DO PALCO À TELA: ESPAÇOS DOS INTÉRPRETES DA BAHIA

 Por Raimundo Matos de Leão

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É digna de destaque a projeção dos atores e atrizes baianos no cinema, televisão e teatro, este último considerado o lugar a partir do qual se tornam profissionais. De imediato, a afirmativa remete aos nomes de Wagner Moura, João Miguel, Lázaro Ramos, Vladimir Brichta – mineiro de nascimento, mas baiano por adoção – , e Bertrand Duarte. São artistas que ocupam as páginas das revistas, mas, sobretudo, demonstram com seus trabalhos qualidades de intérpretes.

Esta adoção indica a qualidade dos intérpretes advinda da formação, e se dá de duas formas: através do aprendizado sistematizado numa escola, lugar de preparação ética e estética dos atores e atrizes, ou nos palcos, uma tradição ainda permanente no teatro, bem como em outras linguagens da arte.

A opção por um curso deinterpretação para o teatro ou o cinema não invalida o aprendizado na ribalta, situação em que um ator/atriz em início de carreira acompanha de perto um profissional veterano no desempenho de suas funções. Tanto a escola, espaço formal, quanto o palco/bastidores, espaço não formal, educaram e lançaram artistas de qualidades técnicas e expressivas inegáveis. Outro lugar de aprendizado se dá nos coletivos, o chamado grupo de teatro, possibilitador do desenvolvimento interpretativo de seus participantes.

No caso da Bahia, mais especificadamente de Salvador, a Escola de Teatro, espaço da Universidade Federal da Bahia, cumpre a função de formar atores e atrizes desde a sua criação, nos idos de 1956, quando passou a existir conduzida artística e administrativamente por Martin Gonçalves, seu primeiro diretor até 1961. A trajetória da instituição, ainda que tenha enfrentado momentos adversos, marca com suas atividades o cenário teatral da capital baiana. Seu currículo, sendo alterado ao longo dos anos, não conta com componentes direcionados à interpretação para o cinema ou para a televisão. O aprendizado se dá no palco para o palco, espaço aberto desde as grandes transformações da cena por volta da primeira metade do século 20. O ensino direcionando para o palco não impediu nem é impedidor para a atuação em outros meios, como prova a presença das atrizes e atores em filmes produzidos no contexto baiano ou fora dele, bem como nos produtos televisivos.

Acompanhando-se a história do teatro na Bahia nos cruzamentos com o cinema constata-se a presença marcante de atores da terra em seus elencos. Projetados no palco, logo foram atraídos pelos diretores em busca de intérpretes que respondessem às suas necessidades estéticas. Numa retrospectiva panorâmica ver-se-á que a geração que se encarrega de produzir o que se nomeou de Ciclo Baiano de Cinema escala para os seus filmes os intérpretes conhecidos dos palcos da Escola de Teatro ou egressos dos grupos amadores. Em Redenção (1959) de Roberto Pires, temos Geraldo Del Rey e a figura conhecida de Milton Gaúcho, originário do teatro amador.

Del Rey, estudante da Escola de Teatro e presente nos diversos espetáculos encenados por Martin Gonçalves, constrói sua carreira cinematográfica a partir dos filmes realizados na Bahia no final da década de 50 e na seguinte, dando-lhe a possibilidade de desenvolver a carreira no eixo Rio-São Paulo, tornando-se conhecido nacionalmente O ator participou não somente das produções locais A Grande feira (1961) e Tocaia no asfalto (1962), mas daquelas filmadas em Salvador, aproveitando-se o contexto cultural em função da temática – Sol sobre a lama (1963). Nestes filmes, o ator demonstra suas qualidades de intérprete bem como sua fotogenia, explorada com bastante atenção pelos diretores, como fez Roberto Pires em A Grande feira, filme em que Geraldo Del Rey desempenha um marinheiro sueco muito bem caracterizado. Já em O Pagador de promessas, de Anselmo Duarte, baseado no texto teatral de Dias Gomes, o diretor valoriza com bastante propriedade o physique du rôle do ator no papel de galã, resultando em um atuação exemplar.

Em Deus e o diabo na terra do sol (1964), magistral criação épica de Glauber Rocha, Geraldo Del Rey alcança uma dimensão maior como ator, criando o personagem do vaqueiro Manoel com base nos princípios de Constantin Stanislavski, vivenciados na Escola de Teatro. É marcante a cena em queele sobe a escadaria de Monte Santo com uma pedra na cabeça. A sequência revela a entrega do ator, bem como a compreensão da linguagem do cinema, lugar em que a interpretação é mediada pela câmera. Grandiosa, sem exageros, o ator dá credibilidade ao misticismo do personagem. A interpretação de Geraldo Del Rey, bem como de todo o elenco afina-se com a concepção dramatúrgica glauberiana. Neste lugar se destacam a atuação da atriz egressa da Escola, Sônia dos Humildes, que teve poucas oportunidades no cinema, decorrendo daí que não podemos apreciar a extensão do seu talento. Há também a excelência de Lídio Silva, ator sem formação específica, mas sempre em sintonia com os personagens que representou nos filmes.

Outros colegas de Geraldo Del Rey na Escola de Teatro estiveram presentes nas telas: Antonio Sampaio, conhecido também como Pitanga (Barravento, 1961), Mário Gusmão e Leonel Nunes (Caipora, 1693), entre outros. São atores inegavelmente carismáticos, com marcantes atuações.

Em meio a um número expressivo de intérpretes, destaca-se a marcante personalidade do ator Othon Bastos. Tendo iniciado sua vida teatral no meio estudantil baiano, Bastos desenvolve sua capacidade interpretativa no Rio de Janeiro, no interior do Teatro Duse, uma iniciativade Paschoal Carlos Magno. Em seguida, ao retornar paraSalvador em 1956, passa a integrar o elenco de marcantes encenações da Escola de Teatro, até sua saída com o grupo de alunos responsáveis pela criação da Sociedade Teatro dos Novos e construção do Teatro Vila Velha. Neste espaço, imprime em suas atuações a forte marca brechtiana, visível também em sua interpretação de Corisco no filme Deus e o diabo na terra do sol, consagrando-se como um dos grandes atores do cinema brasileiro. O trabalho de Othon Bastos insere-se na dramaturgia, tanto pela direção de Rocha quanto pelo entendimento que o ator tem do personagem, destacando-se a cena em que ele é Lampião sem deixar de ser Corisco, um artifício que remete ao distanciamento proposto por Brecht. A estreia de Bastos no cinema é em Sol sobre a lama de Alex Vianni (1962). O ator é visto também em O pagador de promessas (1962).

Mas nem só de atores vivem as telas do cinema feito na Bahia. Tanto as atrizes de ontem quanto as de hoje se destacam com atuações preciosas, pois se inserem na poética cinematográfica ajustando-se a ele. Mesmo ocorrendo o risco de deixar muitas delas na sombra, nomear figuras marcantes se faz necessário. Helena Ignês, Jurema Penna, Maria Adélia, profissionais de formação teatral, singularizaram com suas interpretações os filmes do Ciclo Baiano, ou produções que escolhem a Bahia como locação. Em Dona Flor e seus dois maridos e Memórias póstuma de Brás Cubas, Nilda Spencer se faz presente, com segurança e desenvoltura. Recentemente, Rita Assemany, uma atriz de teatro, destaca-se em Abril despedaçado (2001), de Walter Salles.

Retornemos aos nomes citados no início do texto: Moura, Brichta, Ramos, Duarte e João Miguel. Projetados recentemente, estes atores constroem sólidas carreiras, mais constante na televisão e no cinema, não deixando de lado projetos teatrais. Explorando os personagens que lhe são confiados, os intérpretes transitam com bastante firmeza em chaves diversas, algumas das quais condizentes com physique du rôle, sem que se prendam a um tipo, numa demonstração da versatilidade, como se vê em Elysium (Spider), Tropa de elite (Capitão Nascimento), Cidade baixa (Naldinho), O Caminho das nuvens (Romão), filmes e personagens em que Wagner Moura explora seus recursos de ator, assim como em Serra pelada (2013), demonstração detalhista na construção do personagem.

O mesmo se pode afirmar das atuações de João Miguel em Cinema, aspirina e urubus (Ranulpho), Xingu (Cláudio Villas Boas), À Beira do caminho (João), filmes em que vive personagens diversos e de forte carga dramática, em harmonia com o argumento e a mise em scène. Bertrand Duarte, revelado Superoutro, tem no filme de média-metragem o trampolim para protagonizar Alma Corsária, do paulista Carlos Reichenbach. Entre outros trabalhos, Duarte demonstra familiaridade com as câmeras e marca com bastante intensidade a individualidade dos personagens.

O recente A Coleção invisível, apresenta Vladimir Brichta numa convincente interpretação de Beto, personagem atormentado pela perda de amigos num desastre, às voltas com a compra de uma coleção de gravuras. Com sua atuação, Brichta afasta-se do registro cômico no qual fez sucesso na televisão. Mostrando de forma interiorizada o drama do personagem, o ator contribui para a densidade das situações, aproximando-as do espectador, superando algumas pequenas falhas do roteiro. Formado pela Escola de Teatro e com trabalhos significativos na cena, o intérprete demonstra transitar do palco à tela com bastante familiaridade, embora o cinema não tenha lhe dado ainda oportunidades mais desafiadoras.

Lázaro Ramos comprova um fato inegável: o cinema brasileiro, e por extensão o baiano, valorizou atores e atrizes negros, dando-lhes destacados papéis em suas produções. Ramos, como seus companheiros de geração, mostra familiaridade com o jogo cinematográfico, bem diverso da ação no palco, no qual a presença viva do ator diante de uma plateia é de outra ordem.

Nos trabalhos cinematográficos que realizou sem uma formação específica, Lázaro Ramos domina com bastante maestria os personagens que lhe foram confiados em Madame Satã (João Francisco dos Santos, a Madame Satã), O Homem que copiava (André), Meu tio matou um cara (Éder), nos dois últimos fugindo dos personagens estereotipados que marcaram a presença de atores e atrizes negros. Pelo que se viu na tela, neste e em outros filmes, o ator elabora seus personagens no trânsito entre a interpretação teatral e a cinematográfica, conferindo aos personagens a necessária densidade realista para fazer com que o espectador passe a acreditar no que vê.

Diferentemente do cinema, o ator de teatro sabe que a cada apresentação o espetáculo renasce. O ator, ainda que tenha ensaiado e tenha domínio sobre o que é representado, age no aqui e agora, o que torna o ato teatral cercado de certa imprevisibilidade, um fator que não se coaduna com o filme, visto ser editado e montado de forma a garantir a unidade interpretativa conseguida no set de filmagem.

Ainda que as cenas filmadas não ocorram em ordem cronológica, o ator, diante da câmera, necessita de um domínio para vencer as dificuldades da fragmentação inerente ao processo de filmagem. Por ser outro meio, o cinema impõe uma interpretação mais contida, exigindo sutileza por parte do intérprete. Deixando de lado a impostação teatral, mas sem renegar o aprendizado no palco, é como se o artista deixasse de “representar”. Ainda que o personagem defina-se como um ser exacerbadamente espalhafatoso, espera-se que a composição encaminhe-se para a sutileza.

Por vezes, as técnicas teatrais atrapalham atores inexperientes quando diante das câmeras. Não é o caso dos artistas baianos. Tanto os novos na profissão quanto os da geração que participaram do Ciclo Baiano de Cinema agiram com desenvoltura, considerando-se a complexidade da prática cinematográfica. Atuando na chave realista, os artistas deram vida a personagens cômicos ou dramáticos, populares ou burgueses, revelando os traços de sua condição social, bem como os psicológicos, mostrando a emoção adequada à situação exigida pelo drama e capacidade de absorver as indicações do diretor. O potencial expressivo de um ator ou atriz precisa da ação do diretor. Atualmente, os diretores contam com profissionais responsáveis pela preparação dos intérpretes adequando-os aos papéis, principalmente os mais inexperientes ante os procedimentos cinematográficos. No entanto, o papel do diretor é de extrema importância, visto que o filme é a realização de uma concepção e terá a sua assinatura. A ação do diretor deve ser atenta no sentido de controlar o desenvolvimento dos intérpretes em função da descontinuidade das filmagens, garantido a unidade necessária à totalidade de sua concepção.

Não se afirma aqui que os atores formados no palco adequam-se ao trabalho no set de filmagens sem correr riscos como o da superatuação ou de se perder diante do aparato. Em meio à parafernália mecânica do estúdio, às diversas intervenções da equipe, da repetição das cenas para posicionamento da câmera, o intérprete deve conservar a sua humanidade, como indica Walter Benjamin (2012). Ao afirmar sua humanidade, o intérprete passa por um teste, afirmando-se diante da aparelhagem posta, então, a serviço do seu trabalho. Ao tirar proveito da tecnologia o intérprete evidencia as suas qualidades.

Um fato é sabido: o domínio das técnicas de criação de personagem pelos diversos métodos ensinados nas escolas de teatro contribui para uma maior segurança na composição do papel. Os atores mencionados no texto são a prova de que o palco e a sala de aula representam lugares de aprendizagem de técnicas e de “refinamento” expressivo, elementos que serão incorporadas à dramaturgia fílmica, ajustando-se às intervenções da equipe técnica, principalmente do diretor, do fotógrafo e mais tarde do montador. À medida que desenvolvem suas capacidades, os atores e atrizes tornam-se queridos dos diretores, admirados pelo público. O público torna-se responsável por cultuá-los, transformando-os em mito, fator que desemboca na espetacularização da vida. Cabe ao intérprete manter a sua humanidade para não cair na armadilha de tornar-se mercadoria.

Raimundo Matos de Leão é Doutor e Mestre em Artes Cênicas, escritor e dramaturgo. Professor da Escola de Teatro da UFBA, membro do DRAMATIS. Autor de Abertura para outra cena, o moderno teatro na Bahia e Transas na cena em transe, teatro e contracultura na Bahia (EDUFBA).

REFERÊNCIAS

BENJAMIN, Walter. A obra de arte na época de sua reprodutibilidade técnica. Porto Alegre: Zouk, 2012.

CARVALHO, Maria do Socorro Silva. A nova onda baiana: cinema na Bahia (1958-196). Salvador: Edufba, 2003.

KUSNET, Eugênio. Ator e método. São Paulo: Hucitec, 2003.

SILVA NETO, Antonio Leão. Astros estrelas do cinema brasileiro: dicionário de atrizes e atores. São Paulo: A. L. Da Silva Neto, 1998.

NIKITA, Paula. Voo cego do ator no cinema brasileiro: experiências e inexperiências especializadas. São Paulo: Annablume, 2001.

SETARO, André. Filmografia do cinema baiano. Revista da Bahia, Salvador, n. 26, p. 44-57, dez. 1997.

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