COBERTURA – 48 FESTIVAL DE BRASÍLIA DO CINEMA BRASILEIRO

PRIMEIRO DIA – MOSTRA COMPETITIVA

A-Familia-Dionti

Por Rafael Beck Andrade

No 48º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, na noite de estreia da Mostra Competitiva de curtas, médias e longas, os filmes selecionados mostram as visões de diferentes crianças vivendo em diferentes condições. Confira as análises dos filmes Command Action, À Parte do Inferno e A Famílai Dionti.

Na noite de terça-feira (15), Walter Carvalho abriu a 48ª edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro com a estreia de seu novo longa, Um Filme de Cinema. Na quarta-feira (16), as demais atividades do festival foram iniciadas: Festivalzinho (mostra de curtas com temática infantil), máster classes (ao todo serão três: de fotografia, de roteiro e de direção de produção), fórum de coprodução internacional, e as mostras competitivas (uma com 12 curtas e médias e outra com 6 longas). Na quinta-feira (17), ainda terão início a mostra Brasília (com filmes do Distrito Federal), a mostra panorama Brasil (com filmes de todos os estados brasileiros), e a mostra Continente Compartilhado, com filmes realizados pelo Brasil e países como: Índia, EUA, Chile, França, Argentina, México, Dinamarca, Holanda e Alemanha.

A noite de estreia dos filmes selecionados para competir pelos prêmios que serão entregues na próxima terça-feira (22) começou com os curtas-metragem Command Action, de João Paulo Miranda Maria, e À Parte do Inferno, de Raul Arthuso, e com o longa A Família Dionti, de Alan Minas. Os três filmes se dedicam a olhares infantis sobre os acontecimentos ao redor das pessoas. Cada uma das crianças dos filmes vivendo em realidades diferentes e vivenciando momentos únicos.

Em uma feira de rua, um garoto de origem simples sonha em ter um objeto qualquer, que pode ser conquistado pela compra ou pelo furto. Essa dualidade entre as decisões que o garoto tem a tomar, misturada com planos que apresentam a feira e seus personagens muito típicos, são o que dão o tom do filme. Com planos longos que mostram o cotidiano da feira, Command Action tem um ritmo um pouco lento e a cada cena o espectador espera, ansioso, por um momento onde a história do garoto tenha algum tipo de reviravolta. Esse momento, entretanto, é muito sutil e o final é um pouco incoerente. Uma construção maior do jovem e de sua relação com o objeto desejado ou com sua situação social seria uma pedida mais interessante.

À Parte do Inferno é um filme de gênero que conta a história de uma mãe que descobre uma mancha de mofo dentro do guarda-roupas do filho. Á medida que a mancha cresce, coisas estranhas acontecem. Com direção de elenco inteligente e uma sonorização impecável, o filme se sustenta pela tensão criada por planos longos e surpreendentes e pela trilha sonora marcante. Com cortes precisos, a montagem escolhe de forma inteligente quando os planos devem ser mais longos e quando devem ser mais curtos. Devido à provável falta de recursos, os efeitos especiais típicos desse tipo de filme são substituídos pelas expressões visuais e corporais dos atores e, mais uma vez, pela sonorização. Como filme de gênero, o curta satisfaz o intuito de perturbar, amedrontar, intrigar o espectador. Como produto audiovisual, o filme poderia ser resolvido com o corte de algumas cenas que caem no perigo de quebrar o bom ritmo instalado pelo som e pela tensão.

Josué, Serino e Kelton formam uma família de um pai e dois filhos (um de 15 e outro de 13 anos). A mãe dos garotos, segundo Josué, desapareceu, não se sabe o paradeiro. Os três vivem em uma pacata cidade do sertão mineiro que tem sua rotina um pouco modificada com a chegada de um circo, e, por consequência, a chegada de Sofia, nova colega de classe de Kelton. Este, o mais novo, entretanto, possui uma singularidade: transpira intensamente sem qualquer motivo, ao ponto de virar apenas água. Com muito humor e metáforas interessantíssimas, A Família Dionti é um daqueles filmes com qualidade técnica e de linguagem cinematográfica inteligente que conquistam o público de imediato. Os acontecimentos impossíveis, como o fato de Kelton “derreter” e as invenções de Sofia sobre os números de circo, dão o ritmo agradável ao filme.

Há também que se destacar a escolha por planos mais longos, porém fixos. Em alguns deles, os personagens tem longos diálogos sobre os mais variados assuntos (na maioria das vezes, os assuntos voltam a permear as impossibilidades da vida), em outros, os personagens pouco falam, mas muito fazem. Com muitas cenas externas, o filme possui uma iluminação onde o sol escaldante está sempre presente, mesmo que seja entrando pela janela. Nessa construção fantástica, muito se deve ao elenco delicioso selecionado por Alan. Murilo Quirino e Anna Luíza Paes, Kelton e Sofia, são o ponto alto das interpretações, dois jovens com menos de 15 anos que transbordam realismo e encontram a química perfeita para viverem esse casal que está na transição da inocência e dos desejos carnais. Além deles, veteranos como Antônio Edson e Gero Camilo compõe esse elenco excelente.

É extremamente agradável ver um Festival com uma curadoria que se baseie nas relações dos filmes para compor cada sessão. Aqui, como já foi dito, é a vez das crianças serem os pontos de vistas dos filmes. Crianças que passam por situações muito diferentes. Um deles anda na feira desejando um objeto que não pode ter. Outro pouco fala e vive no próprio mundinho, sem receber muita atenção da mãe. O último vive seu primeiro amor e as dificuldades de enfrentar quem é ele mesmo. Em um filme, o ponto (mais ou menos) forte é a escolha do protagonista entre a compra e o furto. No segundo, a tensão causada, sobretudo, pela sonorização é que dá o tom do curta. E o último, se baseia, de forma muito linda e muito bem-sucedida, em uma espécie de conto de fadas alegórico no meio do sertão mineiro. Ainda tem muito festival pra rolar, mas já podemos ter uma noção de que coisas bem interessantes e diferentes estão por vir.

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