BOA SORTE

deborah_secco_2 Por Rafael Beck de Andrade

Um filme sutil e sensível que apresenta uma paixão intensa e real, regada a frontal, Fanta Laranja, muito gelo e dois dedos d’água.

João é um adolescente ignorado pela família e pelos colegas de escola. Viciado em calmantes, o garoto acaba se tornando depressivo e os pais decidem interná-lo em uma clínica psiquiátrica. Lá, João conhece Judite, uma dependente química 16 anos mais velha que ele, HIV positivo em fase terminal. Além dela, o menino conhece outras pessoas, novas histórias, diferentes realidades, futuros incertos. Apesar de estarem em uma clínica psiquiátrica, João e Judite acabam se apaixonando e iniciam um romance intenso. Nesse contexto, João parece disposto a viver o momento e deixar que as coisas aconteçam naturalmente, ao passo que Judite sabe que sua morte próxima abalará o garoto.

Boa sorte é baseado no conto de Jorge Furtado, “Frontal com Fanta”, e possui roteiro do próprio escritor em parceria com o filho Pedro Furtado. Apesar de o roteirista ser bem conhecido pelo público tanto por trabalhos na televisão quanto para o cinema – o que inclui filmes como Ilha das Flores (1989), Caramuru – a invenção do Brasil (2001), O Homem que copiava (2003), Meu tio matou um cara (2004), Decamerão, a comédia do sexo (2009) e Doce de mãe (2012) – Carolina Jabor havia dirigido apenas um longa metragem – o documentário O mistério do samba (2008) – antes de encarar Boa sorte, seu primeiro longa de ficção. Nenhum deles – tanto Furtado quanto Jabor – decepcionam. O roteiro é conciso e simples, o que facilita o entendimento para qualquer tipo de público. Não existem grandes nuances. Furtado diz o que quer dizer, mostra uma realidade pouco vista no cinema brasileiro e apresenta um desfecho previsível, mas nem por isso decepcionante. Por outro lado, Carolina tem a sensibilidade necessária para levar o argumento para a tela de forma a emocionar o espectador. Sem ser apelativa, a diretora mostra o romance de João e Judite como qualquer outro amor entre dois jovens, onde existem descobertas, medos, delírios. Além disso, a diretora opta por planos simples, o que torna tudo mais natural e cotidiano, lembrando que os próprios personagens são tão comuns quanto qualquer outra pessoa no mundo.

Apesar de toda essa simplicidade, deve-se destacar o uso de metáforas sutis usadas quase que o tempo todo. O maior prazer de João até agora é tomar Frontal com Fanta Laranja. Segundo o jovem, quando o faz, ele se torna invisível, pode entrar onde quiser, olhar para quem quiser, fazer o que quiser – contanto que não toque em ninguém – que jamais será notado. Uma referência clara a como os jovens são ignorados pela sociedade e pelos pais, que estão mais preocupados em ganhar dinheiro e em viver suas vidas mesquinhas. A doença de Judite, sem dúvida, também pode ser vista como uma maneira de dizer que todos estamos doentes de alguma forma. Contribuindo para essas representações apuradas, ainda há a direção de arte perspicaz de Claudio Amaral Peixoto. Cada ambiente do filme reproduz o interior dos personagens que nele vivem. A clínica, por exemplo, é um prédio velho, sujo e feio, como seus habitantes, parece doente, mal cuidado, esquecido por aquela sociedade mesquinha e egoísta. A casa da família de João é uma completa bagunça, o que mostra como as cabeças dos pais, do irmão e do próprio João vivem em um verdadeiro caos. As roupas que os personagens usam, por outro lado, evidenciam sua personalidade: Judite é alternativa, sempre usando roupas diferentes – uma eterna metamórfica – e João é mais neutro, mais esquecido, sendo visto com roupas mais cruas.

Após ler o conto de Jorge Furtado, Deborah Secco, apaixonada por Judite, procurou o escritor para comprar os direitos para torná-lo um filme. Quando a atriz descobriu que os direitos já haviam sido comprados por Carolina Jabor, implorou por um teste para que pudesse viver a personagem. Jabor aceitou e Deborah foi selecionada. E, com o perdão da piada, que sorte foi a atriz ter insistido. Como a própria Deborah apontou, essa é a personagem de sua carreira. Deborah, mais uma vez, prova que há muito vem deixando de lado qualquer estereótipo de mulher bonita e sensual, tornando-se uma das atrizes mais versáteis e inteligentes de sua geração. Como Judite, ela emociona, excita e choca, vencendo o desafio de interpretar a personagem mais icônica e interessante de sua carreira. Apesar de ter feito alguns poucos trabalhos destacáveis no cinema, João Pedro Zappa não havia protagonizado nenhum filme até viver o João de Boa sorte. Ainda assim, o ator mostra a que veio e, diferente de Deborah Secco, que possui os momentos despojados de Judite para brincar e extravasar um pouco com a personagem, lida bem com a neutralidade de João, brincando de forma mais contida, sempre lembrando que o personagem é um jovem ignorado e nunca notado por ninguém. A química entre os atores flui naturalmente e nada na relação de João e Judite parece ser forçado, muito pelo contrário, tudo é muito intenso e inspirador.


Como todo o restante do longa, os demais atores selecionados são discretos e compõem o filme cada um à sua maneira. Cássia Kiss Magro faz uma participação rápida como a médica responsável pela clínica, uma mulher que, como qualquer outro personagem alienado, não dá a mínima para os jovens, assim como os pais de João, vividos por Felipe Camargo e Gisele Fróes. Deve-se destacar, entretanto, Pablo Sanábio, como o também paciente da clínica Felipe, um rapaz expressivo, um artista que não se define como louco, afinal “louco que é artista, não é louco, é artista”. Pablo é, de certa forma, a manifestação das indignações dos jovens, é a voz que grita e escancara a forma como os jovens são tratados e ignorados. Por fim, Fernanda Montenegro é Célia, a avó de Judite. Diferente dos demais adultos do filme, ela tenta compreender a neta. Não é preciso dizer que a atriz encara essa senhora única, difícil de ser definida, com singularidade. Em certo momento, Fernanda Montenegro, no auge de seus 85 anos, na pele dessa mulher mais do que pra frente, denuncia a corrupção, os erros e pede por um Brasil melhor, depois, chega em casa e, para esquecer as frustrações, enrola um baseado em uma página da bíblia, e o fuma, alegando que a maconha é a única droga que presta, pois é barata e não faz mal a ninguém.

Com delicadeza e segurança, Caroline Jabor trabalha com os atores e com o argumento que lhe foi disponibilizado para apresentar um filme singelo, porém perturbador e muito reflexivo. Segundo ela mesma, sua intenção era realizar um filme cotidiano e atual, mesmo que a história se passe antes das grandes evoluções medicinais para que a AIDS tivesse um tratamento diferenciado. Os personagens possuem diferentes personalidades e formas de ver a vida. Cada um deles, provavelmente, fará com que o espectador lembre das pessoas que o cercam em seu dia-a-dia e, por que não afirmar, que a identificação com ao menos um deles será inevitável. Boa Sorte é o tipo de filme que deixa dúvidas acerca da vida e da morte, todavia, não se pode dizer que deixa dúvidas sobre ele mesmo. O longa sabe a que veio e atinge seus propósitos ao denunciar uma sociedade “doente do corpo, do espírito” ao abordar com simplicidade a história de um casal que aprende um com o outro. Ele, aprendendo a viver. Ela, se preparando para a morte.

 

 

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