SHARKNADO 2 E OS HERDEIROS DA TROMA

Por João Marciano Neto

Sharknado e Sharknado 2, a segunda onda são dois telefilmes trash produzidos pelo canal fechado Syfy. Este é conhecido pelas séries e pelos filmes duvidosos e de baixíssimo orçamento, tais como Piranhaconda, Sharktopus e Mega Python VS Gatoroid, mas foi com sua mais recente franquia, Sharknado, que o canal explodiu em popularidade a ponto do segundo título conseguir pequenas sessões nos cinemas norte-americanos antes de propriamente estrear a televisão. A premissa é absurdamente simples e bizarra: um forte tornado se forma no litoral e carrega uma “oportuna e inexplicável” migração massiva de tubarões. Em meio à catástrofe natural, um grupo de sobreviventes também precisa lutar contra os ferozes e estranhamente resistentes tubarões que são arremessados pelos ares. Ambos os filmes são exatamente isso, a única diferença é que o primeiro se passa em Los Angeles e o segundo, sem qualquer apreço ao esforço de se tornar crível, em Nova Iorque.

O subgênero trash é bastante conhecido justamente pela precariedade e o humor. Os telefilmes do Syfy não fogem disso, e talvez pelo exagero inusitado de Sharknado é que tenha conquistado a atenção na internet e fosse tão procurado apesar de um CGI tão grotesco quanto as atuações e um enredo pobre. Sharknado – enough said! (Sharknado – diz o suficiente) é o que vem escrito nos pôsteres de divulgação, confrontando o potencial espectador. Num meio tão preenchido pelo nonsense (onde “viralizam” músicas sobre o som da raposa, pessoas com fala engraçada, remixes de comentários sobre o preço de uma calça jeans para adolescentes e tantas outras brincadeiras), produções medíocres e sem nada a acrescentar ganham destaque e fãs. Fãs leais, vale acrescentar. O trash é um ramo especial, próximo ao cinema independente em relação à viabilização da produção, distante de qualquer outro segmento por assumir e exaltar a própria precariedade como um modelo de entretenimento totalmente alternativo.

Se olharmos para o passado e procurarmos um fenômeno semelhante, cruzaremos com a Troma Entreterniment, uma produtora independente que adquiriu um estrondoso sucesso com seus títulos peculiares: O vingador tóxico (maior sucesso da produtora), A camisinha assassina, O monstro do armário, dentre outros filmes que parte do público brasileiro deve se recordar pelas noites do SBT. Adorados hoje como cults, aclamados pela geração VHS, a história da Troma agora se repete no novo formato contemporâneo: o da internet e da televisão. Independente da qualidade (ou ausência dela) em Sharknado e outros títulos, o Syfy tem apresentado um crescimento notável dentro deste mercado, afinal, quantos filmes televisivos tiveram suas sequências em salas de cinemas com sessões lotadas? Pelos padrões acadêmicos, “intelectualizados” e até mesmo hegemônicos dos grandes blockbusters só resta julgar a produção como ruim e esperar que um dia caia no esquecimento. Algo que a Troma e o falecido Ed Wood provam o inverso. O fenômeno em si é intrigante, pois mesmo sendo um “produto ruim”, o consumo é enorme.

Como criticar tal fenômeno? Como julgar sem os olhos do preconceito e do argumento academicista e europeizado do “isso é cinema arte, isso é mero cinema comercial indigno”? Por que, dentre todos os títulos antecedentes do Syfy, justo Sharknado mereceu o clamor do público? Em algum momento, em algum ponto algo foi feito corretamente. Seria o reflexo de um antigo público que se via negado pelos grandes estúdios? Um índice de um novo público leitor criado em constante contato com a internet? Uma cultura do “é tão ruim, mas tão ruim, que chega a ser bom”? O que esse estranho filme sobre tubarões arremessados por tornados tem de especial?

A resposta não é clara, talvez nem os próprios realizadores possam apontar com confiante certeza a fórmula do seu sucesso. É improdutivo dar o mesmo veredito que os “juízes de valor” incansavelmente pregam. Vale o esforço em tentar compreender por que esse público opta por Sharknado e não por Piranhaconda, afinal, ambos são do mesmo nível, mas por motivos que não conseguimos determinar um se torna merecedor da aclamação, o outro não. Um produto com um perfil diferente necessita de um olhar diferenciado, mas infelizmente não sabemos como direcioná-lo nesses casos. É inevitável, o filme é tão mal sustentado que se desiste de tentar compreendê-lo, até mesmo dificulta em determinados momentos que o espectador se concentre nele, ao mesmo tempo que algo em sua linguagem nos provoca. Você consegue ver até o fim? Esse filme pode ficar pior? Mesmo sendo grotesco, a curiosidade é alimentada. Tecnicamente, ambos Sharknados são igualmente grosseiros e infantis, mas como determinar que sejam simplesmente péssimos quanto, indo contra a euforia pelo melhor dos efeitos especiais, sua sequência leva 3,9 milhões de espectadores para sua noite de estreia?

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