MR VINGANÇA: LIRISMO E VIOLÊNCIA

Por João Marciano Neto

Analisar o subjetivo já acarreta a necessidade de elaboração de um método que o legitime. Uma vez que a interpretação dos sentidos é um acontecimento empírico de caráter individual, muitas vezes uma leitura não casa com outra, mas, tendo conhecimento desta situação, esta análise se encaminha com base na filosofia e na interpretação semiótica realizada sobre os conteúdos simbólicos, de natureza lírica, do filme sul-coreano dirigido por Chan-wook Park, Mr. Vingança. O enredo narra a história de Ryu, um artista operário que possui uma irmã necessitada de um imediato transplante de rim. Após ser demitido e em seguida enganado por traficantes de órgãos, a única saída que encontra para solucionar o problema é sequestrar, como proposto por sua namorada, uma criança de família influente. Porém, sua irmã e a criança raptada vêm a falecer e tanto Ryu quanto o desconsolado pai da vítima desencadeiam uma jornada vingativa contra seus agressores.

Chan-wook Park é um diretor que ganhou notoriedade ao dirigir a adaptação Oldboy, entretanto Mr. Vingança, de 2002, é o primeiro longa da trilogia batizada de Trilogia da Vingança¹. Chan-wook é reconhecido como um dos principais nomes do cinema sul-coreano e asiático, possuindo um modo muito singular de retratar a violência gráfica em suas produções, especialmente neste filme estudado. A poesia interna de Mr.Vingança é agressiva e de crescente catarse em conteúdo, mas se manifesta de modo suave, natural e inserida em uma representação realista. Apesar da trama possuir elementos de universalidade, sua geografia se torna importante para a compreensão do seu tratamento devido aos valores culturais asiáticos, modo como eles encaram a honra, e toda uma visão estetizante, muitas vezes criticada, da violência.

Em um trabalho de Sérgio Alves Peixoto sobre a violência nas poesias de Mário Quintana, o autor afirma existir uma tensão agressiva em qualquer relação social que, se vista por uma perspectiva infantil, pode ser encarada propriamente como violenta. O mesmo aponta a obra de Émile Durkheim, Les formes élémentaires de la vie religeuse, ao defender o argumento de que numa sociedade de regras e tabus, a arte possui um caráter de sublimação da violência, uma espécie de “válvula de escape”, qual a poesia também, com função de equilibrar as tensões. Mais adiante Peixoto apresenta o conceito de divinação do poeta por possuir o dom e o poder de revelar o lírico do mundo, entretanto, sem deixar de revelar seu caráter profano. Tais naturezas não se anulam e permitem ao poeta revelar o violento através da arte lírica, questionar seu ambiente social. Tal argumento casa com o estudo realizado por Pierre Clastres² quando este resgata o culto e a representação da violência desde os primórdios, nas primeiras sociedades, como forma de doutrinação. Assim é cabível afirmar que existe um lirismo que interage com a violência e que este não é um evento isolado ou recente, mas sim um processo de educação social que evoluí juntamente com a ética e regras de determinada cultura.

O cinema é uma arte. Diferente da poesia tradicional, sua linguagem se constitui de inúmeros elementos além da escrita e da oralidade, entretanto, é igualmente uma arte subjetiva e discursiva. Seu lirismo, sua poesia pode ser encarada como tão complexa quanto os versos de Quintana ou de Dante, com potencialidade de ser igualmente tão agressiva, sutil e bela. Diferente da literatura, apontar a subjetividade em um filme requer uma compreensão bem maior do modo como seus elementos se relacionam através da montagem. Em Mr. Vingança somos apresentados à um enredo sobre degradação humana por uma cadeia de eventos que resultam numa verdadeira tragédia brutal, entretanto, apesar deste conteúdo tão forte somado a cenas impactantes de mortes bruscas e tortura, o recuo emocional acontece não nos domínios da visão, mas pela compreensão sensível da cena. Chan-wook insere em planos contemplativos, de fotografia primorosa, elementos agressivos sem abrir mão da suavidade, tendo o mesmo cuidado de composição de um poeta e um pintor. Esta é uma característica bem frequente dentro do cinema asiático que pode ser visto desde os clássicos japoneses de Kurosawa até chegarmos à trilogia deste diretor sul-coreano.

Para confirmar tudo o que até então foi apresentado, recorro a Nietzsche e ao que ele propõe em O Nascimento da Tragédia, especificamente a existência de dois impulsos básicos na criação da arte no mito trágico: uma com origem mais impulsiva e instintiva e outra de origem onírica³. Com base nessa duplicidade, a tragédia se concretiza como representação simbólica ou imagética do instintivo manifestada por intermédio do onírico, de modo a levar o público a uma espécie de horror que em seguida é arrebatado ao prazer. Tendo toda esta reflexão em mente é que se torna possível encontrar os meios através dos quais se dará a procura pelo subjetivo lírico do filme que, apesar de possuir a função de servir como entretenimento, está presente nos elementos estilísticos e discursivos da obra. Reconhecendo que Chan-wook utiliza dos recursos da fotografia, montagem e do próprio enredo como parte de sua construção atmosférica e sensorial, ao longo de Mr. Vingança é possível encontrar os momentos em que este elemento poético se manifesta através da estetização da violência, e para a análise foram selecionados alguns momentos que mais se destacam.

Corte Nas mãos

4 - maos

O personagem interpretado Kang-ho Song, Park, é o dono de uma importante empresa que acaba de demitir alguns funcionários. No momento em que o personagem é apresentado, junto com sua filha, ele se vê defrontado por um ex-empregado perturbado carregando um estilete. Numa tentativa de desarmá-lo acaba cortando sua mão. Esse momento marca Park como inicialmente a vítima de todos os acontecimentos, seu sangue é derramado em sinal de sua boa integridade. Mas no decorrer do filme, após descobrir sua filha morta e começar a investigar os sequestradores, o ferimento passa por um processo de resignificação, representando sua fraqueza e logo em seguida servindo como impulso para uma alteração no personagem que agora opta em fazer justiça com as próprias mãos.

Neste momento, inclusive, vemos a gravidade do ferimento antes desferido. O corte na palma de sua mão acaba sendo mais do que a representação de um dano físico, mas de todo um abalo emocional e psicológico. Até então é possível considerar Park o grande injustiçado até que o mesmo toma a decisão de seguir com a vingança. Já no final do filme, após matar Ryu e sua namorada cúmplice, Cha, um grupo de terroristas políticos encontra-o e Park é esfaqueado. Dessa vez sua mão esquerda é ferida e, diferente do corte anterior, ele é o agressor sendo punido. Com a representação de seus crimes em sua mão suja de sangue, e ao comparar os ferimentos, resume-se sua trajetória de ações. Sua corrupção.

Clastres afirma em Arqueologia da Violência que ao se invocar o horror se promove justamente o discurso de que a sociedade na qual vivemos é contra a violência. Deste modo pode-se reforçar que o ciclo vivido por Park possui um caráter de autocondenação onde ele toma a violência como meio de justiça, ignorando inclusive o alerta sobre as consequências e, mesmo assim, não abrindo mão do caminho degradante no qual se envolveu.

Cidade Azul

3 - azul

Após descobrir que Ryu sequestrou a criança que está em sua casa, sua irmã comete suicídio, provocando o maior momento de tristeza do protagonista. Enquanto escutamos seu choro, nos é antecipado o afogamento acidental da criança que se dará na sequência através de um desenho que a mesma está assistindo e então temos um vislumbre da cidade toda azulada. Com estas três cenas temos todo o desenvolvimento do sentimento de desespero e a transição de uma tragédia a outra. Ao inserir no fim esta cidade nesta palheta de cores, Chan-wook reforça esse sentimento de catarse, de melancolia, reforçando também a total falta de otimismo dentro do filme.

Por todo o longa esta é umas cores mais presentes junto com o verde, mas este plano geral é um dos mais escuros, além de permitir a predominância dos tons de azul. A paisagem isolada é inexpressiva, porém quando associada ao sentimento que a antecede e é acompanhada ao som do lamento sua função se concretiza e o espectador capta essa emoção suavizada, mas não distanciada, permitindo inclusive uma reflexão sobre suas causas. Neste momento também se constrói a piedade, uma vez que os interesses pessoais são temporariamente afastados e os personagens adquirem uma visão bem mais humana. Em Mr. Vingança todos são, em diferentes níveis, vítimas da grande tragédia construída.

O afogamento

A sequência em que a filha de Park, Yu-sun, se afoga acidentalmente é uma das mais fortes e marcantes de Mr. Vingança. Com quinze planos alinhados em dois minutos de filme, observamos o presságio sobre o destino da criança ao ser mostrado uma pedra caindo na água. Enquanto Ryu sepulta sua irmã falecida às margens de um rio e, após ser acordada por um deficiente que está a atirar pedras no córrego, Yu-sun tenta chamar Ryu esquecendo-se que ele é surdo. Ao perceber que não conseguiu a atenção dele, a menina avança pela ponte de madeira.

6 - seq 1

Logo em seguida temos outra cena da pedra caindo na água, marcando o ritmo do acontecimento já anunciado. O estado ponte nos é revelado rapidamente, vemos Ryu continuar enterrando a irmã com as pedras, ouvimos novamente o som de algo cair na água e em seguida temos a visão mais panorâmica enquanto o protagonista está em foco. Nesta imagem não se vê Yu-sun.

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7 - seq 2

No plano seguinte, o deficiente pára de jogar pedras e vê algo fora do campo. A imagem é substituída pelo rosto da irmã morta adiantando-se àquilo que o espectador já toma ciência. A tensão se agrava ao revelar que não há ninguém na ponte e, em seguida, é confirmado o ocorrido.Vê-se Yu-sun clamando por ajuda enquanto se afoga, mas nenhum dos adultos presentes a socorrem. Em prantos e incapaz de escutar o pedido, Ryu lamenta uma morte sem ter conhecimento que outra está acontecendo.

8 - seq 3

Novamente vemos o rosto da falecida ao som dos últimos chamados de Yu-sun, que logo silenciam. Após o rosto ser coberto e o sepultamento se aproxima do fim, surge em ângulo oposto o rosto da menina já morta boiando. Ryu termina o sepultamento e só então percebe o que aconteceu.

9 - seq 4

Sem mostrar muito e utilizando os elementos presentes no cenário, Chan-wook cria uma cena de falecimento. O ritmo das pedras atiradas contra a água gera inicialmente certa dúvida, mas ao serem interrompidas e sendo seguidas das demais imagens todo o evento da queda de Yu-sun é apresentado sem ser mostrado diretamente. O diretor suaviza a violência do afogamento e realça a tensão com a negligência de ambos os adultos presentes. O rio fornece uma falsa sensação de tranquilidade enquanto os fatos se desenvolvem, e a alternância entre os processos relacionados à morte, um sendo finalizado e outro se iniciando, demonstra uma ironia trágica que é sentida não tanto pelo choque visual, mas emocional.

O afogamento é silencioso, toda a construção dessa sequência possui o mesmo teor pessimista que faz presença constante no filme, mas é agravado por proporcionar ao mesmo tempo preocupação e indiferença. A ambiguidade sentida gera desconforto. Trata-se de uma violência sutil que acaba tornando-se ponto inicial para a abordagem bem mais explícita da violência que irá se suceder. O conteúdo da sequência entra em contraste com sua beleza, naturaliza o ato de tal modo que ele se incorpora e é compreendido sem qualquer palavra ou explicação complementar. E nesse momento em que a pureza que até então podia se observar acaba, as boas intenções se findam, a inocência é levada, e o que resta são os crimes, seus culpados e o desejo de vingança.

Rastro de sangue

5 - rastro

Com este único plano Chan-wook consegue sintetizar toda a trajetória de Ryu e Park tiveram após ambas as perdas. Park deixa atrás de ambos uma trilha formada pelo sangue que vem do corpo de Ryu, que tem os tendões da perna cortados e se afoga. Os dois personagens estão juntos, quase formando um só volume, manchando a transparência do rio com o fruto de suas ações ao longo do filme. O cenário novamente se torna um cenário de morte, finalizando o processo de punição de Ryu que teve partida com o afogamento de Yu-sun. A água não limpa nem ele, nem Park, pelo contrário, ressalta a gravidade dos crimes cometidos. Pode-se entender juntamente como a manifestação plástica da corrupção das personagens presentes durante suas jornadas individuais. Ambos se julgam pessoas boas, ambos expressam remorso, mas nenhum deles abriu mão da sede pessoal de justiça. Nesta mesma cena é possível chegar à conclusão que o suposto Mr.Vingança do título não se refere a Park ou Ryu, mas justamente aos dois como uma única entidade que é dominada e guiada por tal desejo e sentimento.

A vingança nunca é plena

2 - acabaram

Nos últimos momentos de Mr. Vingança, Park é deixado para morrer lentamente. Enquanto perde a consciência ele toma ciência que aquele destino é consequência da sua vingança, porém, ao invés de se arrepender, assume uma postura final de injustiçado. As últimas palavras do filme são pronunciadas por ele enquanto observa os restos do corpo multilado de Park:

Eles acabaram… Com a minha vida. Acabaram com ela. Com tudo.”

A frase possui um sentido tanto literal quanto conotativo, pois se compreende que Ryu e sua namorada, não intencionalmente, arruinaram Park e podem, no ponto de vista do mesmo, serem considerados seus executores. Por outro lado não se abre mão da perspectiva de que Park é responsável pelo próprio fim uma vez que ele se recorda do alerta e da oportunidade em interromper sua vingança. De modo geral, é neste momento que a grande mensagem de Mr. Vingança se torna evidente. O ciclo de violência se mostra ininterrupto e puramente danoso, não possuindo nenhum vencedor. Não existe uma reconciliação, o processo de catarse não passa da fase do sofrimento, e a única redenção que Chan-wook fornece a todos seus personagens é uma morte violenta.

O que se pode concluir é que Mr. Vingança, com sua composição, é uma ode a tragédia contemporânea que se desfaz da dialética e cria uma elaborada trama onde dificulta estabelecer um posicionamento contra ou a favor de determinado personagem. A motivação de recorrer à violência se sobressai perante o próprio ato em si. Chan-wook realiza uma provocação através do que se entende das ações, explorando de modo inteligente e sensível a combinação das imagens para a formação de sentido, promovendo seu discurso por um refinamento da abordagem para horrorizar o espectador pela experiência, pelo sentido, e não somente pelo choque imediato.

João Marciano Neto é redator da revista Cinecachoeira. Cineasta e escritor, publicou em 2014 seu primeiro romance A melhor pior desventura já escrita e dirigiu o curta Inferno

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ARISTÓTELES. Arte Poética. São Paulo: Martin Claret. 2003.

CLASTRES, P. Arquitetura da Violência. São Paulo: Cosac & Naify. 1980.

GOLIOTTE-LETÉ, A; VANOYE, F. Análise Fílmica. São Paulo: Papirus. 1994

NIETZSCHE, F. A Origem da Tragédia Proveniente do Espírito da Música. São Paulo: Cupolo. 1948.

PEIXOTO, A. Mário Quintana: poesia e violência. Minas Gerais: Lê. 1994.

¹. A Trilogia da Vingança de Chan-wook Park é composta por Mr. Vingança (Sympathy for Mr. Vengeance, 2002), Oldboy (2003) e Lady Vingança (Lady Vengeance, 2005).

². Arquitetura da Violência (1980).

³. Nietzsche utiliza em A Origem da Tragédia para designar as naturezas instintivas e oníricas os termos dionísiaco e apolíneo, respectivamente, em referência ao deus grego do vinho Dionísio e ao deus das artes Apolo.

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