COBERTURA – 48 FESTIVAL DE BRASÍLIA DO CINEMA BRASILEIRO

MOSTRA COMPETITIVA – SEGUNDO DIA

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Por Rafael Beck Andrade

Na quinta-feira (17), segundo dia da Mostra Competitiva do 48º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, foram apresentados os curtas Tarântula, de Aly Muritiba e Marja Calafange, e Rapsódia para o Homem Negro, de Gabriel Martins, e o longa Fome, de Cristiano Burlan.

Em uma casa no meio do nada, vivem uma mãe e suas duas filhas. Uma delas, a mais nova, perdeu uma perna. A chegada do namorado da mãe, um homem sem um braço, que traz uma perna mecânica para garotinha, provoca a ira da irmã mais velha. Tarântula é um filme carregado de tensão por todos os lados: fotografia, som, interpretações e arte. Na cenografia, crucifixos demais parecem dizer que ali existem pecados demais, e bonecas penduradas por cordões causam uma estranheza mórbida. As cores pálidas e a correção de cores feita após a filmagem revelam o distanciamento sentimental entre os personagens. O som do silêncio e de efeitos alerta para algum acontecimento surpreendente. E as expressões dos personagens são carregadas de agonia, sufoco e um certo pedido de ajuda.

Ogum ensinou Oxóssi a desbravar caminhos. Ogum ensinou Oxóssi a cuidar de quem está à sua volta. Rapsódia para o Homem Negro se baseia nessa história para contar a história de dois irmãos negros da periferia. Um deles, o mais velho, é vítima de assassinato, o mais novo, então, resolve procurar por justiça. A história contada sobre dois irmãos negros e sobre o sofrimento dessa parcela da população brasileira é bastante conhecida. A forma como tudo é contado aqui, baseado na história de Ogum e Oxóssi, é que faz a diferença. O irmão mais velho, por exemplo, deseja ver o mais novo sendo conhecido por sua bela voz. O que ele parece não ver é que o irmão fará muito mais que isso. De forma metafórica belíssima, faz-se uma ode à cultura negra e ao candomblé no Brasil. Com uma montagem não linear, que mostra o presente, o passado e o futuro, o filme tem um ritmo inteligente e que prende o espectador do começo ao fim

Um homem, morador de rua, anda pelas vielas da grande São Paulo trajando roupas sujas e rasgadas e carregando, à sua frente, um carrinho de supermercado. Em Fome, Jean-Claude Bernardet, teórico e crítico cinematográfico, cineasta e escritor é quem dá vida a esse andarilho. O filme de Burlan parece, assim, querer explorar a situação miserável dos “desempregados eternos” baseando-se nesse personagem que age de forma estúpida. Logo no início do filme, uma jovem de classe média aparece para entrevistar outros mendigos e o protagonista. Ela não sabe muito bem o que faz ali e acaba admitindo, num discurso muito politicamente correto, que se aproveitou da situação para arrancar alguma história dos moradores de rua.

Com bela fotografia em preto e branco, planos longos e movimentos de câmera intensos, o filme tenta usar Bernardet para criar uma metalinguagem inexistente a partir de uma interpretação exagerada e enjoativa. Os rompantes do morador de rua contra as pessoas de classe média e classe média alta que querem “ajudá-lo” para acharem que estão fazendo algo de útil por essa parcela da sociedade são lidados de forma cômica, mas nada tem de engraçados. Não se compreende ao certo qual a intenção do diretor em realizar esse filme. Se for denunciar a situação do morador de rua no Brasil e conscientizar a população, não houve êxito na tarefa. Se é mostrar o quão a sociedade está preparada para lidar com eles, está equivocada. Se é mostrar a rua e seus moradores de forma lúdica e cheia de esperanças, está errada.

Apesar de histórias com focos totalmente diferentes, Tarântula, Rapsódia para um Homem Negro e Fome são filmes que perturbam, que incomodam. O primeiro curta, faz isso como um filme do gênero suspense. Com características americanizadas, o filme usa o isolamento, a crença exagerada, a falta de diálogo para justificar a tragédia eminente. O segundo critica a sociedade racista, a supremacia branca e traz uma luta violenta contra ela. E a violência não se dá somente no contexto físico, é mais subjetiva. A agressão moral contra o povo negro é paga com agressão moral contra o branco que assiste o filme. E se o segundo curta apresentado denuncia a supremacia branca e de classe média, o longa da noite a enaltece e tenta, sem sucesso, incluir uma parcela da população há muito esquecida.

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