O QUE SE MOVE

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Por Thacle de Souza

No filme de Gotardo, o trágico transborda operado por uma instância da dramaturgia alocada no cotidiano como amplificação de imagens e realidades. Sabendo que o diretor se inspirou em três histórias do dia-a-dia, de acontecimentos banais (esses estampando a morte nos jornais), notícias de obituários, etc, espera-se um filme sobre a dor. Nesse caso, centrado numa personagem feminina: a mãe, representação da família como uma unidade segura, remontando a proteção soberana.

A pertinência do filme, essencialmente dramatúrgica, está na concepção de um lugar contemporâneo em que o cinema adota estratégias do espetáculo de massa (onde contar uma história é uma estratégia comercial), no entanto, colaborando à sensorialidade e à desconstrução progressiva do espaço ou à dissolução do tempo.

Se o filme do Caetano está centrado nessas histórias, vejo a imposição da efemeridade como um elemento central. Em O que se move, o que é trágico é efêmero, quando há dor, efêmera, é a música (ou a performance musical) que insinua latências – o que, se não basta a lógica de uma narrativa (racional), configura-se para a comoção (ou que todos nos movamos juntos) na existência do trágico. A performance musical permite uma relação em que o drama não seja estanque, compadecendo com um envolvimento que fica após a perda. Anteriormente, um trágico habitual, no filme, um trágico que aponta a realidade ou os fatos que não ecoam na banalização dos termos, a narrativa íntima daquele que sofre para além da efemeridade da tragédia comum e distante.

Essa experiência de realizadores configurada como Filmes do Caixote, tendo aí a Gabriela Amaral, o Marco Dutra, a Juliana Rojas, o próprio Caetano Gotardo, tem figurado uma outra premissa em seus filmes, onde o caráter dramatúrgico corrobora para filmes mais de atos, personagens e curvas dramáticas. Lembrar de Trabalhar cansa e A mão que afaga como exemplos dessa corrente de realização, geralmente centralizada em personagens e equipe feminina.

Ainda assim, preocupado com o desenrolar narrativo, ou com figuras de comoção no filme, é possível identificar hesitação, filmes que não são de fácil entrega, e a ideia de gênero revela histórias e narrativas centradas em situações, embora permita também o enleio e o desencontro.

A opção da dramaturgia do cotidiano também revela um olhar para o vazio, para momentos em que o casual, nessa forma de economia dramática, ostenta o que há de simples no tempo, o respiro (as férias como metáfora para a eternidade passiva), formas de engendrar o que não ocorre ou a minúcia que ocorre naquilo que não vemos ou não queremos representar; confabulando a existência daquilo que é delicado e tornado insensível pelo processo de noticiar intensamente o que se perde.

Perguntamo-nos: um filme musical é um filme de ruptura? Talvez outra questão, além da ruptura, parta de um elencamento do que é importante em uma revitalização cinematográfica, pois é necessário que haja dissidência nas opções estéticas e políticas.

O filme do Gotardo, no entanto, parece ser celebrado como um resultado da letargia do cinema brasileiro, repousando em reminiscências de uma “poesia” do caótico, do sofrimento, buscando um lugar de exibição. Filme é para ser consumido mesmo. Pagando ingresso ou códigos digitais, ou cópias físicas, ou valores simbólicos para a circulação: o valor absoluto dos filmes que se vêem presos em si mesmos. Ou seja, mais um caso do filme de lançamento pífio e limitado às condições financeiras, reflexo da cultura cinematográfica no país.

O que se move certamente não é o filme da virada, o insight do cinema brasileiro, ou a euforia do público, mas é um retorno a questões de ordem cinematográfica, reorganizando essas imagens frustradas com sensibilidade do que não nos comove diariamente em seu aspecto irreal e inerte. O acontecimento não é unicamente o ato grosseiro: o que permanece e se transforma retém em si uma dor oprimida, surgindo contra a inevitabilidade do Fausto ensanguentado que esperamos ver em cada tela de cinema.

 Thacle de Souza é aluno do 7 período do curso de cinema, redator da revista Cinecachoeira.

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