GRANDE HOTEL BUDAPESTE

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Por Luneta Serón

Dulciamaro, o filme nos absorve numa onírica e vertiginosa experiência no país inventado de Zubrowka.

Há a brincadeira com antagonismos visuais, as cenas que se opõem cromaticamente, numa tristeza delicada – a vida dentro do róseo espectro aristocrático e o mundo gris tão gélido, afora. Esta é, na minha opinião de neófita, a diretriz.

A riqueza de referências na arte, no décor, é um deleite. Um beijo de Gauguin em tempos opulentos, apertado entre a sóbria decadência sessentista e a tomada do prédio pelo exército nazista.

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O roteiro, por sua vez, como que encaixado, um corpo dessas minhocas multipatas, com compartimentos tão organizados, encaracolam-se por vezes… Como é o nome que a biologia lhes deu? Quilópodes.

Sim, lacraias! Uma lacraia vistosa e sarcástica. Cretina, por que não?

Dissecá-la?

Isso que me dá preguiça na análise crítica, perdoe-me leitora, não sei nada sobre planos-decoupage-e-o-porquê-daquele-contra-plongée. Não. Só meu dedo mindinho do pé esquerdo sabe da linguagem cinematográfica, e eu hoje o bati na quina duma mobília inimiga.
Esta é uma crítica leiga.

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O posicionamento político de quem o realizou o filme manifesta-se com muito bom gosto ao comicizar o exército nazista: militares truculentos e desumanizados opostos à delicadeza desses seres de chantilly, a sensível fauna do hotel. E colocá-los lá dentro, os militares, foi ridicularizá-los por completo. O não-pertencimento faz-se ótimo recurso de nonsense.


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E você me perfura: “Tá, Luneta, e essa viagem de quilópode? Que raios quis dizer com isto?”
Sim, voltemos para que nossa bela lacraia não permaneça entediada flutuante pelas mornas nuvens da incognitude. Eu propus uma fotografia, uma metáfora para o desenrolar da análise desse roteiro. O asqueroso animalzinho seria o filme, e seu corpo, todo compartimentado em dependentes cotocos tão simétricos, tão elegantes, interligados entre si, seriam as estorinhas que compõem a trama. Isto atenua a melancolia da dramaticidade, é óbvio que há uma transa entre roteiro e direção de arte para que o amargo ingrediente não seja indigesto, e não estrague o nosso prazer de espectadoras: o que faz o filme parecer mais longo do que é.

Sendo sincera, já desacredito dessa lacraísse toda. Talvez seja outra arquitetura roteirística, com um ponto central – a camaradagem dos hoteleiros, o jovem estrangeiro desamparado, e o fútil concierge experimentado, a lealdade entre esses seres solitários, e o desenho de seus laços de afeto. Esse é o miolo, e todas as outras barbatanas da narrativa estão ao seu redor.

Talvez o núcleo de níquel e ferro deste filme seja a solidão. Desde as primeiras cenas vemos uma moça solitária num cemitério, o busto de um escritor há muito devorado pelos vermes, e então o próprio escritor com cheiro de década de 1980 visivelmente abandonado, disputando seu espaço de relato com uma criança a interrompê-lo, e então, o flash back decisivo, as primeiras cenas no hotel decadente.

Leitora, já percebeste que cada vez mais me complico co’esta análise, desta vez deixo a ti a escolha do inseto que acreditares cair bem como metáfora, e confesso que vou tecendo assim e assim na cinematografia e nas zoomorfias. Mas sabemos: é uma aventura.

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Algo sobre o posicionamento dos corpos em multidão me parece especial – funcionários do hotel, militares, presos, monges, ou góticas e góticos aristocratas na cena da leitura do testamento – uma interessante jogada para compor a profundidade dos quadros, e, também, transbordar possibilidades ao núcleo de arte.

A direção da padronização dos movimentos do elenco para se fazer vingar um estilo é decisiva na construção da(s) atmosfera(s) das cenas. Um elogio ao diretor titereiro por valer-se da matéria humana – sendo literal, carbono – para dizer algo sobre humano, e lançar mão desse recurso, antigo poliglota na comunicação entre nós: o gestual.

Cada atuação individual também delicadamente coreografada, os corpos rijos e eretos, a expressão que mora nos olhos, no pescoço vacilante. A caracterização dos dois personagens principais é marcada muito mais pela contenção de seus gestos do que pela liberdade de exprimi-los, isso cria a base rítmica do filme se entrelaçado à posição de cada ator, estudada em cada quadro – como que numa homenagem à Fotografia. São belíssimos enquadramentos compostos como se virássemos as páginas de um livro.

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As atuações me pareceram bem-sucedidas, do contrário não poderia ser absorta pela trama, desejei finais felizes aos fugitivos, resisti a duas horas(?) de inércia, passiva, sobre o sofá. E a trilha sonora foi o complemento estético perfeito, onírica e sombria, encaixada ao sarcasmo condutor.


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