JAMES BENNING E O COMENTÁRIO À TECNICA EM 13 LAKES (2004) E RR (2007)

 

por Luís Mendonça

 

 

benning

I like walking, and I like the way you feel when you’re in a landscape, the way you can measure yourself against landscape, the way landscape puts you into a proper perspective.

 

James Benning[1]

 

1.     A técnica como “ritual da aparição”

 

O que procurarei, desde já, analisar em James Benning é a forma como a tecnologia “se intromete” na paisagem não tanto num sentido “desfigurador”, mas mais como pura entrada em campo ou aparição que auto-comenta a ironia que assiste, hoje, em tempos de desmaterialização do nosso mundo, a todo e qualquer indício da passagem humana. Como se o seu cinema materializasse o acesso a um olhar da Natureza sobre o mundo humano, dizendo-nos pela simples manifestação deste último quão vão, impositivo, sobranceiro e até desprezível é o modo como se faz presente, isto é, o modo como se “põe em cena”. Um problema físico, metafísico ou um problema puro de mise en scène?

 A resposta, que tentarei fundamentar, passa por dizer sim às duas hipóteses, mas começando por dar especial atenção àquilo que talvez seja menos óbvio: os filmes de paisagens de Benning respondem aos problemas do mundo tanto quanto respondem aos problemas do cinema. E quando digo “respondem” digo “reagem”, isto é, não se limitam à fórmula das obras-postais com imagens bonitas de locais exóticos, paraísos terrestres para consumo doméstico (o “sair de casa cá dentro” de todas as salas de cinema deste mundo); não, digo “agem” e de forma continuada sobre a nossa percepção do mundo. Trata-se menos de uma contemplação que de uma contemplação, leia-se, um cinema que pela afirmação do projeto-paisagem (= de uma paisagem projetada na tela) faz da contemplação sobre a mesma a fonte da sua ação crítica (= política).

O fato de se apontar uma câmara para uma paisagem significa, no cinema do americano, a produção de um sentido que invariavelmente desfecha num problema inerente não ao fato-paisagem mas ao fato de “se estar a filmar uma paisagem”, isto é, ao “por quê” desse ato que, com a constituição de uma história do cinema e a formação dos primeiros estudos fílmicos, foi roubando inocência às famosas primeiras “vistas” do cinematógrafo dos irmãos Lumière, a quem Benning soube levar à letra a ideia de um “olhar [que] passeia, se perde e se dissolve, em suma, se exerce num campo” (Aumont, 2001: 43). É que, hoje, ninguém – nem mesmo os Lumière e de nada lhes vale a morte – pode levar ao ecrã uma realidade tão imediata como uma paisagem sem fugir às razões estéticas e, até, políticas desse ato. O fato de continuarmos assombrados – e se calhar cada vez mais assombrados! – com L’arrivée d’un train à la Ciotat à Estação de Ciotat explica parte da questão.

No que diz respeito à técnica, encontro boa parte destes problemas em 13 Lakes (2004), filme composto por uma série de planos com onze minutos de treze lagos norte-americanos, dos quais destaco, para esta análise, aqueles onde “entram em cena” os rios em trajetórias circulares (= Salton Sea); uma fila de carros numa ponte sem fim, qual carreira de formigas, e um avião denunciado nos céus pelo som que emite[2] (= Lake Pontchartrain); e dois navios, um de carga (= Lake Superior) e outro de transporte de pessoas (= Lake Powell). Estes veículos normalmente interrompem ou “entrecortam” a harmonia e placidez, antes da Natureza, do próprio plano.

 

Versão integral em arquivo PDF. Esse estudo foi publicado na revista de história e teoria do cinema La Furia Umana, número 1, janeiro 2013.

Benning_e_o_comentário_à_técnica

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[1] Citação extraída da entrevista de Benning a Scott MacDonald no livro A Critical Cinema 5, 2006, p. 232.

[2] Como grande experimentador audio/visual que é, Benning também reserva um momento de “corte” entre a imagem e o som no 6.º plano de 13 Lakes relativo ao Lake Okeechobee. Ouvimos o barulho de um trem passando mas Benning não o mostra visualmente. Também no incrível penúltimo plano sobre o Crater Lake, se ouvem tiros ao longe, sem sabermos ao certo de onde virão. O trabalho sobre o som em Benning, neste particular, faz-me lembrar um dos mais inspirados aforismos de Robert Bresson (2000: 72) do seu Notas sobre o Cinematógrafo: “O olho (em geral) superficial, o ouvido profundo e inventivo. O apitar de uma locomotiva dá-nos a visão de toda uma estação”. 

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