COBERTURA – 48 FESTIVAL DE BRASÍLIA DO CINEMA BRASILEIRO

MOSTRA COMPETITIVA- SEXTO DIA

Prova-de-coragem-Armando-Babaioff-e-Daniel-Volpi.-Foto-Ana-Mendes

Por Rafael Beck Andrade

No último dia da Mostra Competitiva de curtas, médias e longas-metragem do Festival, foram apresentados O Sinaleiro, de Daniel Augusto, O Corpo, de Lucas Cassales, e Prova de Coragem, de Roberto Gervitz.

Um homem idoso vive no meio do nada, onde trabalha como sinaleiro. O curta O Sinaleiro, baseado em um conto do britânico Charles Dickens possui uma história bastante interessante à medida que explora a solidão humana e suas consequências. Vivendo sozinho, o sinaleiro passa o tempo construindo bonecos de palito de fósforo, cuidando de uma horta, caçando animais para colocá-los em potes de vidro. Além disso, a casa deteriorada onde vive, a goteira incessante e insuportável, o trabalho de anotar o horário que o trem passa e informar à central contribuem para enlouquecer o homem e criar a tensão desejada no espectador. O futuro do velho é aguardado ansiosamente e os 15 minutos do filme ganham um ritmo frenético até o desfecho surpreendente.

O Corpo foi um dos vencedores do Festival de Gramado deste ano. O curta conta a história de um garoto que vive no interior no Rio Grande do Sul com o pai e a mãe. A visita de uma bela jovem, entretanto, modifica a vida do jovem. A direção de elenco apresenta boas interpretações, sobretudo do menino, que passa por momentos delicados na vida (matar uma galinha e descobrir que o pai e mãe não são pessoas tão boas quanto ele pensa). Com fotografia excelente, planos muito bem compostos e movimentos de câmera inteligentes, a narrativa, como em vários filmes aqui citados, enaltece o machismo e a objetificação da figura feminina. A medida que o filme passa, tudo piora, já que o filme dá a entender que a culpa dos pais do garoto terem atitudes inadequadas se deve a essa estranha visita feminina.

Em Prova de Coragem, uma mulher engravida do marido, um médico que deseja poder ser mais livre. Com a novidade e após encontrar um amor da adolescência, Hermano começa a revisitar o passado e questionar toda sua vida. Com uma história pouco original e que já delata no título que as provas que Hermano buscará são aquelas que reafirmam sua masculinidade e superioridade frente a tudo, o filme é um verdadeiro desastre. A fotografia é a mais tradicional de telenovelas possível, com planos batidos e movimento de câmera muito desagradável. Não existem enquadramentos com alguma iluminação diferenciada e as cenas são resolvidas com cortes demais. Os flashes do protagonista sobre a juventude parecem ter sido jogados na trama e a montagem não se preocupa em criar o ritmo necessário.

Com um roteiro clichê e bastante machista, os diálogos construídos ao longo da trama são tediosos. Além disso, os desempenhos do elenco são muito fracos. Em alguns momentos, isso se deve a uma mise en scène confusa, onde os atores se movimentam mecanicamente em um espaço que eles parecem não reconhecer. Talvez tenha faltado ensaio, ou os atores não reconheceram os locais de filmagem de forma mais ampla. Dessa forma, todas as movimentações, os diálogos, as discussões, se tornam mecânicas demais e realistas de menos. Para coroar, a tentativa de imitar o sotaque gaúcho (a trama se passa na cidade de Farroupilha) não funciona e o incômodo passa a ser não apenas na movimentação, mas também, na fala.

A última noite do 48º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro começou bem com um filme aplaudido e bastante comentado após a sessão. Mesmo sendo o último dia do Festival e sendo uma segunda-feira, a sessão estava lotada e O Sinaleiro causou uma tensão tão grande que, ao final do curta, o público demorou a aplaudir esperando para ver se nada mais aconteceria. O Corpo e Prova de Coragem, entretanto, quebraram com a qualidade do primeiro filme da noite. Dois filmes onde a figura masculina faz questão de dominar a figura feminina de alguma forma e onde as narrativas se perdem em si mesmas e não fazem nada além de decepcionar o espectador.

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