HISTÓRIAS QUE SÓ EXISTEM QUANDO LEMBRADAS

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Por Isa Lima

Viver, como um continuum, só é possível através do lembrar: é uma das reflexões explícitas no longa HISTÓRIAS QUE SÓ EXISTEM QUANDO LEMBRADAS, de Julia Murat.

A questão da memória se impõe fundamental já no título. “Histórias que só existem quando lembradas” expõe, nesta escolha de palavras, a dependência das presenças no espaço-tempo para com o ato da rememoração. E o instrumento que guia esta relação é, essencialmente, a fotografia. A fotografia carrega este peso de objeto mnemônico, como um mecanismo de captura da alma e aprisionamento do tempo. A fotografia comprova existências ao registrá-las. O registro torna os personagens visíveis, e, por mais que o invisível não seja inexistente, somente aquilo que é atingido pela luz tem a oportunidade de ser lembrado. O que está nas sombras da imagem não encontra as mesmas possibilidades.

No filme, o ato fotográfico adquire uma dupla personalidade. Ao mesmo tempo que é o meio de retardamento da decomposição, é, também, o que permite que a vida (de Madalena, inicial e principalmente, por ser a personagem à qual a outra protagonista, Rita, mais se conecta) flua, e, deste modo, se finde. A morte e a permanência – ou a morte pela permanência? Como se Jotuomba não se permitisse morrer sem ser lembrada. Aquele lugar que, estancado no tempo – ou ainda deslocado para fora deste tempo social –, tornou-se presença invisível no mundo, e fez da espera sua rotina.

Não por acaso, Rita (Lisa E. Fávero) possui este hábito fotográfico – o termo profissão seria uma redução inapropriada, visto que todos ali têm funções incorporadas em si para manter o curso da rotina, e o local não obedece, por assim dizer, às regras de mercado, ou a tantas outras já naturalizadas num mundo visível, no mundo “central”. Então Rita tem suas câmeras como uma extensão de si própria, e tem em si uma necessidade de registro. Rita é o novo, é o refluxo da vida naquele lugar onde todos são velhos mas não morrem. As coisas, os objetos, o relógio parado desde não se sabe quando, ganham o primeiro plano através de seus olhos. E suas câmeras impõem uma espera para o registro. O uso de pinholes reforça a contemplação, há uma necessidade de aguardo e de estudo da imagem. Não por acaso, o olhar da fotógrafa é tão apurado, assim como a sua sensibilidade é paciente, a ponto de contemplar a luz nos grãos de poeira ou de enxergar beleza nas atividades cotidianas do lugar. E esta importância da imagem para a personagem é compartilhada com o espectador através de uma direção de fotografia quase obscena de tão bela, capaz de envolver visualmente mesmo espectadores que se dispersem pelos prolongamentos. O preciosismo do tempo aqui é diametralmente oposto ao preciosismo deste mesmo fator num blockbuster. O que interessa são os andamentos, e não as resoluções. Ao deixar de lado, progressivamente, sua câmera digital, para fotografar Jotuomba com câmeras rústicas, Rita otimiza essa imersão ao passado daqueles anônimos, intensificando a afetividade de sua experiência.

Nas fotos tiradas com as latas, os personagens incorporam-se aos cenários. Em suas transparências, revelam-se fantasmas. O efeito vai além da impressão estética: fantasmas são presenças invisíveis, criaturas indefinidas vivendo no “entre” da existência e da extinção. Assim, como um fantasma, nos é apresentada a personagem Madalena (Sonia Guedes), um corpo esquecido assim como todos os outros habitantes deste lugar. Jotuomba existe no interior do Rio de Janeiro, como tantos outros lugares escondidos nesse interior, geograficamente assim denominados em função de centros industriais, comerciais ou mesmo artísticos. Locais de atividade intensa, onde a vida corre em ritmo de blockbuster e onde o tempo é mensurável e consumível, perdendo seu caráter simbólico e tornando-se uma criação que controla o criador – tal qual o dinheiro. O distanciamento centro-interior não é medido apenas por uma representação cartográfica ou numérica, mas é muito mais um distanciamento de hábitos e de ritmo. O interior é o local onde as coisas se dão de formas outras, onde o tempo se arrasta de modo distinto. Assim é Jotuomba, cujos pequenos rituais diários se repetem de forma instintiva, sem necessidade de relógios ou calendários. A marcação temporal é tão volátil que a hora da missa pouco importa, e noite e dia perdem suas demarcações. A luz elétrica não chegou a este interior, e os escuros e claros das imagens colaboram para a imersão neste universo, tão endêmico, do tempo neste lugar. Novamente, o trabalho da direção de fotografia (Lucio Bonelli), em conjunto com a de arte (Marina Kosovski), trabalha primorosamente em função do apagamento de noções tão arraigadas – horas, dias e noites – , de forma que até a personagem Rita, inicialmente planejando ficar três dias, estende este prazo indefinidamente, de forma que a passagem de um continuum passa a ser percebida, então, através de sua adaptação ao ambiente, e não mais através de tais fatiamentos calculados de tempo. Por quê? Jotuomba, e tantos outros lugares esquecidos, estão fora da rede. E aquilo que não deixa vestígios não possiblita sua subsistência através da memória. Aquilo que não deixa vestígios não possibilita acessos – e Jotuomba é envolta neste isolamento pré-extinção. É difícil chegar ali, de modo que a passagem de Rita é um acontecimento inesperado. Há, nesta chegada, a quebra da montagem que evidencia a repetição conformada dos eventos. Os olhares distanciados vão se transformando, por vezes, em closes, e lugares vazios e objetos velhos transforam-se em detalhes merecedores de registro. Mas a falta de conexões reforça o caráter flutuante de Jotuomba, e todos que ali persistem não têm extensões. Seus parentes estão mortos. Não há para quem enviar uma foto, não há, para Madalena, motivo sequer para ser retratada numa foto. E quando acontece, quando ela se vê retratada, percebe-se de uma maneira distinta. O tempo, como instrumento social que permite a demarcação e, portanto, uma noção mais concreta de continuidade nas sociedades, este tempo volta a rodar quando Madalena se percebe velha. Quando Rita chega ao local e, com ela, a certeza de que Jotuomba será lembrada, registrada pelos olhos e pelas lentes da moça. Reforçam-se duas questões importantes, discutidas de maneira sutil e com extrema beleza no filme: A primeira, o caráter, mais que documental, mnemônico da fotografia; a outra, a morte como esta ambiguidade entre comprovação de existência e potencial de extinção.

A morte é o que conecta, ainda, Jotuomba ao resto do mundo, em especial pela sua significação dentro do conceito de tempo. Num lugar onde a única demarcação de tempo está no duo irregular viver-e-morrer, este último ato – ainda que como reforço do primeiro, o de viver, por estar, nele, inserido – parecia ser insistentemente adiado por esta comunidade. De tal modo que, por medo do esquecimento, eles esqueceram de morrer. Mas é a condição da morte como inevitável que possibilitava a existência, ainda que fantasmagórica, de Jotuomba. É esta condição de inevitável que demarca, pela sua aproximação com a noção de fim (cronológico, histórico, biológico, tantos fins…), este pertencimento de Jotuomba ao mundo. Morrer é o que faltava ali, e é o que Rita vem possibilitar. A morte distingue-se dos demais acontecimentos diariamente repetidos exatamente pelo seu poder de descontinuidade e quebra de ritmos e elos – a morte possibilita, por sua intromissão brutal, a renovação dos ciclos, o prosseguimento da vida, o prolongamento das existências através das lembranças. Não há mais ninguém para fazer o pão… A não ser Rita, que pode vir a ser uma extensão de Madalena – não numa tentativa de substituição, mas por deter, em si, a receita e tantos outros pormenores de quem já não se faz mais presente. Uma pessoa lembrada faz-se presente através destas emanações de outros sobre ela. O pão, simbolicamente muito bem colocado, permite a renovação e reafirmação da pessoa Madalena, de forma muito mais intensa que quando exata viva mas via-se esquecida – sem referencial – e, portanto, inexistente.

A morte e o esquecimento confundem-se, tomam um o lugar do outro. Por isso o medo de desaparecer se embaraça com o medo de morrer em Madalena. Cartas, fotografias, filhos, vestígios de si para o mundo fazem-se necessários para uma reafirmação da própria existência. Vestígios que se moldam numa permanência do ser no tempo, e que forjam uma memória calculada de si para o futuro: “assim, eu serei lembrado”. Em Jotuomba, onde todos são velhos e cheios de histórias não contadas, todos estes vestígios se apagaram. Madalena, como exemplo mais forte, não tem mais filho, não tem mais marido, escreve cartas para um morto não as ler. Jotuomba está no meio – no lugar das memórias que, ainda não extintas, só existem quando lembradas. E é bonito ver esse resgate, através da personagem Rita, de histórias que só podem nos tocar afetivamente a partir do momento em que são conhecidas, iluminadas. A partir do momento em que as lentes se voltam para elas, e então elas se fragmentam, passam a fazer parte do espectador e do seu passado. Histórias dissolvidas em histórias. Seja como recordação remota ou como um momento marcante, elas serão lembradas.

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