas pelo drama.

Independente de suas peculiaridades ou eventuais deficiências, não há dúvidas de que a primeira sessão da Mostra Competitiva do 9º Panorama Internacional Coisa de Cinema trouxe fortes candidatos ao prêmio principal. Talvez o juri opte por premiar outras obras tão instigantes quanto as apresentadas na noite de sábado por considerar estes filmes suficientemente reconhecidos e, com seu ato, abrir uma janela para o novo. E cada ano que se passa vemos que o desejo pelo novo não se constitui unicamente pelo ímpeto de realização, mas também pela construção de um circuito desejoso por novas experiências cinematográficas, como aquele em que o Panorama com tantos méritos faz parte.

Abaixo um pequeno depoimento do cineasta cearense Leonardo Mouramateus, que esteve em Cachoeira para apresentar o curta Lição de esqui.

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