COMO O TRAILER OS VINGADORES 2 CRIA SEU IMPACTO

Avengers-Age-of-Ultron-Vision

Por João Marciano

Os Vingadores: A Era de Ultron tem sido um dos filmes-eventos da Marvel mais aguardados desde seu antecessor, Os Vingadores. Tendo novamente a direção de Joss Whedon, o longa-metragem que novamente traz um dos maiores grupos de super-heróis dos quadrinhos teve seu trailer vazado em baixa qualidade. Visto o ocorrido, a Marvel ao invés de seguir a atitude padrão dos grandes estúdios quando isto ocorre, decidiu disponibilizou o material em alta resolução por toda a internet. Uma atitude inusitada que apenas tornou o teaser não só mais acessível como também ainda mais procurado. O grande alvoroço com esta notícia não ocorreu somente pela suposta falha na segurança, mas o próprio teaser em si teve grande impacto, se tornando efetivamente um viral por ter sido um dos vídeos mais vistos e comentados deste final de 2014. Pode soar desnecessário ou fútil analisar um produto de divulgação, mas o que procuramos aqui é compreender o que está presente neste vídeo além da promoção e porque ele despertou tanto interesse nos internautas.

Os Vingadores, filme de 2012, foi um dos maiores sucessos de bilheteria mundial, alcançando mais de um bilhão e meio na bilheteria. O bom recebimento pelo público já justificaria a ansiedade pela sequência prevista para 2015, mas outros fatores podem ter levado a isso, como a mudança radical de tom no segundo filme. Enquanto o primeiro tem uma premissa mais descontraída, o teaser de Os Vingadores: a era de Ultron apresenta uma seriedade trágica, cataclísmica. Apesar de já fornecer várias informações esperadas pelos fãs, como a Hulkbuster, armadura criada pelo super-herói Homem de Ferro nos quadrinhos para confrontar o personagem Hulk, o escudo do Capitão América partido, os novos personagens que serão inseridos e outras coisas mais, o que chama mais atenção é o salto que este filme propõe. Numa estrutura mais padrão, um grupo se forma, se consolida e então tem uma grande queda. No primeiro filme acompanhamos o grupo se constituindo ainda, então é muito cedo para que o mesmo se depare com um choque que vá além do questionamento de sua força. Ainda neste caminho, a Marvel, usufrui das liberdades concebidas por estar anexada aos estúdios Disney, e nos revela toda essa mudança ao utilizar de modo assustador uma referência a Pinóquio.

A referência é coerente, pois a origem do vilão Ultron é semelhante a de Frankenstein. Ultron é uma inteligência artificial que se volta contra seus criadores e toda a humanidade. Assim como Pinóquio, Ultron não é um ser biológico, mas sim um ser artificial, um robô, um boneco tecnológico. Ao inserirem entre os fragmentos de cenas que revelam momentos de fraqueza, derrota e instabilidade a canção presente no filme animado de 1940, seu sentido original é completamente modificado. No teaser, a fala (traduzida) de Ultron em off diz o seguinte:

Vocês querem proteger o mundo, mas não querem que ele mude. Vocês são marionetes emaranhadas em cordões.”

Deste modo, já se revela a posição da máquina, uma vez que os “cordões” aqui mencionados se referem a incapacidade dos heróis em realmente fazerem a diferença, e que ele, Ultron, seria justamente o marionete desperto livre deste teatro capaz de realmente provocar uma alteração no sistema. Neste ponto já é mais que clara como a estória do boneco de madeira que ganha vida se torna uma analogia deturpada. Aparentemente não há nada de extravagante o suficiente para que o teaser mereça tanta atenção. Devemos pensar além da construção de associações simples e diretas que foram bem estabelecidas e vistas em primeira instancia.

A originalidade, o que faz do teaser algo tão diferente se dá justamente pela ligação, aparentemente tão óbvia, mas nunca antes explorada, entre Pinóquio e Frankenstein. A tendência de temermos que algo que criamos conquiste a própria autossuficiência e se revolte contra seus criadores. Algo retomado com o advento dos computadores, presente nas obras de Isaac Asimov, intensificado com O Exterminador do futuro e Matrix.

A Marvel provocou um choque, não apenas um choque de expectativas, mas uma mudança drástica. Por mais que Thor: O Mundo Sombrio já tenha se apresentado um pouco mais pesado e Capitão América 2: O Soldado Invernal mais maduro e sério, Os Vingadores: A Era de Ultron pega o público quase que despreparado. Se o filme será tudo aquilo que se dispõe a ser é outra questão, mas não se pode deixar de reconhecer que o estúdio abre mão do seu modelo até então utilizado e recorre de modo apropriado às obras que comunicam com a produção para atingir, de modo criativo e de fácil entendimento, aos efeitos desejados.

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