A GIRL WALKS ALONE AT THE NIGHT

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Por João Marciano Neto

Filme de estreia da diretora irano-americana Ana Lily Amirpour, A girl walks alone at the night se passa nos anos 1960 numa pequena cidade tomada pelo vício e pela prostituição. Bad City tem um aspecto fantasmagórico, de ruas desérticas, cujos cidadãos não visualizam o futuro e se acomodam em suas devidas e decadentes condições. A trama tem como partida a presença de uma vampira sem nome, interpretada Sheila Vand (conhecida por seu trabalho no premiado Argo), que escolhe cuidadosamente os piores indivíduos para saciar sua sede e acaba cruzando o caminho de Arash, um jovem e pobre rapaz que tem de lidar com o vício do pai. Apesar da comum associação direta filmes de vampiros com o gênero de terror, A girl walks home alone at the night é um drama romântico que em vários aspectos se assemelha com o sueco Deixe ela entrar. Por trás do enredo existem vários questionamentos que orbitam entre os diversos temas sobre relações humanas, mas cujo fim é traçar uma face para a solidão.

Com um elenco e equipe majoritariamente de origem iraniana, os elementos culturais deste grupo saltam charmosamente sobre a tela. Falado no idioma persa, são poucas as palavras em inglês, normalmente aparecem em pichações ou tatuagens, fortalecendo que o filme é, de todo modo, um espaço para que se ouça uma voz de autoafirmação e valorização da própria identidade étnica em meio ao consumismo norte-americano. Livre de estereótipos. O resultado mais intrigante desta manifestação está no comportamento da vampira. Respeitando a tradição do uso da burca, a jovial vampira sem nome é a única personagem que a utiliza mesmo em contraste com o restante da sua vestimenta. Mais do que uma mera alusão à capa do conde Drácula, é um símbolo de que, diante de uma sociedade tomada pelos pecados, ela se apresenta como a mais pura, a portadora de maior moral, e com o passar do tempo descobre a humanidade ignorada na escória social de que se alimenta e passa por um conflito interno. Outro aspecto curioso é seu método de “caça” quase liberto da erotização, onde instiga a curiosidade com sua presença, que o outro a note e então a aborde.

Em preto e branco, a fotografia bebe da fonte do noir sem entrar de cabeça e constrói visualmente o tom emocional que se segue com muita delicadeza e elegância. O silêncio em A girl walks alone at the night é digno de se equiparar as trocas de olhares de um flerte, sem explicar nada se diz muito e mesmo na lentidão rouba a atenção e te seduz. Apesar da existência de um arco romântico, o filme consegue escapar de determinados clichês, o que não o torna tão óbvio. Não se trata de um romance alegre e espontâneo, idealizado. Os personagens são solitários e contam com mais momentos de introspecção. Tanto a vampira quanto Arash estão insatisfeitos e buscam tímida e relutantemente uma desculpa para se libertarem do fantasma degradante e deprimente que ronda Bad City. A todo o momento surgem as más sucedidas tentativas de escape, seja por meio das drogas ou por antigas esperanças perdidas muito tempo. De formas diferentes, um vê no outro a possibilidade hesitante de mudança e abandono do passado.

O timing é perfeito. Amirpour, que também roteiriza a obra, trabalha e organiza muito bem os acontecimentos e finaliza brilhantemente este moderno conto fantástico. Uma experiência simples, rica nos detalhes e sutilezas, que se desenvolve sem desgaste e revive o charme sombrio dos filmes da década de 1940.

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